quarta-feira, 5 de junho de 2024
Ninguém aguenta
Ninguém aguenta mais viver,
a gente só finge,
tudo é estranho e sem sentimento,
o dia azul e o dia cinzento.
Passantes inconsequentes
lutando contra tudo,
a cidade movediça,
a necessidade do mundo.
Com a chuva lá fora
parece tudo tão ideal,
ficar entre quatro paredes
fingir que tá tudo legal.
Com as telas infinitas
ninguém mais se dá conta,
sem injeção de dopamina,
a tristeza é sempre a dona da esperança.
A juventude entrega
e equilibra a balança,
só quem tem sonho é que alcança,
só quem não se apega se vira na dança.
Ninguém mais aguenta viver,
a gente só finge
e se flige com o tempo passando,
é difícil de ver.
Ninguém mais aguenta viver,
a gente só finge,
e se espreme pra caber
no imenso vazio do mundo que existe lá fora.
Pouco sentimento
Queria viver novamente surtos de boa produção,
ter sinceridade nas palavras escritas,
ter novamente palavras pra serem escritas...
Sofro hoje de uma desnutrição total,
evidentemente, não física, mental.
Sofro de pouco sentimento,
de pouco sentido,
das sempre incuráveis faltas,
de ter o amor vencido pela vida.
Sinto só esse preto e branco triste,
e o eterno desagrado,
onde toda e qualquer coisa é um acinte.
Me ofendo muito pouco,
sou omisso e muito roto,
não me atento tanto pra que não doa,
não me odeio tanto pra que a alma não agonize e sofra.
terça-feira, 26 de março de 2024
Homenagem à Augusto Frederico Schmidt
Nesses tempos eu já não me aflijo de ser melancolia,
de ser e estar entreguea qualquer tristeza da vida,
as tristezas tolas todas,
tristezas que nem são minhas...
Como a do perdido e pobre contador de histórias,
do alto de sua sabedoria,
vociferando versos íntimos
sem abaixar o tom com o raiar do dia.
Há muito me sinto
cada vez menos envergonhado do mundo,
cada vez menos me importo
de no fim tornar-me Schmidt,
ao invés de Drummond de Andrade.
Vivo mesmo numa outra pegada,
ando morto, ausente de tudo,
ando muito, muito mesmo...
ando pra saber quando sumo,
quando os olhos retraem
e os músculos finalmente relaxam...
quando o transe intenso se desfaz,
quando desisto de tudo e o mundo de mim.
Dormindo 12, 13, 14 das 24 horas do dia,
somente tomando nota da vida,
botando em linhas o desgosto,
tentando justificar essa falta de querência,
essa desnecessidade de tudo.
Enquanto se torna cada vez mais difícil
esconder-se da luz dos olhos,
do desejo sobre-humano de estar presente,
de continuidade, de sangue do meu sangue,
de simplicidades, família,
de tudo que alguém um dia pode querer.
Ah, é impressionante como tudo pode parecer tão claro
enquanto o transe não se desfaz,
enquanto a voz do contador de histórias não some
pra se misturar no barulho da manhã,
e desaparecer junto das soluções para lhe dar
com todas as quimeras de antes de anoitecer...
É como quando a vergonha do mundo
aparece de surpresa,
e me toma meia vida de uma vez,
e eu ando, corro, eu sigo firme...
Assisto o amanhecer de pé,
mesmo sabendo de tudo que a matinada traz,
mesmo sabendo que ando pra casa sangrando minhas verdades,
sendo levado pelas canelas,
açoitado pelas mentiras do mundo,
tomado pouco a pouco pela sombra dessa parte,
por todas as convenções covardes
que nos transformam nos homens conformados,
que vemos por aí por todos os lados...
Homens que não sentem
mas que vivem despossuídos do sangue dos anjos,
desinteressados dos sonhos das crianças,
da ternura dos poetas,
descontinuados do amor
e da imensa compreensão das mulheres.
Já vou
Destrato o tempo
e o sentimento
o que há por vir
e o que nem foi
São coisas doídas
fases tão sofridas
que a gente não sabe
se vai pra chuva
ou guarda a chuva
pra querer chover
Se faz o vento
meu passo lento
tão desatento
eu só preciso te dizer
já vou
Espero o sol
mas quero a noite
preciso de bom tempo
mas rogo sempre
pelos raios e trovões
E se faz o vento
te crio aqui dentro
como algo discreto
que vai pra sempre me dizer
já vou
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024
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