quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Imagem do dia!

Verão do Pier 1972

Poema triste

Tristeza desce daí,
deixa de drama,
não precisa ser sempre assim,
não precisa ser nunca assim.

Vem, não some,
chega de ficar distante.

Desce que eu te faço um poema triste,
eu cantarolo um fado,
bolo um conto terminado em suicídio,
em assassinato...
desce, eu prometo que eu faço.

Subo pelas eras até tua varanda,
aprendo a arranhar um violão,
deixo de casmurrice e apronto uma serenata,
esquece que sou eu,
esquece que eu não sou de nada.

Vem, to pensando num romance,
tá difícil de escrever,
é em ipanema, saca?
Eu preciso de você.

Ela vai ser Maria Fernanda,
ele eu não sei, não consigo decidir,
no fim seremos nós,
mas agora ainda não importa
vou fingir que eu nunca quis.

Desce aqui pra conversar,
para de se esconder,
eu sei que é carnaval,
mas eu preciso mesmo de você.

Vem aqui vem,
aproveita que tá chovendo,
que tá nublado,
que eu to quietinho e mal acompanhado.

Prometo que eu fico sozinho uns dias,
que eu faço uma playlist de chorar,
não faltará desesperança pelas manhãs,
e nem trará o intento a madrugada...

Juro solenemente fidelidade a misantropia,
juro, juradinho, de mão espalmada sob a bíblia,
disponho minha existência a ser sua morada,
abdico da felicidade,
você é minha bem amada.

Desce, desce pra falar comigo,
vem ver o que eu tenho pra você...

Eu fiz um poema triste,
com a tristeza que me falta pra escrever.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O dia e a noite

O dia não tem esse véu de mentiras
da noite que eu tanto admiro,
não tem essa saciedade pelo terror,
não brinda o oportunismo com um sorriso na cara,
nunca atravessa a rua
sem olhar pros dois lados.

A noite passeia nas travessas escuras
vestida de preto, com sua bengala de marfim
tateando o chão como se cega fosse,
como se andasse de olhos fechados
pra não enxergar o amor.

O dia é claro e às vezes triste,
bem como em nós humanos
ele possui aquela distância dolorosa
entre a intenção e o gesto.

A noite não, ela é terrivelmente autêntica,
forte, impiedosa,
e vem trazendo o monstro da desolação na coleira,
insaciável, caótico, bruto e desordeiro.

O dia quase nunca perde o controle,
galã, bom moço,
é o genro que todas as sogras queriam,
o protagonista dos romances mais bem terminados.

A noite não, a noite é só dela,
enganadora, prolixa, sintomática,
metralha suas vontades,
suas palavras envenenadas,
só chora o próprio choro,
só ri o próprio riso,
ela nunca soube pra que serviam todas essas pessoas
se não pra pisar em cima
ou só pra esquecer que estavam lá.

O dia é leve,
é o soul do Tim,
é Radamés e Tom Jobim,
gol de falta do Zico,
algum chutaço do Marcelinho,
é leve, leve mesmo,
feito um painel de Portinari,
um azulejo português,
mar de verão verde-azulado.

A noite é mais sinistra,
é a poesia jorrando da fonte invisível de Schmidt,
é mais Ernesto Nazareth que Pixinguinha,
gol de falta do Petkovic,
a última pernada do Schürrle naquele mineiraço,
é, ela é mais desleal,
é desalmada como Tibbets sobrevoando Hiroshima,
megalomaníaca como Heródes, como Nero, como Hitler,
e inconsequente como Júlio Cesar,
como Diocleciano e Omar destruindo Alexandria.

Ah, como eu prefiro a noite...
tão singela comungando de toda essa crueldade,
tão maléfica e tão acolhedora no seu silêncio, na sua inocência,
tão afeita a rapinagem
e ao mesmo tempo tão contemplativa e despreocupada...

Ah, que Deus nos afaste dessa noite dos homens,
e nos permita vivê-la enquanto pureza,
enquanto ausência de luz e tão somente isso.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Toda vez que chove

Torço para os raios e trovões,
pra toda chuva nos finais de tarde,
pras ressacas violentas do mar,
torço pelo fog interminável das manhãs...

E amanhã é sempre um novo dia,
um novo lindo dia,
mais um dia em que você
nem vai lembrar de mim.

Escrevo seu nome no ar aos domingos,
repetidamente, só por vício,
pra lembrar de sofrer sua ausência,
pra ter ainda um pouquinho de você comigo.

E toda vez que chove forte,
eu espero você me ligar
pra dizer que ainda tem medo,
pra pedir pra eu estar contigo.

Por isso eu torço para os raios e trovões,
e para toda chuva nos finais de tarde,
pras ressacas violentas do mar,
torço pelo fog interminável das manhãs...

Eu vivo nublado,
vivo chovendo,
vivo morto na ressaca
nadando no mar de sua ausência...

E toda vez que chove forte,
eu amanheço...

Amanheço porque o meu coração pede,
porque sou tomado pela sensação
de que é possível que você venha dessa vez.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

É só tipo

Você é meu mal sincero,
é certo,
indiscreto amor pagão,

Você é minha flor de lis,
é solidão de olhos negros,

Você é luz e sombra
é ódio e compreensão,

Você, menina,
é minha carta de confissão...

E eu que sempre faço tipo de babaca,
finjo bem, mas é fachada,
na verdade me afogo em sofrências,
eu corto um dobrado pra cumprir
todas essas tarefas canalhas
que são necessárias pra viver aqui...

É que na realidade,
eu sou só doçura e fidelidade,
eu me importo demais,
porque eu amo demais,
eu te quero demais
e é só...

Não compre minhas máscaras,
é tudo sacanagem...

Não acredite no que dizem
e no que não dizem também.

Porque eu vivo de verdade
apaixonado por você...
eu só vivo de verdade
quando vivo com você.