terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
O imbecil da vida
O imbecil da vida
é a vida toda.
O julgamento de outros olhos
é pra sempre, o tempo inteiro.
Quase nunca vivo pra comemorar
mais um dia passado,
menos um na sentença.
Uma vida inteira
aprendendo essa dança.
Sendo máscara
esquecendo o próprio rosto,
um cativo muito omisso
da vontade do entorno.
Não sou dono, nunca,
nem responsável,
sou passageiro internado da agonia,
passageiro conformado da agonia.
O imbecil da vida
é a vida toda.
E o julgamento de tantos olhos
é pra sempre e o tempo inteiro.
Não se iluda porque não existe
o eterno e indulgente.
Todo mundo, quando quer, sabe ferir;
todo amor do mundo pode e deve te afligir.
Porque o imbecil da vida
é a vida toda.
E o julgamento dos teus olhos
vai ser pra sempre o derradeiro...
Não me iludo, eu não existo,
sou omisso e descontente.
Sempre soube que isso ia me afligir,
sempre soube que o amor ia me ferir.
terça-feira, 28 de janeiro de 2025
O velho e seu charuto
Foi numa segunda-feira ou talvez numa terça, a verdade é que eu já não sei bem.
Era bem cedo, entre quatro e cinco da manhã.
Se era na Nascimento Silva ou no Redentor, também não lembro.
Mas lembro bem daquele velho: ostentando um suspensório grená, uma bermuda desgastada de linho, camisa branca lisa e uma social listrada em branco e rosa bem aberta.
A barba grisalha levemente por fazer; eu só não me lembro mesmo dos sapatos.
Aquela cena me chamou muito a atenção. Farejei um certo desconsolo na feição daquele senhor, no jeito como ele estava ali, àquela hora da manhã, sentado de maneira pouco confortável, recostado numa jardineira dessas de rua que tinha uma grande árvore.
Era diferente. Tinha jeito de rotina, mas também tinha alguma coisa que não se encaixava.
Talvez fosse o charuto com aquela fumaça densa, ou mesmo a tristeza da solidão daquele personagem parado ali.
Não sei. Talvez fosse a hora, a postura.
Tinha cara de poucos amigos, cara de quem estava pouco interessado em tudo a sua volta.
Tinha uma melancolia toda especial naquela cena, uma coisa que a gente vê, sente, depois tenta traduzir, mas não consegue.
Imaginei que ele devia estar ali porque a mulher não o deixa fumar o charuto dentro de casa, talvez fosse uma proibição dos filhos, talvez ele tivesse um problema respiratório, talvez fosse câncer.
Mas ele não tinha cara de doente. Tinha mesmo uma consternação qualquer, uma amargura.
Talvez tivesse enterrado um filho recentemente, talvez fosse um momento de reflexão, talvez fosse vergonha de chorar em casa uma saudade qualquer.
Mas tinha jeito de ser grande homem.
E talvez aquele fosse só um dia comum em que ele precisou dar uma volta pra espairecer, dando suas baforadas pra pensar na vida.
Lembrar de velhas histórias, velhos amigos, recordar almoços de família, a mesa cheia, o cheiro da carne daquela churrascaria em Petrópolis, o nome do maître… João, Mário, Chico?
Não sabe, não lembra.
Como estaria ele, seja lá qual for o nome… será que ainda trabalha lá?
E o cheiro da carne, o sabor, o filé à Oswaldo Aranha, será que continua igual?
Talvez nem fosse tudo tão bom quanto ele lembra. O barato mesmo era a mesa cheia, a criançada dando trabalho, filhos, netos, sobrinhos, agregados.
Por onde anda todo mundo? Por que é mesmo que tudo muda?
É, talvez fosse de alguma coisa assim saudosa e corriqueira que saia aquele ar de desesperança.
Talvez fossem só lonjuras, distâncias.
Há muita gente que sofre disso, muita gente que morre disso.
Mas tem outros que não… pra alguns é só um pequeno vício, coisa de alguns minutos, dessas que vem com a insônia e vai embora com um charuto.
terça-feira, 31 de dezembro de 2024
sábado, 7 de dezembro de 2024
Fazenda inglesa
Assim como sempre chove na fazenda inglesa,
também não há sol em mim;
há anos não há luz aqui.
Sim, assim como sempre chove na fazenda inglesa,
aqui os tempos se fecharam.
As boas novas findaram;
o ritmo impassível da vida
diante dos desastres,
me atropelaram.
Desato os nós de maneira silenciosa,
de dentro deste moedor de carne
que virou a vida.
Do peso morto que sou,
do muito roto corpo,
e do que valho... só o peso da carne.
Dói, sim,
dói, e vai doer pra sempre mais.
Compreender a existência,
transcender os paralelos nos dias de chuva,
atravessar a cidade fenecida,
inundada de tratantes e homicidas.
Nunca me deve parecer normal
o mundo sem ti,
a cidade sem ti,
a vida sem ti...
e a morte tua dona.
Mas, assim como sempre chove na fazenda inglesa,
há em mim essa centelha,
o sopro dos anjos,
a vocação dos mais tristes,
dos incompreendidos homens.
A desobediência,
do ser que não sendo Deus
e nem divindade,
ainda assim é capaz e crê
no poder de criar beleza.

