sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O carimbador de almas

Sabia que podia
apesar do que estava escrito,
sabia que não ia desistir.

Tudo idealizado,
sem deslumbre pelo poder.

Tudo sempre na palma da mão,
sem nenhuma chance de se perder.

Cultivava a sua volta
lindos pontos no espaço tempo,
pintados por aí pra não esquecer,
num dia quente daqueles seus,
sentimentos derretendo feito a cera no entardecer.

Confiava só no acaso
porque ele nunca o traiu.

E não gostava de pessoas,
só de algumas poucas e boas.

Escolhia os seus lugares
incluía quem ele quisesse,
colhendo almas bonitas
pra que elas não esmerilhassem.

Sabia que podia
um outro mundo escrever,
sabia que ninguém podia deter.

Em noventa graus pra entreter os olhos,
perder-se em cores, em vícios e corpos,
na areia azul do mar ou num mar azul de areia,
com o sol da noite que brilha e com sorrisos lhe presenteia.

Batuques, coqueiros, machões,
eunucos garanhões,

meninas felizes velando em choro baixo
os seus já falecidos botões...

Sabia que podia
esse outro mundo vivenciar,
mas sentia que o tempo era cruel,
e as máscaras iam despencar.

Caixa de pandora

O néctar da noite dita o efeito,
dita o meu jeito e os feitos que eu devo contar,
faz da noite uma caixinha de surpresas,
e a cada copo alguma coisa pode mudar.

Nem que seja o ângulo de ver o mundo,
e por ser vagabundo a liberdade eu não precisei comprar,
eu nunca precisei pagar...

A madrugada estende a mão,
salva e leva tanta gente,
conhece os pulsos das mansões e da sarjeta.
Todos os malucos que não se medem pela grana,
todas as vadias, e as meninas de família,
traficantezinhos, otários, 
viciados, boas pintas...

A noite é de todos,
caixa de pandora,
labirinto de perdição.

A noite é de todos,
ela é uma criança cruel e doce,
que não gosta de ouvir não.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Imagem do dia!


Até quando

O ritmo extasiante das tragédias me consome,
toda noite quando deito,
deito sempre novo homem.

Sobre viver, já escrevi,
sobre vida, sobre morte,
sobre amor à primeira vista,
e sobre meninas sem sorte.

Mas hoje, é o ritmo embevecido desse mundo violento que me exaure,
que me deteriora, que me parte e me desconsola,
não vejo melhora, nem de longe, nem por hora.

E sabe-se lá até quando eu escrevo,
até quando terei bala na agulha,
amor a altura,
e olhos pra ver...

Ver as coisas do mundo que não choram,
ver as coisas que nos refazem, que nos acendem...

Escrever sobre freiras atravessando a rua,
balões coloridos caindo sob a cidade turva,
uma noite tranquila, Ipanema vazia,
o vento do mar...

Sabe-se lá...

Até quando aqui?
Até quando capaz de amar?

Devoro-te

Devoro-te por esporte,
uma consagração
ao teu eu mais sórdido.

Reviro meu coração,
em busca de um nome pra você,
qualquer coisa que não seja amor,
qualquer coisa que eu não possa depender.

Descarto todas as semanas,
eu vivo pro anoitecer,
deságuo com o mundo,
eu me viro no escuro,
só sei mesmo de tudo que eu não quero ser.

Devoro-te por esporte,
a cidade é meu templo pagão,
e o meu tempo, o instrumento,
de uma sórdida ingratidão.

Imagem do dia!


Amanhã não mais

Essa noite as coisas parecem normais
gente louca pelas ruas
pessoas quase sempre más,
as paredes do quarto estão se fechando,
não sei se foi álcool ou algo que eu disse,
neurótico assíduo já nem sei o que é real.

Mais uma noite normal,
mais um dia que vem pra dizer
que não há nada de errado no mundo,
só há tudo de errado com tudo,
tudo de errado com tudo.

Só por hoje as coisas parecem normais,
e eu posso garantir uma tragédia nos jornais,
é tudo tão claro, hoje é tudo tão certo,
um vento sudoeste, um maral e o tempo aberto....

Sinto cheiro do seu sangue misturado,
eu farejo seu medo, farejo seu amor,
posso sentir como o tato,
o que você me diz com os olhos,
e o que você esconde,
tenho um monte de verdades pra dizer,
percebo tudo, tudo, tudo tão antes...

Mas é só por hoje,
ah, é só por hoje,
ah, é só por hoje,
mais um dia normal...

E amanhã,
amanhã não mais.