terça-feira, 10 de janeiro de 2023

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Muito menos

Desagua o mundo e eu nem to aí,
nem nos lugares que devia estar,
por muito menos mil reis caíram,
por muito mais vi amor perdurar...

Eu ato os nós bem fortemente,
eu uso a língua pra me acalentar,
são noites longas dentro de mim,
muitos lugares pra não ir jamais.

Não me sinto em lado nenhum,
pertenço ao nada,
ninguém me refaz...

Os meus pedaços são coisas velhas,
coisas que nunca me deixam em paz,
são vidas mansas,
saudades tortas,
esquinas de um passado vulgar.

Então eu ato os nós bem fortemente,
e uso a língua pra me defender,
são noites longas pra sair de mim,
um mal lugar para se frequentar.

Eu não sou de lado nenhum,
pertenço ao nada
e então deixo estar...

Por muito menos vi reis caírem
e por bem mais vi o amor ser razão de viver
e sonhar, de ser livre,
e ser feliz.

Nulo

A força da palavra, é nula,
o vasto vocábulo, o passado.

Coleciono agora o desagrado e a tensão,
não sirvo mais pra isso,
é o que parece,
é o que vivo.

Dissolvo o ansiolítico,
procuro a rima e desisto rápido,
fui um ser esfíngico,
mas hoje sigo pelo mínimo.

O ano passa, os meses voam,
o sangue corre nas minhas veias,
dezembro é sempre mais difícil,
será pra sempre mais difícil.

Escrevo muito e nada falo,
é essa amargura mascarada,
é essa vontade torturante
de não estar sozinho aqui.

Escrevo como terapia,
como cura pro pesar,
e com um medo insensato
de um futuro mais feliz.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Sádica vontade

Sádica vontade 
de fazer tudo que quero,
mesmo sabendo por mim
que o que eu quero dá errado.

Viver vaticínios dói demais,
o que dá na veneta é tão melhor.

Quase nunca é possível ser feliz,
acredite, 
o joelho ralado faz parte do processo.

Vá meu coração, sem medo,
e tome o lugar do que me faz humano.

Vá meu coração, sem medo,
pro lugar de paz que é estar parado.

Quase nunca é claro,
quase sempre é tudo errado...

Sádica vontade
é permanecer humano.

Desafogo

Desafogo de minhas mágoas
é pensar no mundo novo
mundo novo muito velho
muito fácil de viver

É ter meus poetas mortos
como vivos muito perto
muito perto de minhas mágoas
meus poetas vivem mais

São os bruxos que eu levo
e que me levam à tira colo
meus assuntos, minhas conversas,
os meus mais sinceros votos

Como quem caminha e morre
como quem pro inferno vai
eu espero a minha hora
abdico à minha paz

Não espero muitos louros
só as pedras do caminho
quase sempre sigo torto
pra onde for eu vou sozinho

Desde que fui desafogo
e pensei em mundo novo
mundo novo muito velho
bem mais fácil de viver

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