terça-feira, 1 de outubro de 2013

Santo sujo

Se o tempo pudesse
parava em cinco oito,
e devia...

Porque nunca chega de saudade
ver aquela realidade tão distante,
deste dia.

E o cento e sete,
a Elizeth, a bossa, a fossa,
a nossa grande dor
de viver pra ver essa ipanema apocalíptica,
especulada, loteada, agonizando com a fama,
como no apagar da velha chama.

Mas essa dor tão presente,
tão cruel e insistente...

Não me pega pela Montenegro,
perdão poeta, mas ainda é cedo.

Fosse eu, te punha nas Acácias,
e fazia dessas bandas um culto aos teus vícios imorais.
Fundava o sindicato da bossa sempre nova
e abria o cinema dos teus olhos na Visconde Pirajá.

E por falar em paixão, Tom,
te resgatava logo que pudesse daquele esquisitíssimo Galeão,
e em teu nome plantava palmeiras imperiais
pelos escassos canteiros
devastados por Sergios Dourados
e outros sem jeitos, sem poesia.

E se desse tempo, eu acho que me arrependia,
voltava, tirava Vinicius das Acácias,
botava de vez entre a Maria e a Joana,
ali na Senhora da Paz...

Na marra, eu arrumava uns milagres
e pagava pra ver o santo sujo,
o aluno do místico...

Verdadeiro barão de ipanema,
imortal, eclesiástico...

E ainda me faltariam títulos,
e não haveriam adjetivos,
se por acaso não existisse paixão pra explicar...

São sujo,
o defensor das causas imorais.

De Moraes.

domingo, 22 de setembro de 2013

Dos céus

To precisando de uma força de Zeus,
pra fazer chover
e trovejar qualquer dia...

Que é pra eu poder te ligar,
é pra eu perguntar
se você está por acaso precisando de mim.

To precisando de uma força dos céus,
que é pro tempo fechar... num domingo qualquer.

Prometo, juro, eu deixo uma oferenda pra Rá,
se ele tirar uns dias de folga
e deixar Tupã trabalhar...

Caciques do Brasil, tupis-guaranis, kaiowás,
to precisando que se faça chuva,
pro sol de um velho amor voltar a raiar.

To querendo mesmo uma interferência divina,
que é pro céu chorar e fazer sorrir minha vida.

E São Pedro por favor, tenha dó,
piedade de minha alma pagã,
mas é que minha fé, o meu catolicismo barato,
não parece bastar pra fazer chover amanhã.

sábado, 21 de setembro de 2013

Maria Joana

Maria Joana,
fez seu altar na cama,
numa sala com cortinas
perfeitas pra esconder o caos.

Ela faz um tipo esquisito de lunática
que pra mim nem é tão difícil de entender.

Maria Joana,
ruiva, uiva, aceita, deita,
veste, despe, ama e usa...

Aplica!

Porque a vida é tão mais linda,
com amor, com metafísica,
com suas curvas cruzando todos os olhos
no leblon.

Maria Joana,
está entre as coisas prediletas da vida,
menina doce, soltinha, perdida...

Ela não quer fama, Maria Joana,
é tímida e cínica,
maldita e romântica.

Ela é a própria contradição,
é certa e errada,
é beijo na boca e mão na mão.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Daqui dez anos

Ela escolheu o lado torto da vida,
quis assim pra contornar suas avenidas,
pela margem, sem medo...

Pra deixar por aí
todo o gostinho do mel que sentiu,
e que viu escorrer entre as mãos
das atitudes mais turvas
e das vantagens mais estúpidas
que se podem desejar.

E eu vou fazer o que?

Prefiro esquecer,
deixar pra dizer qualquer coisa daqui dez anos...

Quando esfriarem os ânimos,
quando estivermos calmos feito o mar no verão.

Ela escolheu o lado torto da vida,
pra esconder suas fraquezas, suas feridas,
pra deixar por aí impressões sexuais...

Vontades de uma juventude corrida
que pertence a vida de quem pensa
que tudo pode realmente acabar amanhã de manhã.

E eu? Prefiro esquecer...

Deixar pra te ver por acaso,
daqui dez anos, quando esfriarem os ânimos,
quando estivermos calmos
feito o mar nas noites de verão.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Os dias

A noite me entrega verdades
que o dia jamais pôde me vender,
é nela que eu encontro
os desencontros que me prendem a você.

E os dias quase nunca trazem paz,
quase sempre insistem em me lembrar
que tudo está longe demais
de qualquer final feliz...

Eu não estou longe de casa,
mas a milhas e milhas de você,
e honestamente, eu não sei o que devo fazer.

Volta pras minhas areias,
pras nossas pedras lusitanas,
conta pra mim qualquer coisa engraçada,
olha pra mim, não diz nada,
não precisa dizer.

E eu peço pra noite uma benção,
mais uma daquelas estrelas cadentes
que me concedem desejos,
que me deixam viver pra te ver,
pra te ter...

Volta pros meus falsos trilhos dourados,
me diz qualquer coisa, me prometa feriados,
espere o sinal abrir, a chuva ir embora,
e quando o mundo parar de trovejar,
me esqueça...

Porque os dias quando vem,
levam a noite,
e as coisas doces que ela deixa também.

E os dias vem,
todos os dias,
eles vem.