sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Homem

Mal homem vive do escuro
em busca de luz e de redenção,
fugindo de pensamentos atrozes,
da raiva e da ingratidão...

Bom homem se faz no escuro,
vivendo a dor natural da existência,
negando-se os caminhos fáceis,
tomado da algia de uma grande ausência.

Bom homem tem passado largo,
mal homem só vive o que tem,
e humanos que somos, errantes,
sentimos que antes, era tão melhor.

Quando o que se sabe de certo,
é que caímos nas peças que prega a razão,
a psique que é grande dom,
é também labirinto e tentação.

Mal homem é falho, é humano fiel,
é cego de amores terríveis,
mas de graças morreram também,
são santos, são homens de honra,
belicosos, grandes generais...

Mal homem, é também bom homem,
feito pelo mundo dos homens que não eram ninguém,
dos homens atrás das estantes,
dizendo pros homens quem é que era quem.

Mal homem é fruto do homem,
fruto proibido sem mais nem porquê,
bom homem é fruto do homem,
que foge da luz desse querer saber.

Cárcere

Antes de qualquer certeza
eu agradeço a solidão
aos meus poetas e os meus bruxos
os meus surtos sem razão

A toda paranóia
e ao vocabulário vasto
aos livros que eu não li
as garotas nos meus passos

De peito muito arfante
vivo e incompreendido
caminho como morto
de passo trocado, sempre sozinho

Preciso muito disso
como o jovem de um caráter
ser só me alimenta
sou meu maior inimigo no cárcere

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Imagem do dia!


Desaprofundado

Desaprofundado de mim mesmo
sigo caminhando com a rasura
sigo me preocupando com as coisas mundanas que jurei combater,
vivendo o descalabro do amadurecimento tardio,
da obrigação da vida,
do cuidado e da fadiga.

Sou vício nocivo, 
homem como qualquer outro,
menor que muitos outros,
melhor do que alguns tantos.

Mas ainda o menino debaixo das escadas,
o quase poeta desacreditado,
primeiro a ir embora 
e último a rir.

De mim, apenas um falso condutor,
singelo antiherói sem charme e faculdade,
trazendo sempre o peso da maldade,
e a nuvem negra que ainda me permite sonhar.

Como um vício sinistro,
a afeição pelo desatino,
o gato preto, o homem omisso.

Sabedor de quase nada,
fraco e triste,
sem sabor...

Que não tendo em si pra dar,
não viverá o grande amor.

Imagem do dia!


 

Muito menos

Desagua o mundo e eu nem to aí,
nem nos lugares que devia estar,
por muito menos mil reis caíram,
por muito mais vi amor perdurar...

Eu ato os nós bem fortemente,
eu uso a língua pra me acalentar,
são noites longas dentro de mim,
muitos lugares pra não ir jamais.

Não me sinto em lado nenhum,
pertenço ao nada,
ninguém me refaz...

Os meus pedaços são coisas velhas,
coisas que nunca me deixam em paz,
são vidas mansas,
saudades tortas,
esquinas de um passado vulgar.

Então eu ato os nós bem fortemente,
e uso a língua pra me defender,
são noites longas pra sair de mim,
um mal lugar para se frequentar.

Eu não sou de lado nenhum,
pertenço ao nada
e então deixo estar...

Por muito menos vi reis caírem
e por bem mais vi o amor ser razão de viver
e sonhar, de ser livre,
e ser feliz.

Nulo

A força da palavra, é nula,
o vasto vocábulo, o passado.

Coleciono agora o desagrado e a tensão,
não sirvo mais pra isso,
é o que parece,
é o que vivo.

Dissolvo o ansiolítico,
procuro a rima e desisto rápido,
fui um ser esfíngico,
mas hoje sigo pelo mínimo.

O ano passa, os meses voam,
o sangue corre nas minhas veias,
dezembro é sempre mais difícil,
será pra sempre mais difícil.

Escrevo muito e nada falo,
é essa amargura mascarada,
é essa vontade torturante
de não estar sozinho aqui.

Escrevo como terapia,
como cura pro pesar,
e com um medo insensato
de um futuro mais feliz.