terça-feira, 31 de março de 2020

Imagem do dia!



Me dê

Me busca agora
e me dê motivos,
eu ando precisando
de um amor sofrido.

Já nem sei dizer mais
do que gosto nela,
eu só sei que a vida
é mesmo uma aquarela...

E que me pega pelo braço todo dia
só pra mostrar o tempo que eu ando perdendo,
nesses dias firmes que eu durmo demais,
e nos dias tristes que eu escolho e vivo sem limites,
eu ando precisando mesmo é de atenção.

Me busca agora
e me diz quanto tempo,
quanto tempo eu tenho
e quanto já passou...

Já não sei dizer
mais nada que faça sentido,
eu só sei que a vida
é um fino dissabor.

Me pega pelo braço,
por favor,
que eu ando precisando
de pôr do sol e amor...

E um pouco daquelas coisas
que ninguém pode saber,
eu ando precisando
só viver pra crer.

Ando precisando
de um olhar com encantamento,
e de um canto triste
e escuro pra escrever.

Sem hora

O desamparo da cidade
aqui de cima parece irreal,
é incrível sentir assim tão profundissimamente
esse ímpeto de desajuste...

E passar agora
por essa história de poupar o mundo,
de sofrermos uma grande
e arrebatadora crise enquanto planeta.

Ah, eu entendo,
entendo tudo... eu juro.

Mas eu continuo aqui,
e sofro dos meus pequenos,
dos meus menores problemas,
das minhas dores terríveis,
dos meus desastres tão certos,
os desatinos infalíveis
do meu coração deserto.

Ah, eu entendo,
entendo tudo... eu juro.

Mas eu continuo aqui,
contando os dias sem desespero,
me fazendo de morto, sem drama,
secando com o corpo, a grama,
deitando e rolando sem hora.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Desacato

Despejando meus lamentos pelos dias,
cada vez mais me sinto incurável,
a cada dia me reconheço menos humano.

A vida desgasta,
o amparo do mundo é muito pouco,
e o que ele tem pra me oferecer
já é quase nada.

Desacredito,
me permito apenas ser e vestir
sempre a roupa do desacato.

O que acontece à minha volta já não me interessa,
as felicidades boas parecem todas tolas,
os homens sorridentes, as mulheres felizes,
as crianças pela praia...

Nada disso importa,
a vida pra mim é língua morta,
eu sofro porque quero,
poderia ser feliz,
mas eu nego.

Só os meus mortos me movem,
só eles podem me curar,
e se um dia eu quiser,
se um dia a vida me interessar...

Desacredito,
me permito apenas ser,
ser e vestir sempre a roupa do desacato.

Imagem do dia!


Triste e perigoso

Das horas de solidão que ainda tenho
eu tiro os motivos pra seguir, insistir e viver,
enfrentar o mundo torto das altas horas,
precisando ainda de um horizonte pra esquecer...

Não lembrar que tudo que existe aqui a essa hora,
são mil versões de mim que brigam e choram,
querendo ainda outras versões
desse novo mundo de agora.

Sou louco e cada vez mais triste e perigoso,
andando como um sentinela,
marchando contra um desejo estranho
e quase irremediável de morrer.

Porque tudo que existe aqui a essa hora,
são os meus medos todos revoando,
batendo as asas barulhentas,
pregando ruidosas baixarias.

Sou loco e cada vez mais mal e intempestivo,
vagando como um trovador,
procurando tristezas e delícias,
querendo de certo apenas destruí-las;
sem motivo aparente,
e nem dor.