domingo, 29 de junho de 2014

Consigo enxergar

Da minha tranquilidade
eu consigo enxergar a dela,
os nossos cantos combinam,
os nossos sonhos são terra,
são telúricos, são puros,
são a coisa mais bela...

Está tudo nos olhos
desde muito cedo ela já se entregou,
e eu ainda com medo de chuva
porque quando chove me falta esse amor...

Vejo ela no céu,
no mar e no horizonte,
vejo em qualquer cor
como um flash a qualquer instante,
sinto ela em todo sabor,
sinto muita saudade,
vejo ela em toda parte,
e ainda mais de perto no arpoador.

Está tudo nos olhos
desde muito cedo ela se entregou,
e eu vivia com medo de chuva
porque quando chovia me faltava amor...

Há muito soube que sofreria,
que ela partiria com meu coração,
mas foi tudo nos olhos, estava tudo nos olhos,
não se nega o que está nos olhos,
é muito fácil de entender.

E até de lados opostos,
nosso mundo é quase igual,
daqui vejo ela sorrir,
de lá ela me vê sonhar
e tudo segue assim...

Porque da minha tranquilidade
eu consigo enxergar a dela,
os nossos cantos combinam,
os nossos sonhos são terra,
são telúricos, são puros,
são feitos das coisas mais belas.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Insisto

É pela vigésima vez que hoje eu insisto
em dizer-te que não vivo,
é pela tua falta,
pelo traço torto que minha linha da existência
se tornou ante tua ausência.

É que tudo que eu tenho,
tudo que eu tinha,
ficou em você...

O amor que eu guardava
floresceu sob tua égide
e não quis saber de ficar
quando você partiu...

Minha difícil admiração
também se apegou aos teus passos,
e as minhas palavras,
minhas rimas,
meu refrões...

Todos até hoje residem em ti,
nos teus sonhos,
nas tuas marcas,
nos cantinhos,
tuas curvas...

Mas os lamentos,
os lamentos escaparam,
a dor você esqueceu comigo
e não há mesmo o que fazer a respeito disso...

Ela é muito apegada,
cuido bem, fino trato,
alimento, afago,
sinto que sou por ela muito estimado.

E deve ser pela vigésima vez também
que hoje eu insisto
em fazer esse papel de coitado,
não te esqueci,
não te deixei sumir daqui ainda...

Mas é porque você tem culpa,
você levou tudo de mim
e eu já não suporto estar vazio assim.

Preciso te guardar,
pra me guardar,
pra não acabar louco de pedra,
arrastando o coração na terra,
com os olhos doentes, cegos, brancos,
carregando um sofrimento franco,
levitando, vagando por vagar,
seguindo a qualquer preço
nesse eterno e vil penar.

domingo, 22 de junho de 2014

Tristeza aqui é mato

De felicidade eu não entendo
e nem por um momento eu poderia agir melhor,
porque é quando eu digo que te amo,
é quando eu falo que estou pronto pra fazer você feliz
que eu entendo um pouquinho de tudo.

Mas amor,
eu preciso ser sincero
e dizer que apesar de muito esmero,
todo o meu entendimento
é procedente do sofrer...

Amor,
tristeza aqui é mato!
E eu não queria
cortar o seu barato,
mas é que se eu for trabalhar com fatos,
não posso perder o tato,
nem o trato com você...

Então por isso é que eu fiz
desses versos os mais verdadeiros,
pra torná-los meu álibi,
o meu texto certeiro
pra escapar do desamor...

É que de felicidade eu não entendo
e por isso eu vivo sofrendo
com medo de te perder.

É que tristeza aqui é mato
e se você não chega, amor...

Eu acho que eu me mato.

É que tristeza aqui é mato,
e independente do pecado,
se você não chega a tempo...

Eu já teria me mandado.

terça-feira, 17 de junho de 2014

O que eu sou

Não sei se você me entende,
se algum dia vai poder me perdoar,
mas de adianto eu já insisto,
acredito nesse futuro onde você aceita os meus erros.

Benzinho, veja bem que não é por mal,
é só que, eu não sei viver
como você aprendeu com os seus pais.

Eu tenho medo, muito medo,
medo de acabar vazio
como todas essas outras pessoas.

Eu não sei viver sem ter brilho nos olhos,
e honestamente eu já nem sei
se o que faço é certo ou errado,
não sei nem se faço qualquer coisa,
se devo fazer diferente...

Essas cismas,
isso tudo me tira tanto da vida,
tanto, tanto amor...
que benzinho, eu já nem sei,
nem sei do que sou feito...

Se de carne, osso
e sonhos...

De palavras e fugas,
de delírios, de noites
e precoces rugas.

Eu já não sei de nada,
me sinto feito de mentiras...

De juras e promessas,
de muitas, muitas brigas,
e outras lindas inquietas
bem como você...
como você costumava ser.

É que benzinho, eu não sou homem,
já me sinto como um rato...

E se sou qualquer coisa de verdade,
se tem alguma veracidade em mim,
qualquer coisa que eu não nego
além da alma...

É que eu sou medo,
eu sou o próprio,
exposto as vistas,
encarnado...

Eu sou
medo de amar.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Estado de sítio

Sabe quando chove
e você fica ali sozinho,
impossibilitado de qualquer coisa,
prisioneiro da indolência flutuante que a chuva traz,
rendido pelo absoluto silêncio das células,
da morte dos comichões de amor
e de outras vontades quaisquer...

Sabe quando chove
e dá aquela preguiça de gente,
preguiça de viver, de ver os outros,
de pisar fora de casa,
de almoçar, de jantar,
de ver tv, de abrir os olhos
pra quem sabe perceber que amanheceu...

Sabe, eu nunca disse isso antes pra você,
mas esses dias de chuva
são pra mim como os dias em que eu não te vejo,
os dias que você não dá notícias,
dias que você me faz pensar
que sumiu porque não suportaria me ter nas vistas...

Nessas horas eu fico pra morrer,
morrer, mas um morrer sofrido,
morrer que rende,
uma sangria torturante,
um medo desajeitado,
um arrepio, um suor frio
só de pensar que de repente,
que possivelmente,
por qualquer loucura tua,
por qualquer coisa que fiz e nem percebi,
por algum motivo tolo,
quem sabe, você tenha pensado bem e...

Preferiu me deixar,
me deixar aqui onde sempre estive,
largado num canto escuro da minha alma,
da minha existência pedante,
escravo do meu próprio mal estar,
cuspido, devolvido pro sórdido pedaço do mundo
de onde você me tirou,
mastigado, usado,
sugado, doente...

Eu quase não posso acreditar que você faria isso,
mas eu preciso cogitar a possibilidade,
não posso ser pego de surpresa,
seria dor demais, mais que muito,
maior que grande,
muito mesmo, dor demais,
infinita, e além...

Pensar tanto assim é torturante,
são planos pro sofrimento que vem num próximo capítulo,
simulação que dá vivência
só porque a agonia é um sentimento inocente
que dói já na imaginação,
que aperta o peito...

Faz bem fintar de quando em vez,
que é pra doer menos quando for preciso,
quando for declarado estado de sítio.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Não tenho nada

Ela não merecia
nada mais do que um olhar,
e me desmontou,
me desarmou, me entristeceu demais...

Me deixou chorando
vendo o mundo rente ao chão,
me tirou da vida, mudo,
me deixou com a solidão...

Ela não me faz bem,
nunca fez,
nunca me fez bem demais.

Ela não merecia
nada mais do que um olhar.

E eu não poderia fingir nem por um momento,
não seria fácil, não estaria certo,
eu não posso,
eu nunca faria,
eu realmente não entendo,
eu jamais poderia...

Ela não merecia nada
e eu já não tenho nada mais para lhe dar.

domingo, 8 de junho de 2014

Jarrett

Jarrett pela manhã,
e toda aquela efusividade musical,
todo aquele suor das notas,
o ofegar, a displicência na postura,
estilo indefinido, o aplauso,
os olhos fechados, a pausa...

Tudo isso pra mim
foi bom gatilho pra lembrar que toda tristeza,
apesar de também ser beleza,
é no fundo uma vilã...

Jarrett e o som do mundo acordando,
essa efusividade matinal,
essa euforia de tudo voltando a acontecer,
e do fundo do meu coração
te empurrando pra mais perto de mim,
com os seus olhos derramados na cama,
com seu jeito de menina mimada,
de menina pidona... parece mentira,
mas eu só desperto por essas lembranças.

Jarrett pela manhã...
Keith, é,
você não sabe quem é,
nem sonha saber,
mas me lembra você...

O som, tudo meio en passant,
mas com profundidade irretocável,
improvisação de intensidade,
know-how de maestrão.

É, coisa sem pé nem cabeça,
coisa da minha cabeça,
besteira, é,
você sabe como é.

Jarrett e um pouco do resto do mundo,
uma brecha na janela não mais do que isso,
um desgosto profundo, um aperto terrível,
um sabor esquisito de viver,
um medo de solidão, de mundo sem você,
seja resto, meio, pouco, inteiro...
medo de futuro sem você.

Jarrett pela manhã,
escrevi seu nome no ar,
estou indo dormir,
é sempre assim...

Não te pedi perdão,
não te pedi licença,
mas te pus nas minhas orações,
pedi pra Deus o perdão que não te pedi,
me aproveitei da fé pra conseguir dormir,
pra conseguir sumir...

E você deve estar acordando,
sabe como é...
é sempre assim.

Jarrett pela manhã,
e um pouco de reflexão,
não queria abusar de você,
eu queria ser sua metade,
mas não...

Jarrett pela manhã,
Tokyo, Vienna, O trio,
You don't now what love is!

Aquela intimidade,
conhecimento, as mãos no piano,
um dom tão divino,
e toda essa desfaçatez,
esse dentro, fora, dentro, fora...
que abuso, desplante,
o ar, o respirar... o som.

Jarrett pela manhã,
sinto sua falta,
é coisa sem pé nem cabeça,
besteira, mas você sabe como é,
já cansei de te dizer.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Reticências

Um a um vão-se os anos,
vão se espelhando no rosto,
marcando em rugas a dor e o amor...

Esvanecem pelo caminho os amigos e histórias,
esmerilham-se pouco a pouco as memórias,
fica tudo pra trás.

E as noite insones tão queridas e vivas
em que as idéias gritavam
e se deixavam nuas pra eternizar,
vão ficando raras,
vão fazendo a noite se tornar menos amada,
num divórcio longo e sem lágrimas.

Um a um somem os irmãos,
ficam as pedras e o homem só,
as areias em que pisamos jovens
e os velhos vícios, 
os velhos hábitos de quem já viveu melhor.

A cidade muda, molda novas visões,
intriga outras retinas,
leva por vezes curtas vidas
que ainda inocentes não conheciam os seus lados sem volta,
seus tratados cruéis, preceitos acertados,
sem perdão nem misericórdia.

Um a um perdem-se os amores,
faz-se menos necessária a conquista
e assistimos então o espetáculo do fim da vida...

Onde almas se cruzam,
as próximas e as nossas.

E ficam por aí,
nas igrejas e noutros enclaustros tolos,
acordos onde fabricamos qualquer felicidade
pra fingir viver sem dor...

E trocamos o brilho dos olhos
por essa falsa festa,
onde sob a tutela do tempo
faz-se do amor essa morte lenta a dois,
esse fim de linha.

Um a um dobram-se os joelhos,
vestem-se os ternos de cerimônia,
e aí se inicia o martírio familiar,
lugar comum onde o morto é amado 
e é pessoa tão doce...
antes fosse sempre assim.

Mas hoje em passos lentos
sob o sol do fim da tarde,
vejo que meus ensinamentos
são pouco fundamentais...

Há anos que sou só
e coadjuvante sem agonia
do meu definhar...

Onde por fim
serei pedra, pó, planície,
e uma vida inteira
poderá se fazer assim...

Lapidada num epitáfio curto
e sem reticências.