terça-feira, 27 de outubro de 2015
domingo, 25 de outubro de 2015
Ela leva a vida muito a sério
Ela leva a vida muito a sério, mas não como se pensa. Ela gosta mesmo é de Caetano, mas, quando bebe, tira um Cole Porter no piano. Ela sorri com aqueles olhos pretos pra mim e diz que não é bem assim quando eu desato a falar que ando pensando em me casar.
Porque ela leva a vida a sério, leva a vida como deve ser. Ela leva tudo muito leve, tudo como deve ser.
E vai pisando nas pedrinhas portuguesas, com pés de bailarina, com os pés leves de menina e jeito de poesia, de trilha, como fosse uma música encarnada, uma que alguém precisa tirar um dia.
Ela gosta mesmo é do furor do carnaval, mas, quando acorda, mais parece um bolerinho matinal. Ela tem uma alma leve, é dessas que suspira todo dia de manhã, dessas almas velhas, raras, anciãs.
Ela é qualquer coisa inominável, me traz a pureza do Tom de meditação, mas se veste toda noite do atrevimento do Cazuza no Barão. Ela é um vento forte, é uma pequena ondulação. Ela chove e também faz sol, é matinada de verão.
E vive por aí, levando a vida a sério, levando esse viver etéreo às últimas consequências, absorvendo todo o azul e amarelo do mundo com seu cântico aos deuses da farra na ponta da língua, deixando a tristeza morrer a míngua, deixando pra trás mil amores, mil outras vidas...
Porque ela pertence a algo muito maior, algo que a nossa vã filosofia não domina. Ela tem alguma coisa que foge de toda explicação, um poder incrível de persuasão. E, quando sorri com os olhos pretos, quando joga aquele charme, quando coloca na mesa a escuridão que traz nas retinas... Ah, ela acabaria com mundos inteiros, dizimaria civilizações, mas ela não sabe disso e, se sabe... talvez por isso leve a vida tão a sério.
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Encontro marcado
agora são três e um pouco mais,
eu tenho um encontro marcado
e estou coberto pelo escuro do mundo.
Lá fora há a chuva fina
e um vento frio que me rasgaria a pele,
mas assim eu me sinto em casa,
me sinto muito mais à vontade pra sair.
E saio de peito aberto,
me acho deslizando por nossos espaços,
eu saio de mim,
eu saio assim mentindo pra chuva,
sorrindo por nada
como se estivesse muito feliz.
Eu grito seu nome nas madrugadas,
grito pra ninguém ouvir,
te xingo, te juro de morte,
te jogo mil maldições, e aí...
Volto a pensar no quanto te amo
uns cem metros depois,
eu volto a lembrar dos teus sonhos comigo,
eu penso que ainda somos um só,
penso em tudo que ainda podemos ser...
E me encontro de peito aberto
pronto pra ser alvejado,
fugindo de ti pelos mesmos espaços,
deslizando desacreditado...
Eu saio de mim
que é pra não te encontrar mais,
eu saio assim, mentindo,
sorrindo até pra chuva,
só pra ela não te contar como eu vou,
como eu estou vivendo com essa tristeza.
Acordo raptado pela escuridão,
agora já são três e um pouco mais
e eu estou coberto de incertezas.
Lá fora há a chuva fina
e um vento frio que parece tão terno,
assim eu me sinto em casa,
me sinto muito à vontade pra sair,
sair pra não encontrar ninguém.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Um fantasma
eu não me vejo,
não sei mesmo do que sou feito,
se ainda existem sonhos,
se ainda existe algo legítimo,
algo que seja relevante como o amor e a dor.
Às vezes me sinto um fantasma,
sou como uma assombração,
a sombra que tampa o sol na roseira
e mata as flores mais lindas
de todo jardim.
Eu já não vejo problema,
também não vejo solução,
sou como uma aparição,
um pedaço do mal que há no caminho,
um bom pedaço de um mal
que rasteja e não deixa vestígios.
Às vezes eu sigo pelas ruas
de encontro a outros mortais,
e me escondo atrás das lentes escuras
que são como minha alma,
o meu mood mais sincero;
porque eu sou como um fatasma,
uma manifestação,
um vulto, spectro que não pulsa mais...
E eu já não vejo problema,
também não vejo solução,
eu sou como uma aparição,
um esquecido pelo astral,
desastre do paranormal,
sou vivo e lindo,
e morto e esquecido,
sou como um fantasma sem memórias,
sem amor, sem dor, sem flor alguma em seu jazigo,
sem nada em seu coração,
sem coração, coragem, dom.
Porque eu sou como um fantasma,
eu sou como uma aparição,
vivendo nas paisagens,
sobrevivendo a solidão do mundo,
vivendo esse escuro,
colhendo as flores mortas do jardim
à sombra dessa parte, desse eu covarde,
e de toda minha minha insensatez,
minhas escolhas tristes,
o meu eu lírico vilão,
sou essa aparição,
eu sou, sou como um fantasma.
Escravo deste amor
eu juro,
eu juro,
entrego a minha vaidade.
Pisoteio meu ego,
te entrego bons pedaços de mim,
porque eu sou assim,
e é claro, não me sinto mal em ser.
Pra mim não é ruim
fazer um tipo assim
de quem não sente nada,
de quem nem sente muito, e nunca...
Então por tudo que for,
me abduza desse desamor,
me entregue verdades mais doces,
e devore os bons pedaços que eu te dei.
Não mastigue,
só devore esses bons pedaços de mim que eu te dei,
e siga fazendo tipo de quem não sente nada,
de quem nem sente muito,
bem como eu faço...
E ainda faço tudo por você aqui comigo,
eu juro,
juro por tudo que for,
por tudo,
que eu ainda sou um escravo deste amor.


