quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Imagem do dia!

Da esquerda pra direita: Murilo Mendes, Anibal Machado, Jayme Ovalle, Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt

Um dia

Ando perdido de mim mesmo,
tenho sentido um peso nos ombros,
são os pianos que carrego;
e cruzes, eles já são tantos.

Tenho sentido um vazio,
coisa de corpo e de alma,
minha mente não está clara,
os pensamentos voam, me escapam,
e não há nada que eu possa fazer.

N'outros tempos eu me receitaria umas boas horas dos meus poetas,
costumava funcionar, costumava levantar o meu astral,
mas hoje, hoje receito apenas o silêncio,
e recito minhas tristezas em voz alta,
soluço e revezo o choro de criança
com o medo de morrer assim, aqui, sozinho.

Ando realmente perdido, vivo como se apenas contasse os dias,
como se esperasse tudo acabar,
tudo virar pó bem na minha frente,
mas, sigo em frente,
não enfrento, reluto, me interno em sofrimentos,
enterro minhas vontades, eu seco, a fonte seca,
já não sei se duro, se vivo ou se morro,
não sei se duro, mas não me retiro fácil daqui,
só vou, um dia,
num surto, quem sabe, de noite ou de dia,
não sei... mas vou.

Personagens

Já não tiro do papel meus acidentes de verão,
matei meus personagens num dia que chovia,
em boas horas de tédio
onde eu serenamente me consumia.

Matei Maria Fernanda,
e eu a amava tanto,
morreu em minhas mãos,
morreu de inanição.

Era tristeza que ela sentia,
e eu não podia escrever diferente,
os olhos dela em mim não mentiam,
era de tristeza que ela morria,
e eu não podia escrever diferente.

Matei meus personagens mais amados,
soterrei todos eles nas areias do meu mais profundo esquecimento,
eu deixei pra trás, eu não pude continuar,
eu não era bom assim, precisava parar,
eu precisava viver umas coisas mais,
reviver, reviver umas coisas más.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Imagem do dia!


A culpa

Ando pensando em como você destruiu a sua vida,
e em como também poderia ter destruído a minha,
ou eu é que talvez devesse ter te salvado,
já não sei no que pensar, já não sei o que faço.

Eu vejo nos meus sonhos os seus olhos vermelhos de quase 10 anos atrás,
e choro por dentro, ouvindo ele cantar que homem não chora,
já que hoje, só existe mesmo essa nossa intimidade entre estranhos pra viver,
eu não te reconheço mais,
e nem sou aquele que você deixou pra trás.

Vez em quando me lembro das coisas,
como em flashes, há dias em que tudo me aparece de repente,
os móveis, o cinzeiro, a grade da varanda,
as suas amigas chatas, o seu jeito de pidona,
penso em tudo que foi ruim e ainda sinto falta,
penso no homem diferente que eu seria ao seu lado.

E então, ouço de novo aquele disco em que ele diz que homem não chora,
e não chora mesmo, mas eu choro por dentro,
eu penso em como você destruiu a sua vida,
eu lembro dos olhos vermelhos, dos sóis poentes que vimos,
dos dias nascendo, das matinadas que tanto queríamos,
lembro das voltas pra casa, das casas, do alto, da serra, da barra,
lembro dos tetos, dos choros, das brigas, de todas as desgraças também,
e não entendo, eu não consigo aguentar...

Como foi que você fez pra destruir a sua vida?
Eu preciso saber, eu preciso entender,
pra aceitar que a culpa não foi minha.

Imagem do dia!


domingo, 14 de agosto de 2016

Um susto

Um susto, meus livros na estante não significam nada,
minhas poesias, todas essas palavras,
todas as meninas cantadas,
isso tudo não me diz mais nada.

Fui tomado por um vazio tremendo,
uma impossibilidade, uma falta de norte,
um anseio pavoroso,
coisa que nunca tinha me acontecido.

De repente estava destinado
a um papel pequeno no mundo,
e até aí, perfeitamente aceitável,
mas era mais do que isso,
eu parecia destinado ao esquecimento,
a desimportância,
destinado ao apagar das luzes.

Um surto, não sei,
não respondo mais por mim,
a família, os amigos,
todas essas preciosidades,
todos os meus cantos pela cidade,
isso tudo já não me diz mais nada.

Fui tomado por um sentimento terrível,
um tipo de ausência,
uma tristeza profunda,
uma dor nos olhos,
nos ombros...

Como pesa essa existência,
como é forte essa deslealdade que traz o tempo,
como é grande o coração para que caiba tanta dor,
como é difícil ser osso e carne,
como é sofrida essa passagem.

Um susto, sim,
e tudo isso já não me diz mais nada.