quinta-feira, 6 de julho de 2023

Imagem do dia!


 

Jovens

Tenho saudades do tempo lento
e das coisas que eu nunca fiz,
sinto falta do meu eu tão forte,
e de quando achava que vivia de tudo.

Eu queria muito pouco do mundo,
eu vivia pra ser assunto,
e eu sentia a força da juventude,
a absoluta certeza de ser muito importante,
de sentir tudo mais, de saber tudo antes.

Que saudade terrível de ser,
de ser tão jovem 
que o mundo é tão simples.

E as suas dores, quase dignas de estudo,
são superadas como algo tão fútil,
depois de amanhã ou da próxima noite,
na próxima esquina, 
pelo poder da autoestima,
se tudo der certo, 
se a passada der fruto...

O regozijo da prole é o jovem,
é o jovem que sabe de tudo.

Mas que saudade terrível de ser,
de ser tão jovem 
que o mundo é tão simples.

Que saudade de ser muito jovem,
muito jovem demais pra saber,
que há mais dor, e há mais vida,
há mais coisas por trás dos sabores,
e da vontade de amar e de ser...

Muito jovem.

Há mais coisas por trás das montanhas 
que sobem os jovens,
há mais coisas por trás das certezas
que temos nós jovens,
há mais coisas por trás dessa vida
que vivem os jovens.

Que saudade terrível de ser...
e de fazer o mundo sempre tão simples.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Diminuto

Vivo a vida em dó menor
rasgado e entregue pelas vias
diminuto de mim mesmo
quase nada além de homem

Onde ando levo tristeza
olhos mortos de ânsia pura
seco e falso onde me escoro
quase nunca quero ajuda

Eu me encontro em desalento
faço contato por agruras
vivo entre grandes desastres
ódio ao sol e ode a lua

Me maltrato em profissão
desprezo dores astrais
eu não posso correr o risco
de viver tempo demais

Imagem do dia!


 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Puro amor

Cativo das repetições, 
carente de palavras novas,
de gente inteligente e afiada,
de quem saiba viver com nada,
que não seja um puro amor...

Carente de romances falsos,
cativo dos mais terríveis fatos,
sinto a aura das repetições,
e as vejo virando novas coisas velhas,
as mesmas coisas velhas,
que não se mutam por amor.

Faço sangria como em sacrifício
debruço-me nos almanaques dos sábios e da língua
crio um invólucro pra mensagem
e escrevo, passo, envio,
escrevo, amasso e queimo...

Deságuo toda noite como um rio,
me faço de tonto pelos dias por desafio,
sofro, infarto, e morro por desatino,
eu me repito,
eu só me repito pra viver sem nada,
pra manter a alma afiada,
e um dia viver só o puro amor.


Imagem do dia!


 

Imaterial

Esqueço-me como se escreve
como quem se esquece como vive
como falta o que me arrebata
como quem sente falta do acinte

Das nuvens tempestuosas de ideias
e do tédio irracional da juventude
do medo de amar e de morrer sozinho
do medo do mar e de viver demais

Esqueço-me como se vive
como quem abdica da alma
por semanas vivo morto acordado
tantas outras morto vivo que dorme

E não há o que sacuda meu mundo
não há mais psicoativo que ajude
não há mais intempéries terríveis
que me arranquem desse desajuste

Moro em nuvens de faltas e agruras
sou o remendo de um homem que nasceu forte
e tanto quanto sinto a morte,
sinto agora o vazio, o abstrato, o nada...

Já que no meu peito alvoroçado,
somente o imaterial se alastra.