domingo, 14 de setembro de 2014

Desmemoriado

Há algo errado comigo
eu me esqueci de você,
não pode mesmo ser normal
mais um domingo sem te ver.

Faz tempo desde que você voltou
e as novidades eu nem quis saber,
talvez te ligue quando der saudade,
mas de verdade eu acho que
alguma coisa mudou aqui...

Será o vento desse fim de tarde
que me pegou pelos braços, perdido?

Será essa perturbação das manhãs
quando eu chego em casa sozinho?

Já não entendo muitas coisas,
tudo me passa tão despercebido,
e eu vivo de pernas pro ar
nesse culto absurdo ao meu eu distraído.

Parece que vivo tão longe,
vejo tudo assim de cima, sonhador,
não sei mais quando estou acordado
ou quando estou só desligado da dor.

Será esse meio dia tão perto
que me agarra pelas canelas?

Será o efeito colateral de um sintético
esse meu novo eu amnésico?

Ando mesmo em outro mundo,
em outro quando, um plano qualquer,
onde não sei de nada
e vivo sem porque algum...

Ando mesmo desmemoriado,
ando desalinhado,
desatado a um choro repentino e incomum.

Será essa falta de cuidado
que me pôs tão longe de você?

Será o futuro chegando
todo mundo olhando
e eu ainda sem ver...

Já não entendo muitas coisas
parece que vivo tão longe...
será esse meio dia tão perto
ou só o efeito colateral de um sintético?

Eu ando mesmo em outro mundo,
ando desmemoriado...
será essa falta de cuidado
que me põe tão longe de você?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Profanador

De certo risonho
profanador de corações,
desavergonhado colecionador
de deslizes, distrações.

Caminhante leve de passos sortidos,
seccionando,
marcando com os olhos todos os desvios.

Destemido, pra sempre menino,
descomunalmente provido
de talento, dom divino,
pras inutilezas, sutilezas,
as delícias do caminho...

Inimaginável,
despretensioso protagonista de lugar nenhum,
muy afortunado, gaiato, atirado,
sorriso rasgado, coringa,
inadvertidamente levado
pelos improvisos dessa vida.

Narciso ferido no eco
de suas repetidas conjecturações,
incompreendido, perdido em seu próprio ser,
rendido bem quando havia de se reerguer.

Profanador de corações,
por prazer, facilidade,
por verdades que só Deus entenderia.

Profanador de corações,
descrente do amor
pela dor que traz consigo.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Blue note

Bem sinto que ela vai me trocar
e nem parece que demora,
já perdeu toda vergonha
e já não finge quase nada.

Ela vai arrumar alguém
com um nome mais charmoso e composto,
alguém que se ajeite melhor ao seu gosto,
com um sobrenome forte, latino,
e a barba bem feita como eu nunca tive.

Vai arrumar alguém mais feliz,
que vai querer o mundo como eu nunca quis,
que goste de cinema só pra variar,
que não ame Carvana mais do que Godard
e prefira Woody Allen a Humphrey Bogart.

Vai arrumar alguém que lhe ame
bem menos do que certamente eu amei,
que não vai a ver ao piano
e se derreter como só eu sei.

Alguém que não conhece Take five,
que nunca ouviu falar em Blue note,
que não a ama mais com Bill Evans,
Coltrane, Getz, Davis,
Bird e Chet Baker...

Bem sinto que ela vai me trocar
e nem parece que demora,
já perdeu toda vergonha
já não finge quase nada...

Ela vai arrumar alguém
que vai mentir melhor do que eu,
e vai voltar só pra me dizer
que eu nunca fui o tal.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Samba do amor estranho

Ele demora muito,
ela não aguenta mais.

Ele fala de amor,
ela de futebol.

Ela gosta do Zico
flamenguista de família,
ele é botafoguense,
só viu Túlio Maravilha.

Ela toda saidinha,
loira da noite, puro ecstasy
ele sombra e água de coco,
qualquer canto, Waikiki...

E eles passam juntos
todo dia de viver
provando que o amor
só se dá pra quem se deu.

Ele jura amor a toda hora,
ela vive pra escutar.

Ele é feito de dúvidas,
ela só escolhe sem pensar.

Ela pensa em ter família
mas não conta pra ninguém,
ele louco por criança
pensa em ter filhos também.

Ela só chora no escuro,
desabafa no espelho,
ele chora por besteira
e fala sozinho o tempo inteiro.

Por isso passam juntos
todo dia de viver,
completando-se em cada espaço
não acredita quem não vê...

São metades da laranja
almas que não se separam mais,
filhos do acaso,
do destino, dos sinais...
de que a vida é muito boa, sim,
e se doa pra quem quer ser,
escravo da alegria,
chegado do alvorecer...

Ele escutou esse samba
e guardou pra decorar,
ela desligou o rádio
não quis ouvir pra não grudar.