terça-feira, 29 de junho de 2021

Duas da manhã

Já são duas da manhã 
e eu pensando em você,
em como a gente nunca sabe 
o que vai acontecer...

Toda misticidade, 
a plenitude e o perigo,
se as horas combinam 
sempre faço um pedido.

Eu tenho medo...
medo.

Medo da cidade movediça 
e extasiante,
medo da juventude 
e gente muito pedante.

Medo de ser visto 
sonhando demais,
medo de ser o último 
a entender os sinais.

Eu tenho medo... 
medo.

Dos destratos 
da sociedade desorganizada,
da repovoação dos bares 
e das calçadas,

Das novas gerações 
me tomando lugares,
dos meus amigos todos 
dizendo sim nos altares.

Eu tenho medo... 
medo.

Da inquietude torturante 
do relógio do quarto,
de como não se perdoam 
os mesquinhos e os chatos,

Dos dias que de repente 
vão amanhecendo,
aqueles que viram as noites 
que eu nunca me lembro.

Ainda são duas da manhã 
e eu tenho medo,
medos demais.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Blues de apartamento

Eu ando aceitando o fato
de nunca mais te encontrar...

E é como perder o amor de um Deus,
de uma Deusa que subitamente
esqueceu de me amparar.

Assim desprotegido, entregue,
eu sigo, resisto a esse duro golpe da vida,
dessa ciranda de separação.

Por isso eu tirei esse blues,
um blues cheio de ressentimento.

Eu fiz pra você,
fiz pensando em nós dois,
em tudo que já não existe mais
e me acabei de chorar...

Eu fiz um blues,
um blues de apartamento,
só que é do verbo apartar.

Imagem do dia!


 

Noturno desastrado

Nova noite de um suave desespero,
só os garçons 
sabem do mal que eu me defendo...

Sou eterna figura de ontem, 
e de hoje, mais um fantasma,
assombrando esse desejo imenso de alucinar.

Eu estou nos olhos ternos 
das meninas mais perdidas,
refletido na vontade absurda
de se encontrar...

Noturno desastrado,
desalmado e redentor,
notívago tarado,
afinado e sedutor

Eu sou a corda bamba,
a navalha que a noite é,
eu sou a criatura invisível
que mais tarde vai puxar o seu pé.

Eu gosto de ser aquilo 
que todos desejam e não sabem porquê,
eu gosto de ser pra noite
tudo o que ela me pede pra ser;

Narciso descarado,
destemido e rezador,
místico afortunado,
imoral e fingidor

Eu nunca quero que a lua
deixe o sol nascer.

Imagem do dia!


 

Quereres

É mais que os quereres que eu queria,
bem mais, do que aquilo que eu negava e nem sabia,
eu sou outro todo dia,
eu não vejo poesia, onde eu via.

Em olhos claros 
e tristezas que falavam,
nem nas pedras tão bonitas 
que comigo conversavam

Nas coisas lindas 
que às vezes só passavam por mim,
nas veias verdes 
das palmeiras do jardim.

O Rio é outro também,
e não há cena de cinema que me ajude,
meu Deus, como é que eu pude?

O cenário não me agrada,
nem o tudo e nem o nada,
eu sou fuga em carne e osso,
eu ainda sou sempre metade fundo do poço...

E isso é mais, 
muito mais do que os quereres que eu queria,
bem mais, do que aquilo que eu negava e nem sabia,
eu sou outro todo dia,
e essa é toda poesia que eu queria.