domingo, 26 de abril de 2015

Coisa da minha cabeça

Diria que existe um mal qualquer,
um mal de nome,
uma maldição,
coisa da cabeça...

Mas que se estende ao corpo.

Diria que são faltas,
são lonjuras,
sofrências,
coisa da cabeça...

Mas que se estende ao corpo.

Eu poderia dizer que são impressões,
são pequenices,
besteiras,
distrações,
coisa da cabeça...

Mas que se estende ao corpo.

Eu poderia pôr a culpa na genética,
nos astros,
na bebida,
no acaso,
no descaso,
no amor,
em todo sentimentalismo barato.

Eu poderia,
mas é coisa da minha cabeça.

Querela

Andam faltando dias cinzentos por aqui,
minha tristeza está pra morrer de fome
e o sol tem queimado a depressão...

Anteontem até choveu de noite,
mas eu quase não percebi,
não ventou,
não trovejou,
de que adianta quando é assim?

Tô precisando de um temporal
daqueles que levou Pedro de Caymmi,
e que endoideceu Rosinha,
a mais bonitinha e mais bem feitinha
de todas as mocinhas lá no arraiá.

Tô precisando de verdade,
de um tempo ruim, de um vento frio,
das pedras molhadas,
do Rio vadio que eu sempre amei,
e que amo mais quando chora
e eu choro junto.

Ando precisado da ausência,
ausência de todos e da minha,
da ausência dos meus e das minhas.

Tudo isso porque faltam dias cinzentos,
e a minha tristeza
logo mais morre de fome.

O sol não vai mesmo me dar uma trégua,
continua sufocando todos os dias com esses raios,
e o azul, o azul é sempre muito azul demais.

Ah, faltam pequenas tragédias,
falta sofrimento,
falta qualquer coisa
que traga o luto as mulheres que vestem branco,
faltam partes de mim que só funcionam nas atribulações,
ah se faltam,
e como fazem falta...

Mas o sol,
o sol não vai mesmo me dar uma trégua,
é melhor encerrar,
dar como finda esta minha querela.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Tê-los

Pequena, cê me perdoa?
É que eu não sei fazer mais nada
além do que eu faço,
e se eu não faço nada,
é porque às vezes é só isso
o que eu sei fazer.

E você...

Me diz qualquer coisa,
me dá um sinal de que tá tudo bem,
e se estiver tudo mal também.

Porque se você me permite,
antes de qualquer coisa,
eu queria dizer,
queria poder falar que... te amo.

Sem mentira,
queria muito que isso tudo não parecesse
mais uma armadilha,
mais uma cena daquelas que eu faço.

Pequena, uma tarde só,
me dá seu tempo,
me empresta o sol dos seus olhos.

Me deixa ver o vento nos teus cabelos,
me dá teus beijos
que eu vivo pra tê-los...

E nessa vida não me importa nada mais.

domingo, 19 de abril de 2015

Me enterre

Veja só a tristeza
estampada na minha cara,
há muito eu já não escondo,
não guardo comigo,
fingir qualquer felicidade
não faria sentido.

E não precisa me matar
assim tão gentilmente,
eu já não sei chorar,
eu já não sei sangrar,
eu não sei como é que faz
pra amar pouquinho assim.

E se você cruzasse a minha frente
como foi da primeira vez,
eu faria de novo,
eu faria tudo errado,
tudo errado uma outra vez...

Mas não precisa me matar,
não precisa me arrancar os sonhos todos,
não me tire de você tão repentinamente,
guarde um restinho de mim no seu coração,
guarde com carinho,
lembre quando quiser...

Me deixe num cantinho,
me enterre,
traga flores quando puder.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Gorceix

Será que cê me atende
se eu ligar?
Será que se eu apareço
de repente, cê vai gostar?

Será que qualquer coisa que eu falo
vai sempre te fazer sorrir?
Será que vai servir,
esse pouco que eu tenho pra te fazer feliz?

Será que tudo que eu vivo sem você
é mesmo uma mentira?
Será que tudo vai mudar,
assim, mesmo que a gente ande
como quem não quer que nada mude por aqui.

Será que todo pôr do sol no arpoador
vai me pegar desprevenido,
de um jeito manso, como quem sabia,
mas no fundo não sabia o que ia encontrar...

Será que sempre vai ser longe demais
andar da Garcia até a Gorceix,
pensando só nos passos e mais nada,
pensando em como tudo um dia pode acabar.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Imagem do dia!

Pier de Ipanema

Pular daqui

No céu azul
não há mais nada pra se ver,
não há você pra mim,
não há você mais pra eu me perder.

As nuvens tomam o cristo redentor,
mas não estão baixas
pra acenderem a noite como um refletor.

E eu deitado no tapete do corredor,
me esqueci quem sou,
eu fiquei em você,
eu deixei minha alma contigo.

E eu debruçado nesse parapeito,
tentando jogar n'outro canto esse desfecho,
vou tentando deixar pra lá,
tentando esquecer qualquer coisa
que te faça voltar a respirar.

Mas pra te esquecer,
eu preciso me deixar pra trás.

Pra te esquecer,
eu preciso sangrar bem mais,
muito mais...

Pra te esquecer,
eu não posso continuar a viver assim...

Pra te esquecer,
eu preciso pular daqui.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Vai que sara

Vai, vai que sara,
deixa, deixa que se esvaia
do seu peito o grande amor.

Porque nada,
nada valerá essa dor inteira
pra quem ficou pra trás.

Então vai,
vai e não se atrasa,
vai que ela já foi n'outro endereço ser feliz.

Vai, vai garoto,
vá e não amargue assim
por qualquer outra.

Leve esse grande amor no coração,
mas leve como uma lição,
leve ele leve, leve,
muito leve pra curar qualquer tristeza.

E quando tudo passar,
porque afinal tudo passa...

Vai, vai dar risada,
dá que sara,
que será tudo uma grande piada.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Imagem do dia!


Mais que lindas

Ando artisticamente frágil
qualquer coisa me desencanta,
vivo ultimamente um desinteresse sobre-humano,
uma coisa tão viva dentro de mim
que já não encaro como um corpo estranho.

A tempos me perdi do meu eu lírico,
e pelo andar da carruagem,
pela ausência persistente,
penso que talvez ele tenha sido assassinado,
talvez tenha por fim se suicidado,
parecia mesmo uma vontade de tanto tempo.

E eu, ando mais sozinho,
mais sofrido do que antes,
mais perdido, mais sumido de mim mesmo.

Eu tenho dado um bocado de trabalho
pras minhas tristezas,
andei desenterrando uma a uma,
eu quis procrastinar, rever, reler,
reescrever cada uma delas...

Eu quis,
e fiz isso por motivos que eu mesmo desconheço,
que desconheço mas que moram dentro de mim.

Motivos esses que assassinam minhas vontades,
que margeiam minhas alucinações,
que podam meus quereres,
que me jogam de cima de prédios
nos sonhos em que penso poder voar.

Ah, eu preciso tanto,
tanto, tanto de todas elas,
de cada uma delas...

Tristezas,
essas tristezas brandas que ficam
e que já não nos tiram mais nada,
não nos tiram lágrimas,
nem trazem nenhuma dor...

Tristezas,
essas tristezas doces
das quais tiramos por acidente boas melodias,
bons olhares, boas lembranças,
tiramos sóis pros dias cinzas.

Tristezas,
tristezas mais que lindas.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Fiz pra você

Eu fiz pra você dar o nome,
eu fiz dos seus olhos,
fiz pra você...

Eu fiz e diria que é grande a dor,
não quis,
nunca quis te perder assim.

E hoje lanço-me puro e despreocupado
quando te cobro amor e compreensão,
eu vivo do nada e pro nada,
sinto tua falta,
como eu sinto a sua falta.

Sigo sem abrigo, num descampado sem fim,
sigo através do vento e das miragens,
vou convulsionando palavras em seu nome,
nesse árido deserto que é a madrugada...

Vou vagando a procura
da fonte invisível de você,
que por Deus, já deveria estar perto,
um pouco que seja,
um pouco mais perto.

E nesse canto do mundo inteiro,
em cada canto desse mundo todo,
só peço que não te encontre em pedaços,
em pedaços do amor que hoje...
eu já não lhe devo.

E eu fiz pra você dar o nome,
eu fiz dos seus olhos,
fiz pra você...

Eu fiz e diria que é grande a dor,
não quis,
nunca quis te perder assim.

Eu fiz e diria que ainda é grande o amor,
não quis,
nunca quis te perder assim.