quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Imagem do dia!


 

Sincero mendigo

Sem caminho percorrido
suspendo meu dom mais querido,
peço, eu, sincero mendigo; 
preciso de um pouco disso.

Converso com Deus, 
é com ele, acredito;
deve ser diretamente,
criar beleza é coisa dele.

Não que eu faça,
mas eu tento,
e preciso do meu tempo,
de cravar as coisas certas,
com palavras bem precisas,
e guardar mágoas sinceras...
Ler amores que eu não tenho.

Converso com Deus,
só ele sabe ao que me refiro,
tem base de que é grave,
conhece bem seu filho.

Não que eu me mate,
mas talvez eu tente.

É que eu preciso do meu tempo,
de jogar coisas incertas ao vento,
com palavras imprecisas
lavando as mágoas no rio de lágrimas
que dei por ser a nascente.

Sem caminho percorrido,
suspendo.

Espero as ordens das esferas,
e peço, humilde,
eu ainda preciso de um pouco disso.

Imagem do dia!

 


Ser da cidade

Ela pisa leve,
carrega o descompromisso,
pelos dias claros,
sofro pelo que não sinto...

Atravessa corações,
deságua sempre no mar,
faz calor porque não sente
nada além do que o sabor da vida.

E segue por aí fingindo muito,
liga pra ninguém, porque ela é muito,
zarpa de manhã e aporta à noite,
vive como uma porta-bandeira 
sem medo de perder o dez.

Gira pela cidade,
sequestra os corações,
linda, um ser da cidade,
transpira acestralidade,
alma velha, clarão de luz,
alma velha, centelha que produz...

Amor nos corações
que desaguam no mar,
faz calor o que tu causa,
nada além do que o sabor 
da vida contigo na paisagem,
da vida dos meninos
que te tem por vaidade.

Amor nos corações,
deságuam no mar,
calor, calor,
e as vestes de verão,
as festas que a verão dançar...

Gira pela cidade,
sequestra os corações,
linda, um ser da cidade,
transpira ancestralidade,
alma velha, clarão de luz,
alma velha, centelha que produz...

Amor e fundo do poço
Amor e gosto de sangue na boca dos outros
Amor e aquela vontade de salto profundo
Amor e fuga do mundo
Sacada e fuga do mundo

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Velho hábito

Desacato, destempero,
velhos hábitos,
reclamo, sofro,
tenho sofrido bastante,
em baixo volume,
por trás das estantes.

Somos falhos,
demasiadamente humanos,
e agora, improfundo,
dono de uma rasura que me arrebatou,
que me segurou e me enfraqueceu,
do alto desse nada,
direto desse lugar nenhum,
maldigo a vida,
como em um velho hábito...

Por destempero, desacato,
e por tê-la comigo,
trazê-la sempre comigo...

A esquecida face da realidade,
dos mundos imperfeitos,
das vidas miseráveis,
dos atos mais horrendos,
as coisas detestáveis.

Por destempero, desacato,
velho hábito de ter comigo, 
trazer comigo o inatacável,
fato acurado, o indiscutível...

Nós somos falhos
seres esfíngicos,
de simplórios corpos,
com desertos e labirintos,
com pegadas gélidas
e temíveis calores sísmicos,
forças telúricas e divinais.

Nós somos falhos,
por destempero, desacato,
por sermos simplórios e infinitos,
por sermos odiosos e magníficos,
por absurdos e pequenices,
misantropia, bom velho hábito.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Sigo acreditando

Sigo acreditando 
que toda beleza é um sinal,
vivo por azuis iguais ao céu,
eu vivo por azuis iguais aos seus

E as vestes de mar
e o ver-te sorrir
o verde da mata
tão bom ser daqui

Sigo acreditando
e sendo manso de corrigir
sigo me rebelando
de quando em vez só pra repelir

Os carentes de oração,
os aflitos de antemão,
os sofridos, apegados aos ritos,
e os filhos da cidade movediça e extasiante

Preciso de um tempo
e que ele passe lento,
e passe por mim como o vento,
como o ar que eu respiro

Sigo, eu sigo acreditando,
que as belezas são sinais,
vivo, eu vivo por azuis iguais ao céu,
eu vivo, vivo por azuis iguais aos seus.