quarta-feira, 29 de julho de 2020

Não sinto

Vejo gente no meu quarto 
e a várias noites estou sem ninguém,
se dormi ontem nem me lembro,
mas por mim vai tudo muito bem...

Fecho os olhos e é fim de noite, 
o vento sempre vem do mar,
sinto falta de alguém só pra dizer 
que o que há de ruim vai acabar.

Meus braços sentem o peso 
do medo que é fruto da solidão,
os olhos caem tristes
em busca de um mundo 
que eu não seja tão são.

Nem falo grego nessas noites,
mas poucos são os que me entendem,
e quando sabem muito, cansam,
poucos são os que me encantam.

Vivo perdido, só buscando compreensão,
ouvir do mundo alguma história 
que tire os meus pés do chão.

Não sinto mais,
nem sinto muito.

Não sinto mais,
e eu nem sinto muito.

Canto do céu

Aqui nesse canto do céu 
não há nuvens, 
e não há verão 
que nos pegue quarta-feira de surpresa.

Nas noites quentes, 
vestindo só os seus olhos pretos,
não existem erros, 
só há vontade de errar.

De ponta a ponta pelas pistas da cidade,
sorrindo, sem ver ninguém entender,
pelo amor que Deus me deu,
pelo sol, pelo calor delirante,
por toda dor que ele esqueceu dentro do meu peito.

Nada pode ser melhor, 
e nada deve ser assim
tão ruim que não possa mudar.

Aqui nesse canto do céu,
nesse lugar onde nada pode ser melhor,
abençoado pelo calor delirante,
desatinado pela dor que carrego e não explico,
eu nunca me explico...

Nada pode ser melhor,
e nada deve ser assim
tão ruim que não possa nunca mudar.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Imagem do dia!

Copacabana década de 40

Transitivíssimo

Nos livros coloridos
poemas tropicais,
nas árvores desfolhadas
sinais de que o inverno
realmente não cobra nada...

O céu é limpo e insiste
no azul celestial,
e as cores da estação
nunca me fizeram mal.

Procuro novos olhares,
quero a ineditez dos velhos tempos,
preciso de amor e desamor 
de tempos em tempos.

De tristezas e momentos
de pura dor...

Pra me tornar algo como um poeta,
um poeta tropical,
renascendo do caos terrível
de sua sul-americana capital.

Mal dizendo o fim dos tempos
e os dias cinzas quentes dos verões,
desdizendo as coisas terríveis
que andou pregando em outras estações.

Porque sou transitivíssimo
e praticamente imparável,
derrotado pelas tristezas,
e reerguido por lindezas bestas.

Sou poeta, desgraçado,
nascido do lado de cá,
da zona que fecha com o certo,
do time que fecha com o mar.

Poeta tropical,
trupicando sem desaguar,
despudoradamente,
um amante inquieto desse lugar.

Moldura

Na moldura o silêncio grita pra mim,
e as tijucas saltam aos olhos 
como o brilho insistente do cetim...

Duas horas da manhã, 
eu quase nunca não to aqui,
a areia é tão fria 
que parece faz parte de mim.

Me sinto vivo pensando no mundo
enquanto ele dorme,
e faço mil planos futuros
pra esquecer quando for dormir.

A lua não fala comigo, nunca fui comunicativo,
mas eu peço, esperneio,
porque às vezes eu preciso,
de um pouquinho dessa luz noturna
que seca todo meu juízo.

Pra sair pelas ruas encarnado,
sem pensar nos prejuízos,
sem querer saber das loucas,
e nem dos seus bons motivos...

Me sinto vivo,
só enquanto o mundo dorme,
e vejo os meus sonhos mais lindos,
escaparem dos meus olhos. 

Me sinto vivo,
só enquanto o mundo dorme,
e desapareço, infalível,
antes que alguém acorde.

Imagem do dia!


Azul e amarelo

Todo azul e amarelo do mundo
pros teus olhos indiscretos e profundos,
do fundo do meu coração pro seu,
eu desejo o melhor pra você 
e adeus.

Mas não diga que eu não avisei,
nem que o céu pálido emudeceu,
eu preciso aprender a dizer,
eu preciso aprender a ser só 
e adeus.

Todo azul e amarelo do mundo
pra justificar esse pesar tão escuro,
eu procuro entender, tentei entender,
mas eu nego todo futuro,
eu prefiro os amores fajutos.

E não diga que eu não avisei,
nem que o sol fácil nos enganou,
eu preciso aprender a dizer,
eu preciso aprender a ser só
e acabou.