segunda-feira, 30 de novembro de 2020

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O homem só

Não há nada com charme no mundo moderno 
que possa sobrepor o charme de um homem sozinho,
da solidão do ser humano, 
da complexidade e da tristeza das escolhas
que levam uma vida a espalhar-se sozinha 
pelos anos de existência que lhe restam.

Não há nada que me convença 
que um homem só não pode ser feliz,
nem os olhos vazios, nem o sorriso roto 
de quem não sorri pra ninguém,
de quem esqueceu como é, 
de quem só lembra da felicidade distante.

Não, não há nada nessa vida moderna que possa me fazer mudar de idéia,
o sofrimento do homem só, é como algo que me preenche,
semeia os campos plenos e vazios de minha alma 
com os arbustos que tem as mais doces amoras,
e não há nada que possa mudar isso, não.

O homem só, tem a paciência dos anjos, 
paga suas penitências em vida e nem sente,
o homem só e sua barba por fazer trazem pra perto
a tristeza e a compreensão que só quem sofre por amor também possui,
só quem sofre repetidamente por amor também possui.

Ah, o homem, entidade desesperada por amor e compreensão,
e o sofrimento do homem, do que se trata essa obstinação para com os fins? 
Se são os meios que nos moldam, 
se são os outros que nos marcam, e nós aos outros, e o mundo a todos.

Ah, o homem só, e sua barba grisalha, sua vida em eterno ponto facultativo,
tudo provisório, tudo em flutuante condição,
sempre leve, suspenso pelas horas do dia e da noite, ele, o homem só,
ele que poderia ser em sua juventude de alma 
o personagem de qualquer romance,
ele que tendo sua nobreza e paz de espírito 
poderia ser a égide incansável de qualquer mulher,
ele, o homem só, essa criatura tão contraditória e encantadora.

Que enquanto homem só, apenas carrega sua tristeza pelos cantos,
por entre os homens felizes e as mulheres que poderiam ser felizes consigo,
que dribla a cidade movediça e seus passantes,
ele, homem só, que sendo ele homem feliz, 
seria o mais feliz dos homens.

Que não sendo homem só, que sendo apenas homem, 
como os outros homens e suas famílias,
seria o maior dos homens, seria enorme seu coração,
e não esse emaranhado tão pequeno,
esse monte de nós tão justos que nunca se desatariam.

E não, ainda acho que não há nada na vida 
que explique a beleza do homem sozinho,
a beleza do homem sozinho se comparado aos outros homens vivos,
ele que é esse ser aprisionado em procrastinação domingueira infinita,
que é essa existência que reside numa desmesura de ócio,
de tédio que semeia, rega e colhe,
semeia, rega, 
e encolhe o coração.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Desespero da modernidade

Como quem anda sozinho pela vida, desespero-me na era das reproduções. Vim de encontro a esse momento sabendo o que me esperava, eu tive certa clarividência, eu vi acontecer.

Pelas ruas, hoje, homens indistintos, vazios de sentido, reflexos no espelho, sem som, sem nada.

E nas casas de gin, vê-se o movimento dos corpos, das coisas, dos copos… Mas procura-se a humanidade, suplico significado, e claro, eu não desisto.

As carapaças não mentem, os estereótipos são os vencedores na era das reproduções. Eles não têm dúvidas; apenas certezas, estão sempre à procura de felicidade, mesmo sem entendê-la.

E nas praias, elas também se repetem, nos shoppings e galerias, elas se repetem demais, fazem tudo que as outras das telas fazem, querem tudo que as outras das telas querem.

Pai, pai nosso que estais nos céus, (nada tão desesperado e tacanho como apelar aos céus, mas) salve-nos da modernidade, dessa estranha, estranhíssima modernidade…

Porque eles precisam! E elas precisam! Ah, a gente precisa…

Para redescobrir a humanidade da tristeza, sentir de novo que ser feliz é só um ponto e pronto.

Compreender a vida sem fugir do que é ser humano, se aceitar, e ter ideais firmes para o mundo.

Conseguir pensar num novo hábito que nos salve dessa insanidade, e que por acidente ou boa intenção salve os homens da modernidade.

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O jornal

Li no jornal que amanhã não vai dar sol,
que bom... porque é segunda-feira
e eu não nasci com esse dom de ter que viver pra crer.

E não tem mistério, não tem crise existencial,
é que eu me viro puro no escuro,
trancado com meu mantra de carnaval...

Eu me protejo, me sinto mais firme
no infinito de um céu nublado,
repetindo amores temporais, odiando feriados.

Eu me saio muito bem
sendo inteiramente seu,
me encontro, me resumo sem remorso por você.

Li no jornal que o seu signo não bate com o meu
e escrevi sem querer o teu nome nas palavras cruzadas,
por nada, eu devo estar louco...

Li no jornal que o Hamilton venceu em Mônaco
e que o âmago de toda relação está no sexo vulgar.
Eu li no jornal qualquer coisa sobre como a vida é dura
e que essa semana vai ter show do holograma do Cazuza...

Li que o mar está cheio de tubarões
e que no futebol ultimamente andam faltando vilões,
que o Egito está em guerra,
que não existe paz na terra e nem nos corações.

Todo dia o mundo é devorado nos jornais,
e isso me dá um grande alívio de ainda viver.
Embora a vida lá fora me lembre da saudade imensa
que eu sinto de você.

E mesmo com essa dor,
eu, covarde,
sumi, não pude sair pra te ver...

Porquê no jornal dizia que ia chover,
e não há guarda-chuva contra você.

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Merecimento

 Amarrado às filosofias tristes
sigo fazendo repetidos discursos,
insistentes discursos...

Romantizo a tristeza
e a infelicidade dos meus poetas mortos,
sem saber da verdade,
da vida provinciana 
e da alegria de suas vidas.

Ninguém pode ser só triste,
nem eu, que mereço muito.

Ninguém deve ser só triste,
nem eu, que preciso muito.

Escorado nos poemas de Schmidt,
debruçado na elegia desesperada,
romantizo essa tristeza toda
buscando algum significado...

As filosofias vãs não me permitem
escolher uma direção, 
não tenho um padrinho literato,
não tenho um amor insano e triste,
não choro quando rezo os mortos,
não vivo só pra ser feliz.

Mas ninguém pode ser só triste,
entende?

Ninguém deve ser só triste como eu, 
que mereço muito.