terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Imagem do dia!


Desaprofundado

Desaprofundado de mim mesmo
sigo caminhando com a rasura
sigo me preocupando com as coisas mundanas que jurei combater,
vivendo o descalabro do amadurecimento tardio,
da obrigação da vida,
do cuidado e da fadiga.

Sou vício nocivo, 
homem como qualquer outro,
menor que muitos outros,
melhor do que alguns tantos.

Mas ainda o menino debaixo das escadas,
o quase poeta desacreditado,
primeiro a ir embora 
e último a rir.

De mim, apenas um falso condutor,
singelo antiherói sem charme e faculdade,
trazendo sempre o peso da maldade,
e a nuvem negra que ainda me permite sonhar.

Como um vício sinistro,
a afeição pelo desatino,
o gato preto, o homem omisso.

Sabedor de quase nada,
fraco e triste,
sem sabor...

Que não tendo em si pra dar,
não viverá o grande amor.

Imagem do dia!


 

Muito menos

Desagua o mundo e eu nem to aí,
nem nos lugares que devia estar,
por muito menos mil reis caíram,
por muito mais vi amor perdurar...

Eu ato os nós bem fortemente,
eu uso a língua pra me acalentar,
são noites longas dentro de mim,
muitos lugares pra não ir jamais.

Não me sinto em lado nenhum,
pertenço ao nada,
ninguém me refaz...

Os meus pedaços são coisas velhas,
coisas que nunca me deixam em paz,
são vidas mansas,
saudades tortas,
esquinas de um passado vulgar.

Então eu ato os nós bem fortemente,
e uso a língua pra me defender,
são noites longas pra sair de mim,
um mal lugar para se frequentar.

Eu não sou de lado nenhum,
pertenço ao nada
e então deixo estar...

Por muito menos vi reis caírem
e por bem mais vi o amor ser razão de viver
e sonhar, de ser livre,
e ser feliz.

Nulo

A força da palavra, é nula,
o vasto vocábulo, o passado.

Coleciono agora o desagrado e a tensão,
não sirvo mais pra isso,
é o que parece,
é o que vivo.

Dissolvo o ansiolítico,
procuro a rima e desisto rápido,
fui um ser esfíngico,
mas hoje sigo pelo mínimo.

O ano passa, os meses voam,
o sangue corre nas minhas veias,
dezembro é sempre mais difícil,
será pra sempre mais difícil.

Escrevo muito e nada falo,
é essa amargura mascarada,
é essa vontade torturante
de não estar sozinho aqui.

Escrevo como terapia,
como cura pro pesar,
e com um medo insensato
de um futuro mais feliz.