sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Olhos baixos

Dias quentes são difícies de sofrer,
o céu azul me estapeia o coração,
mas só quem é vivo e dorme mal pode entender, 
todo dia é tão difícil de viver.

Pelas noites passam eras na cabeça,
me estacionam pensamentos tão ruins,
e as coisa que antes pareciam boas,
simplesmente são erros que cometi.

Quantos dias quentes foram bem partidos,
quantas noites frias tive que esquecer,
pelos cantos da cidade movediça,
eu prefiro sempre ter que me esconder.

Já não vivo como um indigente triste,
corro ando como um morto-vivo ciente,
só as pedras quando choram me alentam,
só as paisagens cheias de nuvens chuvosas.

Nuvens baixas pelo jockey me alimentam,
terror noturno e baixo gávea me alegram,
brigas bestas, futebol, e a luz dos caça-níqueis,
a espuma muito suja e o rodo pra expurgar.

Conversando com as pedras portuguesas,
sei que a culpa não foi nunca do Cabral,
claramente foi do Médici por trás,
mas a nação tupiniquim não duraria muito mais.

Fim de noite, olhos baixos, em algum baixo a esperar,
precipito como os céus, rezo baixo pra chegar,
o dia em que a noite dure mais,
o dia em que em uma noite eu consiga descansar.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Vazio

Se o vazio das noites claras
de repente me domina,
corro e encontro muito logo
um amor de outra vida,

Como mágica, deslizo,
e me perco pelas linhas,
não entendo, como sempre,
quase sempre, eu diria...

Mas é que não concordo
com essa pecha de fascista.

Não te entendo, assim como
não entendo astrologia,
paciência é o que me falta,
perdi ela noutra vida,

Se eu corro, não me achas,
se tu corre, te devoro,
cafoninha como sabes,
já que vives nova forma...

Eu não faço mais sentido,
sofro de esquizofrenia,
junto frases bem batidas,
bato-as sempre com água fria,

Gelo tudo, tudo mesmo, 
tomo um gole, e é nostalgia,
caio morto, é veneno,
bem pior que estricnina.


Imagem do dia!


 

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Nada meu

Sôfrego e brumado sigo firme
de coração aberto e com o peito alarmado
tomado da indigência de sentir-se pouco humano
dormente e em desagrado com o ser.

Desando na cidade com olhos falsos,
não há nada e nem ninguém que seja meu.
O âmago, que é Deus, foi devorado!
Me sinto sempre apenas um cadáver.

Os dias e os meses que eu conto
há muito já não fazem mais sentido,
tudo é uma superfície arrasada,
e o raso é o que me causa mais horror.

Desando na cidade com olhos caros,
não há nada e nem ninguém que seja meu,
O âmago, que é Deus, foi derrotado!
Me sinto sempre apenas um cadáver.

Gente quando é gente me da medo,
pessoas vãs fazendo estardalhaço,
farsantes de uma terra muito oca,
de corações e cérebros iguais.

Por isso eu deslizo na cidade com olhos falsos,
não há nada e nem ninguém nesse lugar que seja meu,
e o âmago, que é Deus, foi devorado!
Eu me sinto sempre apenas um cadáver.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Como ela é

Já não vejo a vida como deveria
e sinto que a poesia não vai me salvar,
hoje é um sopro distante dentro de minha alma,
e bem como a vida, já foi tanto que me dói lembrar.

Preciso das palavras pra que tudo se acalme,
recorro aos bruxos que sempre me fizeram mais,
as páginas rasgadas de livros centenários,
ao deleite da língua dos bardos mais frágeis.

Os magros irriquietos de palavras fáceis,
os miseráveis cheios de sorrisos ternos,
as capas das revistas que chocaram os parvos,
os anos de assuntos que seriam nada.

Eu já não vejo a vida como deveria,
já não vejo, de todo, quase vida alguma,
e tudo segue sendo como nevralgia,
agonia constante de viver o nada.

As lágrimas nos olhos significam pouco,
o mundo em guerra choca pela crueldade,
humanos não são sempre pessoas de fato,
é fardo ver a vida como ela é.

Imagem do dia!

 


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Intoxicantes

As tristezas que tomei dos meus poetas,
e as chagas que carrego por meus anjos,
são as coisas mais bonitas dessa vida,
são as traças que devoram minhas páginas.

Absorto, sendo Atlas e anêmico,
me contento com o que vi e o que valho,
sendo assim, barra quebrada e uns trocados,
são as coisas que me fazem ser poeta.

E os dias que tão claros me incomodam,
sempre contam histórias chatas de se ouvir,
só que as noites tão escuras que me habitam,
alimentam, fazem o mundo me munir...

De maneiras absurdas e overdoses,
de cachos torcidos tenros como a carne,
de brancuras sempre intoxicantes
e tristezas de lotarem os cinemas.