sábado, 7 de dezembro de 2024

Fazenda inglesa

Assim como sempre chove na fazenda inglesa,
também não há sol em mim;
há anos não há luz aqui.

Sim, assim como sempre chove na fazenda inglesa,
aqui os tempos se fecharam.

As boas novas findaram;
o ritmo impassível da vida
diante dos desastres,
me atropelaram.

Desato os nós de maneira silenciosa,
de dentro deste moedor de carne
que virou a vida.

Do peso morto que sou,
do muito roto corpo,
e do que valho... só o peso da carne.

Dói, sim,
dói, e vai doer pra sempre mais.

Compreender a existência,
transcender os paralelos nos dias de chuva,
atravessar a cidade fenecida,
inundada de tratantes e homicidas.

Nunca me deve parecer normal
o mundo sem ti,
a cidade sem ti,
a vida sem ti...
e a morte tua dona.

Mas, assim como sempre chove na fazenda inglesa,
há em mim essa centelha,
o sopro dos anjos,
a vocação dos mais tristes,
dos incompreendidos homens.

A desobediência,
do ser que não sendo Deus
e nem divindade,
ainda assim é capaz e crê
no poder de criar beleza.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Sopro

A noite me sopra no ouvido 
coisas pequeninas que me tiram a paz,
coisas que me causam bem no fundo 
a indisposição dos grandes generais.

Sinto sussurros ritmados,
músicas de muito tempo atrás,
bailes, chás dançantes, 
outros carnavais.

Pela noite os fantasmas se divertem,
pulam, dançam, 
arrastam suas correntes,
gritam de repente... 

E acham graça de mim, 
dessa juventude frágil,
da sentença que eu, ainda vivo, 
e arrasto.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Revelia

A cidade vive a revelia dos meus olhos,
transpira sonhos,
expulsa o tempo e o propósito.

Quase sempre desata novos laços,
deixa à sorte os maltrapilhos
e os românticos.

E quando as coisas lhe parecem muito apáticas,
nos arranja um motivo de morrer,
nos entrega as mais tortuosas linhas,
nos expele como nem fôssemos filhos.

A cidade é fonte invisível das mais finas dores,
das mais finas flores de Baudelaire,
e me atira os restos de todo amor que tive por ela,
me fazendo sentir vertigem por estar em cena.

A cidade é crua, o asfalto arde,
a mata queima, eu sou um desastre.

A calma é pura, é inimiga de tudo,
é preciso ser réu, é preciso de apuro.

E quando as coisas nos parecem muito apáticas,
é bom sempre ter altura pra morrer,
se entregar, pôr fim, em mergulho,
retirar-se, sem nenhum orgulho.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Despossuir

 Ela viveu tantos dias de sol
que nem posso contar
deu mais sorrisos sinceros
do que há ondas no mar

Tem a fagulha infalível da criação
flutua serena na existência
sem peso, sem norte, 
vertigem, nem aflição.

Sente tão naturalmente o fervor
dos dias de sol,
corre pros mares que a convidam,
invade os lugares que não a viram.

Nutrida da ineditez que só leves almas possuem,
percorre seu caminho pelos desejos mais simples,
pelo deleite impossível, pelo prazer intangível,
a necessidade incurável de apenas despossuir.

Viver e despossuir,
viver e não ter que nada,
só viver, sem mais nada.