terça-feira, 17 de junho de 2014

O que eu sou

Não sei se você me entende,
se algum dia vai poder me perdoar,
mas de adianto eu já insisto,
acredito nesse futuro onde você aceita os meus erros.

Benzinho, veja bem que não é por mal,
é só que, eu não sei viver
como você aprendeu com os seus pais.

Eu tenho medo, muito medo,
medo de acabar vazio
como todas essas outras pessoas.

Eu não sei viver sem ter brilho nos olhos,
e honestamente eu já nem sei
se o que faço é certo ou errado,
não sei nem se faço qualquer coisa,
se devo fazer diferente...

Essas cismas,
isso tudo me tira tanto da vida,
tanto, tanto amor...
que benzinho, eu já nem sei,
nem sei do que sou feito...

Se de carne, osso
e sonhos...

De palavras e fugas,
de delírios, de noites
e precoces rugas.

Eu já não sei de nada,
me sinto feito de mentiras...

De juras e promessas,
de muitas, muitas brigas,
e outras lindas inquietas
bem como você...
como você costumava ser.

É que benzinho, eu não sou homem,
já me sinto como um rato...

E se sou qualquer coisa de verdade,
se tem alguma veracidade em mim,
qualquer coisa que eu não nego
além da alma...

É que eu sou medo,
eu sou o próprio,
exposto as vistas,
encarnado...

Eu sou
medo de amar.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Estado de sítio

Sabe quando chove
e você fica ali sozinho,
impossibilitado de qualquer coisa,
prisioneiro da indolência flutuante que a chuva traz,
rendido pelo absoluto silêncio das células,
da morte dos comichões de amor
e de outras vontades quaisquer...

Sabe quando chove
e dá aquela preguiça de gente,
preguiça de viver, de ver os outros,
de pisar fora de casa,
de almoçar, de jantar,
de ver tv, de abrir os olhos
pra quem sabe perceber que amanheceu...

Sabe, eu nunca disse isso antes pra você,
mas esses dias de chuva
são pra mim como os dias em que eu não te vejo,
os dias que você não dá notícias,
dias que você me faz pensar
que sumiu porque não suportaria me ter nas vistas...

Nessas horas eu fico pra morrer,
morrer, mas um morrer sofrido,
morrer que rende,
uma sangria torturante,
um medo desajeitado,
um arrepio, um suor frio
só de pensar que de repente,
que possivelmente,
por qualquer loucura tua,
por qualquer coisa que fiz e nem percebi,
por algum motivo tolo,
quem sabe, você tenha pensado bem e...

Preferiu me deixar,
me deixar aqui onde sempre estive,
largado num canto escuro da minha alma,
da minha existência pedante,
escravo do meu próprio mal estar,
cuspido, devolvido pro sórdido pedaço do mundo
de onde você me tirou,
mastigado, usado,
sugado, doente...

Eu quase não posso acreditar que você faria isso,
mas eu preciso cogitar a possibilidade,
não posso ser pego de surpresa,
seria dor demais, mais que muito,
maior que grande,
muito mesmo, dor demais,
infinita, e além...

Pensar tanto assim é torturante,
são planos pro sofrimento que vem num próximo capítulo,
simulação que dá vivência
só porque a agonia é um sentimento inocente
que dói já na imaginação,
que aperta o peito...

Faz bem fintar de quando em vez,
que é pra doer menos quando for preciso,
quando for declarado estado de sítio.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Não tenho nada

Ela não merecia
nada mais do que um olhar,
e me desmontou,
me desarmou, me entristeceu demais...

Me deixou chorando
vendo o mundo rente ao chão,
me tirou da vida, mudo,
me deixou com a solidão...

Ela não me faz bem,
nunca fez,
nunca me fez bem demais.

Ela não merecia
nada mais do que um olhar.

E eu não poderia fingir nem por um momento,
não seria fácil, não estaria certo,
eu não posso,
eu nunca faria,
eu realmente não entendo,
eu jamais poderia...

Ela não merecia nada
e eu já não tenho nada mais para lhe dar.

domingo, 8 de junho de 2014

Jarrett

Jarrett pela manhã,
e toda aquela efusividade musical,
todo aquele suor das notas,
o ofegar, a displicência na postura,
estilo indefinido, o aplauso,
os olhos fechados, a pausa...

Tudo isso pra mim
foi bom gatilho pra lembrar que toda tristeza,
apesar de também ser beleza,
é no fundo uma vilã...

Jarrett e o som do mundo acordando,
essa efusividade matinal,
essa euforia de tudo voltando a acontecer,
e do fundo do meu coração
te empurrando pra mais perto de mim.

Jarrett pela manhã...
Keith, é,
você não sabe quem é,
nem sonha saber,
mas me lembra você...

O som, tudo meio en passant,
mas com profundidade irretocável,
improvisação de intensidade,
know-how de maestrão.

É, coisa sem pé nem cabeça,
coisa da minha cabeça,
besteira, é,
você sabe como é.

Jarrett e um pouco do resto do mundo,
uma brecha na janela, não mais do que isso,
um desgosto profundo, um aperto terrível,
um sabor esquisito de viver...

Um medo de solidão,
de mundo sem você,

seja resto, meio, pouco, inteiro,
o medo é de futuro sem você.

Jarrett pela manhã,
escrevi seu nome no ar,
estou indo dormir,
é quase sempre assim...

Não te pedi perdão,
não te pedi licença,
mas te pus nas minhas orações,
pedi pra Deus o perdão que não te pedi,
me aproveitei da fé pra conseguir dormir,
pra conseguir sumir...

E você deve estar acordando,
sabe como é...
é sempre assim.

Jarrett pela manhã,
e um pouco de reflexão,
não queria abusar de você,
eu queria ser sua metade,
mas não...

Jarrett pela manhã;
Tokyo, Vienna, O trio,
You don't now what love is!

Aquela intimidade,
conhecimento, as mãos no piano,
um dom tão divino,
e toda essa desfaçatez,
esse dentro, fora, dentro, fora...

Que abuso, desplante,

o ar, o respirar... o som.

Jarrett pela manhã,
sinto sua falta,
é coisa sem pé nem cabeça,
besteira, mas você sabe como é,
eu já cansei de te dizer.