sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Feliz natal

Me fala dessa fineza,
soletra pra mim a tristeza
de ser assim como todos querem que seja.

Debata-se entre as paredes desse mundo,
esqueça as histórias que ouviu de dama e vagabundo.

Me fale dessa sexta-feira,
do drama que existe nesse seu jardim cercado imperial,
que eu te falo das areias,
que eu te faço um carnaval.

Não parece mesmo fácil entender as quatro linhas,
mas às vezes é que a vida,
não é bonita, não é bonita, não é bonita.

Então me fale do teu chão de tábua corrida,
de pinho de riga,
e me explica essa comida
que não é quente nem é fria...

Não se entende tudo isso,
eu não entendo tudo isso,
é preciso ser omisso
é preciso um pouco mais que uma chibata,
a cabeça é que maltrata, que maltrata, que maltrata.

Me fale do pouco que sabe,
e de tudo que vai além das tuas posses,
ainda que seja cedo,
ainda que seja morte, seja morte, seja morte.

Me trate como uma de suas distrações,
me aplique como faz quando vaga nos corações.

Por normose, por osmose, simbiose social, paranormal,
é como bocejar... pra oxigenar.

É como não amar ninguém e a todos desejar...
Feliz natal, feliz natal, feliz natal.

1957

Tem tempo que eu não tenho conseguido
destilar meus pensamentos,
as palavras estão fugindo
e eu me sinto mais inútil a cada dia,
a cada hora que passa...

Eu venho me esforçando,
mas me sinto adoentado vivendo mudo.

Acho que me falta um tiquinho de tristeza,
assim bem no diminuto mesmo,
bem sincera também,
aquela tristeza bem do fundo.

Quase sempre isso passa,
é fase, é só ter calma, aguarda,
relaxa...

Só que a vida é muito ruim assim,
eu preciso jogar no papel,
preciso ver mundo,
cantar, falar do céu, do mel da boca das meninas,
das suas delícias,
dos corpos celestiais despejando charme pelas ruas...

Preciso do dom da palavra
antes de mais nada,
eu só quero poder dizer,
poder jogar no ar qualquer besteira...

Preciso de um mega-vocabulário,
de um novo cérebro,
um HD com mais espaço.

Eu preciso ler livros,
ter filhos e filhas,
plantar uma árvore,
uma floresta,
comprar um jaguar
mil novecentos e cinquenta e sete.

É...
quase sempre passa.

Imagem do dia!


Amor de um mundo inteiro

É muito fácil falar de você,
e mais fácil ainda
cantar pra te fazer feliz...

Não sei porque nunca quis,
nunca soube direito,
eu sou meio sem jeito assim.

Mas é muito fácil,
mais fácil que por João e Tom Jobim,
mais fácil que se um dos meus bruxos
viesse pedir pra mim.

Porque eu divido contigo meu mundo,
e nem pisco pra pensar,
meus sonhos, meu futuro,
troco pelo seu bem estar...

Te ensino meus passos,
te falo da vida,
aprendo até a ser feliz,
nunca mais eu vou chorar
como chorei até aqui.

É muito fácil agora falar que a vida é boa,
deixar de implicar com tudo,
deixar de detestar tantas pessoas...

Eu troco de canal,
e clamo por atenção,
só quero seus olhos nos meus,
te peço qualquer opinião...

Invento algum assunto
eu só quero ouvir você falar,
dizer uma besteira,
me contar qualquer coisa...

Porque é muito fácil te amar,
muito fácil demais te amar...

Mas ainda não sei te fazer entender,
que eu tenho por você
o amor de um mundo inteiro.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Vôo escuro

Repito mantras mortos pra me manter de pé,
eu tenho muitas coisas pra dizer e pra falar,
da vida que eu vivo
e julgam ser tão fácil,
dos louros que eu não colho,
lugares que eu nem passo...

Eu tenho medos que não posso falar,
e penso coisas que não se deve dizer,
vivo penas que nem são minhas,
choro coisas que não devo chorar,
eu preciso estar sozinho,
ser sozinho pra me curar.

E em todo escuro,
lugares que eu me acho,
uso penas que nem são minhas
pra poder voar.

E em todo escuro,
lugares em que vez em quando me acho,
uso penas que nem são minhas,
como roupa de ritual,
e vôo pra todo escuro
procurando algo como um negro carnaval.

Dá licença

Dá licença, dá licença coração,
mas eu tenho que dizer,
eu tenho uma queda por ela,
e é um tombo pra melhor dizer,
não sei mais viver,
e sinto que sei só com você.

Das coisas da vida,
a dor eu não quis levar,
encontrei em você o amor,
e te levei pra lá,

Pro calor do meu abraço,
pro afino do meu assovio fácil,
pras coisas mais lindas da vida
que eu descobri com você,
quando te vi, quando te quis,
quando te tive toda pra mim...

Dá licença, dá licença coração,
mas eu tenho, tenho mesmo é que dizer,
eu tenho uma queda por ela,
e é um tombo pra melhor dizer,
não sei mais viver,
e sinto que sei só com você.

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Aparentemente

Aparentemente não é fácil ser feliz,
não há plenitude nem no inverno de Paris,
e quando penso em nós dois
não consigo segurar,
eu quase morro de vontades,
eu quase perco minhas vaidades,
e saio por aí sozinho,
rezando muito e bem baixinho,
só pensando em fazer mundo girar...

Porque aparentemente
não é fácil ter você pra mim.

Porque aparentemente
não é fácil ter você comigo aqui.

E eu não sei viver assim,
sem saber mais de você do que de mim,
eu não sei mais como deve ser,
qualquer vida que não tenha nós,
qualquer vida em que eu esteja só,
por aí, sem você...

Aparentemente não é fácil ser feliz,
mas é mais difícil ser feliz sem te ver,
sem te ter comigo aqui.

Imagem do dia!


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Nada mudou tanto assim

As velharias que escuto,
inspiram e me fazem transpirar,
transbordo segredos tão fúteis,
como os das colunas sociais

Nada mudou tanto que eu não possa compreender,
mesmo perdido no tempo,
ainda tenho amor pra ver,
amor pra dar e vender.

Dias no escuro,
noites em claro,
e é claro, eu escuto,
um disco empoeirado.

Dias no escuro,
e noites em claro,
é claro que eu escolho
rever qualquer passado.

Porque nada mudou, nada mudou tanto assim,
e mesmo perdido no tempo,
eu ainda tenho amor pra ver,
amor pra dar e pra vender...

As velharias que eu escuto,
inspiram e me fazem transpirar,
eu vivo dos sons mais puros,
que vieram antes do mundo acabar.

E mesmo perdido no tempo,
ouvindo e lendo eu ainda tenho
um tanto assim de amor pra descobrir,
um tanto assim que eu nem posso medir.

Imagem do dia!


A cidade de volta

Das canduras que a cidade te roubou,
tenho pouco ou quase nada pra falar,
eu vi o mundo destruir o seu sabor,
eu vi a vida te levar pra outro lugar,
pra longe dos sonhos,
e das trapalhadas,
das coisas que a gente nunca ia viver...

Mas ipanema continuará linda,
isso eu já disse e o amor confirma,
as ruas tristes dos generais,
o leblon, e o seu nunca mais.

Mas ipanema continuará linda,
pelos meus olhos e o amor das meninas,
as ruas tristes não existem mais,
e o leblon é um canto de paz.

Eu quero andar pela cidade sem descobrir você,
despindo em minha mente os sonhos que ninguém vê,
procurando uma saída no azul mais límpido,
as ruas vazias, meu desejo mais íntimo

Das canduras que a cidade te roubou,
tenho pouco ou quase nada pra falar,
eu vi o mundo fugir de mim,
eu me vi preso aqui nesse lugar,
precisando de tudo, de um coração noturno,
em que eu me visse e pudesse me guardar.

Eu quero a cidade de volta pra mim,
despir meus cantos e ver o que eu quiser,
esquecer sonhos que fiz para os outros,
poder lembrar que sou uma outra pessoa.

Mas ipanema continuará linda,
bem como eu disse, porque o amor combina,
as ruas todas me dizem coisas boas,
e o leblon é sempre um bom lugar.

Amor pra mim

Penso no amor, essa entidade sobrenatural,
e procuro entender o inintendível,
premunir a dor,
captar as ondas dessa coisa invisível,
absorver em qualquer ato essa entidade metafísica...

Eu quero o amor, na vida,
quero o amor, pra mim,

Eu quero o amor, na vida,
quero o amor, pra mim,

Enxergar nas estradas,
nos céus azuis do mundo inteiro,
no mar mais sujo, no lugar mais fuleiro,
nas coisas bobas e nas mais temidas,
nascimentos e partidas,
nas meninas mais bonitas,
e nas feias, talvez...

Eu quero o amor, na vida,
quero o amor, pra mim,

Quero o amor objetificado,
desmascarado em praça pública,
sem vergonha nenhuma,
sem censura pudica.

Eu quero o amor, aqui e agora,
quero o amor na minha história,

Pra encher as mãos como eu encho de areia,
pra jogar no ar, pra sentir,
como eu sinto os pés na pedra,
como eu sinto o mato entre os dedos,
como eu sinto o mundo acabando,
e o amor faltando à toda gente.

Eu quero o amor, pra distribuir,
eu quero o amor, pra mim.

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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Esvaecimento

De forma um pouco discreta,
tenho enfim feito as pazes com meus poetas,
e assim, ando mais conformado com as tristezas do mundo,
não que eu não me frustre com as maldades,
mas é que como disse um dos meus;

"O amor acaba."

E eu penso que tendo esse cenário como certeza,
a tristeza sempre vence, ela sempre há de vencer,
porque a felicidade não é plena,
e nem a alma mais pura,
nem a existência mais serena,
estará a salvo de um fim trágico,
de um grande horror,
de um derradeiro fracasso.

De forma muito, muito discreta,
tenho feito enfim as pazes com meus poetas,
e assim sendo,
volto ao meu dramático esvaecimento.

Imagem do dia!


Dor demais

Algo dilacera o meu peito,
uma dor que se sente aguda dos pés a cabeça,
é difícil respirar,
já não sei como se vive,
como se faz pra pôr os pés fora de casa.

Dizem que pode ser depressão,
e que há remédios que me fariam viver,
mas se é dor, e se é minha,
como a chuva, deixe chover,
disso não morro, disso não vou morrer.

Sinto como se o teto desabasse,
e se não tiver teto é como se o céu descesse muito,
o mundo é um enclaustro escuro, um cenário absurdo,
o sol me enjoa e o frio consola,
a chuva é uma festa,
e o calor me esfola...

Vivo sem certezas, sem contar as luas cheias,
sem saber do mês que vem,
sem fazer questão de quase nada,
sofrendo faltas impreenchíveis,
saudades que nem me pertencem,
e preocupações que me adoecem,
fazendo com que ninguém nunca perceba,
passo pelos dias como quem deseja
que toda essa dor um dia apenas ceda.

Esperando sempre um braço amigo,
e um pouco de amor também,
gosto de pensar que ainda sou querido,
pra não findar romantizando um suicídio.

Maus bocados

Amanhece na cidade como sempre amanheceu,
e eu canto só pro mundo,
com o amor que Deus me deu,
desavisado e esfarrapado,
eu sigo cantando espalhado,
não sigo seus planos baratos,
eu vivo aprontando,
eu vivo dos meus maus bocados...

Nem sempre sabem se estou vivo,
as vezes vivo como quem morreu,
e choro pelos cantos,
colhendo as letras dos meus novos cantos,
esquecendo meninas na vida,
deixando amor pelo caminho...

Amanhece na cidade, como sempre amanheceu,
e eu canto só pro mundo,
vivendo um novo amor que apareceu,
desavisado e muito mal cuidado,
eu sigo cantando embrasado,
sem seguir nenhum plano barato,
eu vivo aprontando,
eu vivo dos mais velhos fatos.

Imagem do dia!


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Menino fútil

Procura no amor
o que enxerga no espelho,
perfeição, que erro...

Entre seus pares de sapato
e camisas sociais,
ternos italianos,
coisas legais...

Tudo tão lindo,
corte batido,
que faz estilo,
old school é tão fino.

A vida dele é uma novela de tv,
um seriado legal,
mas sem atriz principal...

Batendo perna pela orla,
sem clamar por atenção,
ninguém precisa dizer
que ele é a sensação...

Ele procura no amor,
aquilo que vê no espelho,
e não sabe, não sabe

A vida dele é uma novela de tv,
um seriado legal,
mas sem atriz principal...

Vivendo a noite com o sol só pra ele,
água não mata sede,
com tantos peixes na rede...

E a cidade inteira de portas abertas,
as casas certas,
mar nas janelas...

Ele procura no amor,
aquilo que vê no espelho e não sabe,
não sabe...

Não há problemas, só solução,
a vida não é cara, com tanto dinheiro na mão,
mas ele não sabe, ou finge não saber,
menino fútil, só precisa entender...

Que o amor também pode ser sórdido,
e as coisas podem não fazer sentido,

Que a vida nem sempre segue um roteiro digno,
e tudo pode findar fora dos trilhos.

Vamos conquistar o mundo

Eu quero devorar toda a chuva dos seus olhos
e fazer grande banquete dos seus pensamentos tristes,
contempla-los em agonia,
vomita-los pelas vias,
descartar-los numa noite fria...

Pra te ver sorrir de novo,
sem um pingo de desgosto,
partindo do suposto
de que você também me ama.

Eu quero devorar todos os seus medos,
e tomar pra mim os seus inimigos,
queimar todos como em ritual,
e fugir daqui pra outro lugar,
pra curtir um outro carnaval.

Pra te ver sorrir de novo,
sem sentir um pingo de desgosto,
partindo do suposto
de que você também me ama,
vamos conquistar o mundo.

Mas se você não sente nada,
e nem quer saber de mim,
trate de mudar de calçada,
que eu não fingi que era ruim...

E pra fazer você morrer de medo,
e chorar por meses, eu juro,
não me custa muito mesmo,
não me custa um puto!

Imagem do dia!

Drop do Maraca - Pier de Ipanema 73/74

O carimbador de almas

Sabia que podia
apesar do que estava escrito,
sabia que não ia desistir.

Tudo idealizado,
sem deslumbre pelo poder.

Tudo sempre na palma da mão,
sem nenhuma chance de se perder.

Cultivava a sua volta
lindos pontos no espaço tempo,
pintados por aí pra não esquecer,
num dia quente daqueles seus,
sentimentos derretendo feito a cera no entardecer.

Confiava só no acaso
porque ele nunca o traiu.

E não gostava de pessoas,
só de algumas poucas e boas.

Escolhia os seus lugares
incluía quem ele quisesse,
colhendo almas bonitas
pra que elas não esmerilhassem.

Sabia que podia
um outro mundo escrever,
sabia que ninguém podia deter.

Em noventa graus pra entreter os olhos,
perder-se em cores, em vícios e corpos,
na areia azul do mar ou num mar azul de areia,
com o sol da noite que brilha e com sorrisos lhe presenteia.

Batuques, coqueiros, machões,
eunucos garanhões,

meninas felizes velando em choro baixo
os seus já falecidos botões...

Sabia que podia
esse outro mundo vivenciar,
mas sentia que o tempo era cruel,
e as máscaras iam despencar.

Caixa de pandora

O néctar da noite dita o efeito,
dita o meu jeito e os feitos que eu devo contar,
faz da noite uma caixinha de surpresas,
e a cada copo alguma coisa pode mudar.

Nem que seja o ângulo de ver o mundo,
e por ser vagabundo a liberdade eu não precisei comprar,
eu nunca precisei pagar...

A madrugada estende a mão,
salva e leva tanta gente,
conhece os pulsos das mansões e da sarjeta.
Todos os malucos que não se medem pela grana,
todas as vadias, e as meninas de família,
traficantezinhos, otários, 
viciados, boas pintas...

A noite é de todos,
caixa de pandora,
labirinto de perdição.

A noite é de todos,
ela é uma criança cruel e doce,
que não gosta de ouvir não.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Imagem do dia!


Até quando

O ritmo extasiante das tragédias me consome,
toda noite quando deito,
deito sempre novo homem.

Sobre viver, já escrevi,
sobre vida, sobre morte,
sobre amor à primeira vista,
e sobre meninas sem sorte.

Mas hoje, é o ritmo embevecido desse mundo violento que me exaure,
que me deteriora, que me parte e me desconsola,
não vejo melhora, nem de longe, nem por hora.

E sabe-se lá até quando eu escrevo,
até quando terei bala na agulha,
amor a altura,
e olhos pra ver...

Ver as coisas do mundo que não choram,
ver as coisas que nos refazem, que nos acendem...

Escrever sobre freiras atravessando a rua,
balões coloridos caindo sob a cidade turva,
uma noite tranquila, Ipanema vazia,
o vento do mar...

Sabe-se lá...

Até quando aqui?
Até quando capaz de amar?

Devoro-te

Devoro-te por esporte,
uma consagração
ao teu eu mais sórdido.

Reviro meu coração,
em busca de um nome pra você,
qualquer coisa que não seja amor,
qualquer coisa que eu não possa depender.

Descarto todas as semanas,
eu vivo pro anoitecer,
deságuo com o mundo,
eu me viro no escuro,
só sei mesmo de tudo que eu não quero ser.

Devoro-te por esporte,
a cidade é meu templo pagão,
e o meu tempo, o instrumento,
de uma sórdida ingratidão.

Imagem do dia!


Amanhã não mais

Essa noite as coisas parecem normais
gente louca pelas ruas
pessoas quase sempre más,
as paredes do quarto estão se fechando,
não sei se foi álcool ou algo que eu disse,
neurótico assíduo já nem sei o que é real.

Mais uma noite normal,
mais um dia que vem pra dizer
que não há nada de errado no mundo,
só há tudo de errado com tudo,
tudo de errado com tudo.

Só por hoje as coisas parecem normais,
e eu posso garantir uma tragédia nos jornais,
é tudo tão claro, hoje é tudo tão certo,
um vento sudoeste, um maral e o tempo aberto....

Sinto cheiro do seu sangue misturado,
eu farejo seu medo, farejo seu amor,
posso sentir como o tato,
o que você me diz com os olhos,
e o que você esconde,
tenho um monte de verdades pra dizer,
percebo tudo, tudo, tudo tão antes...

Mas é só por hoje,
ah, é só por hoje,
ah, é só por hoje,
mais um dia normal...

E amanhã,
amanhã não mais.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Imagem do dia!


Desencantar

Há uma ponta de mim
que ainda vive de você,
e não há nada que eu faça,
ou que venha a fazer,
que arranque isso de mim,
como me tiraram de você.

E todas as manhãs
quando a névoa se desfaz,
o sol vem me dizer
que os dias sem você
pra sempre vão ser iguais.

Sinto cheiro de veneno,
e falta do seu sofá,
e das tristezas que eu sentia
que me mantinham interessante,
como todas as pessoas tristes
com seus gênios inconstantes.

Sinatra não me diz mais nada,
e até Caetano eu deixei pra lá,
não tenho mais desejos bobos,
nem quero aprender a dançar...

Desencantei, o mundo começou a ganhar,
eu te deixei, porque precisava deixar,
desencantei, o mundo precisava ganhar,
eu te deixei, porque o mundo me fez desencantar.

Imagem do dia!

Júlio Barroso, O Marginal Conservador

Samba escatológico

Escatologicamente falando
é pública e notória toda minha dor,
e não há mentira nenhuma,
nem verdade proferida
pra curar meu dissabor...

Existem apenas palavras,
apanhadas bem maduras sem nenhum pudor,
estrategicamente assentadas
e muito bem acentuadas
pra pontilhar o meu tratado versificador.

E então eu fiz esse samba dolente,
aqui desse tempo turvo que atravessa a minha vida,
que é pra marcar bem direitinho,
como é que bem devagarinho
açoitaram minhas feridas.

As tardes, os dias e as noites,
empilhadas pelo tempo, me fazendo de palhaço,
e o choro escorrendo no rosto,
nunca foi um choro imposto,
era pra mim uma despedida...

E agora aqui de cima, sofrendo,
não vejo um só motivo que me faça fraquejar,
e o salto, o saco preto, o asfalto,
me parecem tão serenos,
me chamando pra dançar...

Que eu fiz esse samba dolente,
eu fiz bem rapidinho um pouco antes de pular,
eu fiz um samba despedida,
um samba de partida pra não fugir sem sambar.

Um pouco de paz

Eu só queria um trocado pra mudar o mundo,
e um pouco de coragem pro medo do escuro,
hoje tudo soa tão estranho,
todos os meus gostos me fugiram,
boto na minha boca uma folha de hortelã,
mas o mundo segue sem cor,
sem gosto e sem razão...

Hoje tudo que eu queria,
era sair pra rua e encontrar
pelas calçadas, alguma luz,
alguma paz pra mim...

Hoje, tudo, tudo que eu queria,
eram novos olhos pra enxergar,
era encontrar você ali,
bem onde eu deixei,
você ali,
do jeitinho que eu sabia que estaria...

Eu queria enfervescer enquanto jovem,
queria querer mundo como todos querem,
queria até ter quereres banais,
coisas pra dizer que amo,
discos pra chamar de meu,
livros que cansei de ler,
gente que amei demais,
gente que eu quis pra mim,
mundos para desbravar...

Mas hoje, tudo me parece tão sem sangue,
toda vida meio sem amor,
gente doida andando pelas vias,
drogas que já não constrangem mais,
homens que se atiram das sacadas,
mortos nas manchetes dos jornais...

Mas hoje, tudo aqui parece tão longe de mim,
hoje, eu só queria um pouco de coragem,
queria não ser parte da paisagem,
queria dar adeus e nada mais,
queria só um pouco de paz.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Imagem do dia!


Tomzinho querido

Por algum motivo me parece que ele sabe,
me parece que ele sente...

Ou sou eu que sinto,
e percebo que preciso,
do som ameno, daquelas notas,
de um bom amigo.

Por algum motivo sempre me parece que ele sabe,
que percebe o bom momento,
que sente meu desagrado, meu desgosto,
o descrédito que dou pro mundo,
a tristeza que sinto,
esse peso absurdo.

Pra mim, sempre pareceu que ele sabia de tudo,
pronto pra me tirar do escuro,
e me entregar os sons mais familiares e puros,
as coisas mais lindas que jamais pude ver,
tudo o que não pude presenciar e sentir,
o suco da cidade maltratada que há aqui,
o ar, o mar, as pedras que tanto amo,
a valsa da cidade, o vôo,
as serras, as garotas de outros anos.

Pra mim, ele sabia mesmo das coisas,
só não sabia do final tão triste,
e dessa tragédia galopante que nos assola,
da falta que faria um bom maestro e suas notas.

Imagem do dia!


Mário Filho

Eis que a cidade amanhece
e como ainda em repouso, um ar leve paira.

O sol quente bate no asfalto liso das vias expressas
e as pressas não se vê ninguém nas ruas...

É domingo e o mar de nada importa,
é verão e o calor intenso não incomoda.

Pelas esquinas botecos com tvs nas quinas
cheias de quem fez do dia
o seu dia de viver.

Servidos, felizes, fardados, em crise...
vão todos pra depois do túnel,
onde não existem mais calçadas...

A rua lá é de quem anda,
de quem grita alto e canta,
de quem leva sua bandeira nos ombros...

Em dias assim o mundo não gira
o rio não deságua
é quente e não queima
chove e não molha
É dia de jogo...

Todos os caminhos levam ao templo,
levam aos tempos, dois, de quarenta e cinco.

É Vasco e Flamengo.

Corações felizes

Meu coração, cheio como as calçadas
de uma sexta-feira no Leblon,
bate irriquieto
e consente ao jargão,
nova classificação...

Amor é dor,
e dor assim também é bom,
dor de amor,
pra ser feliz depois.

Todo dia quando acordo
é como compor nova canção,
e ser assim
é quase sempre bom.

Corações alegres enfeitam a cidade,
como tempestades de luz solar,
corações felizes enfeitam a cidade,
como as boas novas que estão pra chegar

Amor é dor,
e dor assim também é bom,
dor de amor,
se for pra ser feliz depois.

sábado, 28 de abril de 2018

Imagem do dia!


O Rio para trás

Já aceito deixar o Rio para trás,
amigos e amores também,
já me vejo longe,
já me sinto como um outro qualquer,
como se em minha vida
não houvesse uma pedrinha portuguesa pra cantar.

E toda beleza parecesse uma besteira,
um detalhe tão pequeno pra fazer mundo mudar,
um detalhe assim, muito, muito pequeno demais.

As nuvens baixas sob a luz do jockey,
o Rio imerso na bruma de um inverno infernal.

As caixas vazias como os corações das meninas,
as avenidas, e os meus bons dois irmãos.

Já me vejo longe, já me vejo tão distante,
como se tivesse partido, partido há alguns anos atrás,
estou velho e louco,
velho e choroso,
triste e saudoso de tempos atrás,
tempo demais.

E toda beleza parece besteira,
parecem detalhes que são pequenos demais,
pequenos demais pra importar,
pequenos demais pra me fazer ficar.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Infinitos verões

Cantos coloridos da cidade
ainda me fazem cantar
encantos repetidos
e encontros descabidos
são como música
pra quem quer dançar

Ainda me perco
pelas minhas partes favoritas
eu ainda penso
em desaguar por mil esquinas
fantasio viver
por verões infinitos

Que é pra dar corpo
pros mares e pras areias
pra entregar a carcaça ao sol

Pra desandar e nem dormir
e viver todos os dias
como quem nem é daqui

Imagem do dia!


O Marina

Da janela, o Marina no leblon
parece concordar plenamente comigo,
parece dizer que é assim que a vida anda
e a banda toca como nada mais fosse mudar.

As ruas não param, os sinais de trânsito,
a chuva desaba, deságua sem dó,
e eu desabo também, desato os meus nós,
deságuo o meu mar de lágrimas.

As cagarras sempre vão estar ali
pra rir de mim e dos meus enganos na beira do mar,
a maria e a joana, a garcia e o poeta também,
vão todos sempre estar ali pra me consolar,
pra me orientar como ninguém...

Madrugadas libertinas, madrugadas solitárias,
as areais como companhia,
e as pedrinhas portuguesas pra eu me divertir,
como os bons cristais, e os tiros de alívio
que as multidões sempre deram por aí...

Daqui debaixo o Marina no leblon
está tão longe que mal posso ler,
o letreiro vermelho que há pouco
parecia estar piscando pra mim,
já não me enche de certezas,
só engrandece minhas tristezas,
e a solidão à primeira luz do amanhecer.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Imagem do dia!


O tempo

Do que as duras decisões da vida
eu temo mais o tempo
que ele traz as ruínas

Me assusto a cada pôr do sol
e as horas ainda passam sem parar

Escrevo pra deixar meu rastro
como fazem nas areias
os parvos de todo o mundo

Me assusto como quem não entende
que as horas nunca param de passar

E o tempo, que é nossa invenção,
é muito mais mortal
que a bomba nuclear

Ímpios e desleixados

A cidade doente não faz parte da gente,
continuamos perambulando por aí
nos dias de chuva,
escapando dos vendavais,
dos galhos e dos postes que tombam pelo nosso lugar,
e as ruas tão cheias fazem a gente lembrar
como é bom sair pra andar de madrugada.

Não cessamos nossa marcha,
seguimos ímpios, sem pensar em parar,
jogando o preço das nossas vidas bem pra baixo,
levando o jogo pra um outro nível só por desleixo.

Porque a cidade doente não faz parte da gente,
nós seguimos perambulando por aí,
nos dias de balas cruzadas,
de ônibus incendiados,
escapando dos assaltos,
dos prefeitos desgraçados de todos os anos,
e as ruas tão cheias sempre nos lembram
como é bom sair de madrugada...

Não nos damos por vencidos,
nós não temos nenhum medo disso,
seguimos ímpios, sem pensar em parar,
jogando o preço das nossas vidas bem lá em baixo,
levando o jogo pra um outro nível só por desleixo.

Porque o sol e a chuva não tem culpa de nada,
e as pedras, as areias,
as matas, as lindezas dessa terra,
sempre merecem, sempre vão merecer,
que olhos destemidos e amores inconsequentes,
as façam viver, sobreviver.

Imagem do dia!


Sobre viver

Sobre viver,
te digo, amigo,
não é fácil,

não é,

E sobre essa vida,
te digo, querida,
sabemos pouco demais.

E ainda que um dia,
alguém insista,
e pense que pode saber muito,

sobre viver,
eu sinto vou ter,

que contrariar.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Só você saberia dizer

Você não saberia dizer
se visse seu amor passar
num velho patinete
com rodinhas verde claras
cantando que a vida só se dá pra quem se deu

Você não saberia dizer
se foi um dejavi
ou se era cena de algum filme
do Woody Allen que você viu por aí

Ah, ninguém saberia dizer,
se a vida se repete,
se Deus não muda a esquete
pra anunciar que vem novo amor por aí

Você não saberia dizer,
se no dia seguinte o mundo fosse outro
e até seu vizinho escroto
lhe parecesse um pouco melhor

Você não saberia dizer
se aquela linda menina
poderia ser a prima
daquele velho amigo seu

Ah, ninguém saberia dizer
se a vida só esquece
da felicidade de quem esquece de viver

Ah, ninguém saberia dizer
só você, só você
só você saberia dizer!

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Sem vontades

Não me reconheço nos cenários que mais amei,
tudo anda turvo, anda morto,
diferente como só eu sei...

Nos bares da cidade
só vivem inimigos,
e a espuma das ruas
não esconde os assassinos.

Eu vivo com vontades de mentira,
transito a vida inteira
num beco sem saída.

Não fui feito para amar,
nem sei se de amor,
só sei que se ela é bela,
nunca me fez delirar...

A vida é muito ingrata,
como todo filho homem,
e a gente segue em frente
só pra ter aonde segurar.

Eu vivo minhas vontades de mentira,
sabendo que minha sina
deve ser o desamor...

Homem triste, desalmado,
sem pecado e sem ardor,
de olhos opacos,
sem vontades,
sem sentir nenhum sabor.

Como chove em março

Tenho olhos assustados
de quem não sabe mais dormir,
e a vida incerta
como naquela noite de abril...

Como chove em março,
como chove no verão,
me liga por favor,
eu já não sei mais quem sou.

Tenho os olhos molhados
de quem não sabe mais da vida,
e ela é tão incerta
como naquele dia de chuva e trovões...

Como chove em março,
como chove no verão,
me dê notícias por favor,
que eu já não sei mais quem fui
e nem quem sou.

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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O sol é uma mulher

Todo fim de tarde na cidade
é um quadro perfeito do fim dos tempos.

E todo pôr do sol leva consigo
um pouco de vida,
como aquela menina tão linda...

E eu digo sem dúvida alguma,
pertenço a ela,
não troco pela lua,
pertenço a ela,
não vivo mais das ruas...

E todo fim de tarde na cidade,
eu caminho em direção certeira,
me espalho nas areias,
eu deixo minhas marcas,
e assisto ela sumir...

O sol é uma mulher,
e eu digo sem dúvida alguma,
uma deusa de luzes intensas,
uma deusa como nenhum Deus pode ser.

O sol é uma mulher,
e eu sei, como quem não sabe nada também,
e eu sei muito bem, eu sei muito bem.

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Feliz sozinho

Das tuas belezas
e tons de turquesa,
eu tiro tanto céu pra ver,
que esqueço do chão que piso,
esqueço do frio que vivo

Mas hoje o leblon cinzento como nos meus sonhos,
como nos bons tempos,
inunda minha alma da falta que você faz aqui.

E da tua beleza, agora eu só tiro uns versos tristes,
porque eu sei que você existe,
mas sei também que não me faz mais feliz.

De você, quero ter só o que me transformou,
quero viver somente do meu amor,
e ser imenso, ser intenso o suficiente,
pra ser feliz sozinho.

Me estragar

Hoje eu vou sair pra me estragar
só volto carregado pelo sol,
a noite me diz coisas no ouvido
que eu ouço, mas não posso repetir

Eu vivo bem atento o tempo inteiro
esperando um chamado pra viver,
eu vivo aqui perdido o tempo todo
esperando um bom motivo pra esquecer...

E hoje eu vou sair pra me entregar,
só volto se a lua me devolver,
não finjo, eu não imito,
não falo uma palavra pros mortais,
me entendo com as meninas bem nascidas
que fogem dos seus próprios pais.

Eu hoje vou sair pra me arrasar,
torcer o cacho de tanto embrasar,
porque hoje a noite me chamou pra vida
e ainda, ainda posso ser feliz assim...

Somente se o sol não me acordar,
e a lua não me devolver cedo demais,
se por acaso o dia não raiar,
e a polícia não encontrar um rastro meu...

Eu ainda posso ser feliz assim!

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