segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Da praia grande ao piauí

Ela disse pra mim
que não consegue mais dormir
e nem sabe que é porque
vive acordada aqui comigo...

Dizendo sempre
o que eu preciso ouvir,
falando um monte pra mim,
assuntando sobre amor,
jurando vidas sob o mar...

De pés na areia,
bem como eu vejo o mundo,
de ipanema a marambaia,
da praia grande ao piauí...

Ela disse pra mim
que não consegue dormir
e nem desconfia
que vive acordada nos meus sonhos.

Iluminando minhas noites
com os olhos acesos pela madrugada,
inexplicavelmente dá jeito em mim
com uma ou duas palavras...

Ela é mais que amor,
é meditação,
ela é terra de santa cruz,
é samba de verão.

Ela disse pra mim
que não consegue dormir,
e eu disse pra ela...

Amor, vem deitar aqui.

Torrentes

1 - Parte primeira

Nessa vida muito morna de torrentes
e de acessos incompreensíveis,
ainda me encontro são e salvo,
de canto, virado,
vidrado nos olhos de cor de sempre...

Repetindo minhas verdades inventadas,
minhas verdades preferidas,
minha regras infundadas...

Num regozijo de pura tristeza,
ritual massacrante,
pra dar forma de letra
nas lágrimas que caem sob a mesa.

Bem do jeitinho que escrevia seu nome no ar,
dispersando o nevoeiro de amargura que havia entre nós,
lembrando de quando media sua mão junto da minha,
naquele tatear incansável,
coisa de quem ainda não tinha medo de amar.

2 - Parte segunda

Por Deus, fechem as janelas,
tranquem as portas a chave,
eu perdi o amor que tinha por ela.

Acordei distraído,
o dia começou mais triste do que o normal,
por algum motivo sumiu todo o encantamento,
desvendou-se o inexplicável,
fez-se triste
o que me parecia sempre alegre.

Senti na pele o frio
de um sol de quarenta graus,
congelei sem perceber
na sombra antes alentadora
de uma frondosa amendoeira.

Eu não sorri nem pros cachorros do parque,
a não ser pra um bulldog bastante simpático.

Esqueci de olhar o mar,
não vi as ondas como estavam,
nem o horizonte se era claro ou nuveado,
eu não quis sair em pleno sábado.

É, acho que perdi isso aqui dentro de casa mesmo,
deve estar num canto escuro,
num cantinho empoeirado.

O amor tem dessas,
vive se perdendo
querendo ser achado.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Blues de apartamento

Eu ando aceitando o fato
de nunca mais te encontrar...

E é como perder o amor de um Deus,
de uma Deusa que subitamente
esqueceu de me amparar.

Assim desprotegido, entregue,
eu sigo, resisto a esse golpe duro da vida,
dessa ciranda de separação.

Por isso eu tirei esse blues,
um blues cheio de ressentimento.

Eu fiz pra você,
fiz pensando em nós dois,
em tudo que já não existe mais
e me acabei de chorar...

Eu fiz um blues,
um blues de apartamento,
só que é do verbo apartar.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Ponta da pena

Vivendo por palavras,
dando sangue por epígrafes razoáveis,
sigo essa vida mansa de escritor,
de pobre lamentador sem obra...

Rezando por disciplina,
por paciência e luz
pra dar luz a um romance
que não seja um romance de esquina.

Ah como eu queria...

Por Caroline,
por Luisa,
por Alice,
umas Marias...

Ah eu bem queria.

Queria epígrafes menos corporais,
achava bom sentir qualquer coisa etérea antes de tudo,
antes de me desiludir de vez com o mundo,
com as crenças todas dessa esfera muito louca.

Porque há dias que não existem verdades,
da ciência e religião aos números,
do brilho dos olhos ao amor de uma criança.

E eu...

Não ligo mesmo,
eu só quero tirar verso de tudo,
ter o poder, o dom,
perícia com a palavra,
eu só queria esse sossego,
essa pureza e mansidão,
pra avultar na minha alma o apuro
pra versar cada pedrinha no chão...

E continuar vivendo por epígrafes possíveis,
dando sangue por boas palavras combinadas,
seguindo aos trancos e barrancos
nessa vida de costas muito quentes,
inteiro tomado por tristezas de escritor,
por muito medo de folhas em branco
e de sentir a ponta da pena sem amor.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Muito mais

Toda vez que eu perco o sono
eu me apaixono
novamente por você...

E ah se eu pudesse,
se o vento leste hoje viesse,
eu gritaria da janela,
eu pediria pra ele te levar o meu amor.

Mas hoje está tudo tão distante,
nada é mais como era antes,
e se te vejo por aí,
que mundo é esse,
eu já nem te beijo mais,
eu só te vejo,
e é só...

Toda vez que eu perco o sono
esse é mais um dia meu
que você ganhou...

E eu sonho acordado
esperando você vir buscar todos os seus dias,
me fitando com os olhos pretos,
me cobrando todo amor que eu disse que daria
e querendo muito mais de mim.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Se voltar

Se você voltar
eu vou estar aqui,
cedo ou tarde,
eu vou estar pra você...

Por acidente,
por acaso,
por descuido,
por prazer...

Eu vou estar.

Eu vou ficar.

Vou dar plantão nos nossos cantos,
chorar como nunca nas suas pedras,
vou acampar no mirante,
virar caixeiro viajante,
não vou voltar pra casa,
não tenho lar...

É que é desamparado que eu vivo
sem abrigo no teu peito.

É desamparado que eu sigo,
preciso mesmo me virar no mundo.

Mas se você voltar,
se voltar eu vou estar aqui,
cedo ou tarde,
dia ou noite,
nossas horas,
nossos dias,
eu vou estar,
eu vou ficar...

Vou dar plantão nos seus lugares,
vou desaguar na sua rua,
eu vou plantar uma palmeira,
um jacarandá,
vou dar de maluco...

Eu vou gritar os meus versos estúpidos
na alta madrugada,
vou te acordar pra ver o show,
o meu trepidar pelas calçadas...

Eu vou prometer
que vou parar de beber,
vou plantar um ipê amarelo
no seu scarpin vermelho,
e vou ser bem sincero,
vou discursar sempre aos berros,
me apresentar pra sua varanda vazia
pra matar-te de vergonha,
fazer você chamar a polícia!

Eu vou me jogar nos paralelos,
alucinar, fazer papel de perturbado,
eu vou rolar de rir a noite inteira,
ladeira a baixo, ladeira a baixo...

Mas se você voltar,
se voltar eu vou estar aqui,
cedo ou tarde,
dia ou noite,
vou estar só pra você...

Pra assistir a sua volta,
pra beijar-te o corpo inteiro
e esquecer da falta doentia que você me fez.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Deusa desse lado

Não a vejo faz um ano,
um e um pouco mais,
já não me lembro,
já vive um pouco longe demais...

Mas sabe,
sempre que ela me aparece,
parece sempre
um pouco mais linda.

Às vezes tenho a impressão
de que ela é um anjo
em ascendente evolução.

Uma entidade superior,
ser perfeito, com luz própria
e o amor do mundo todo dentro de si.

E só vive aqui pra se encantar,
pra ter um pouco mais da vida,
diferir melhor inteligência e sabedoria.

Ela tem mesmo qualquer coisa
de surpreendente, inexplicável,
e pra mim,
acho que só faz hora nesse lugar...

Já que em verdade
está prestes a se tornar
a Deusa desse lado da galáxia.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O homem que chora

O homem que chora se recolhe no frio,
se debruça nas pedras,
recita Augusto dos Anjos,
profere a psicologia de um vencido
com sol poente nos pulmões,
infinitas verdades doídas
pros desavisados de plantão.

O homem que chora
nem sempre chora por si mesmo,
nem sempre sabe porque chora,
e como as lágrimas que caem de surpresa
não lhe permitindo qualquer dissimulação,
de súbito o homem não mais se pôs a chorar.

Seu poente desapareceu,
calou seu choro num tempo que ele nomeou
de o escuro do mundo,
do mundo dele,
de suas frias noites,
de suas pedras prediletas...

Durante anos fraquejou sua fala
ao tentar explicar
o estancamento de seu choro,
dizia que era autoconhecimento,
que só assim passeava em suas tristezas com calma,
que era melhor pra entender,
pra encontrar a fonte invisível
de toda aquela melancolia...

Só assim ele podia ter o mundo dele
tal qual suas lágrimas não o permitiam ter.

Alguns despejaram patologias,
receitaram medicamentos,
pediram exames,
recomendaram internação.

Mas de lá de dentro do mundo dele,
num momento de fraqueza,
lapso, desatenção,
num lampejo de craque,
jogadaça da tristeza...

O homem chorou de novo.

Chorou e chorou melhor,
chorou como nunca antes haviam chorado,
chorou com paixão,
chorou cobrando compreensão dos poetas,
chorou pra calar os médicos
chorou de fazer inveja aos bebês da maternidade.

O homem chorou,
chorou porque é homem.

Chorou pelo desespero da existência,
o desespero da piedade,
chorou pelo pedantismo,
chorou a servidão de tantas vidas,
chorou pelas quimeras todas,
chorou o sangue das guerras,
a felicidade das mães,
a falta que sentem os netos,
as brigas dos namorados felizes,
a decepção dos pais,
o joelho ralado,
o braço quebrado,
tornozelo torcido,
o sol por entre as nuvens,
um sábado perdido...

Ah, como chorou o homem,
como chora ainda...

E por entre um soluço e outro,
é possível escutá-lo dizendo
que não volta pro mundo dele nunca mais,
que prefere o mundo dos homens,
desses homens que não entendem
a virtuosidade da própria tristeza e solidão.

Diz que chora por isso também,
e que vai viver assim...

Viver até morrer de chorar.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O poeta debaixo das escadas

Bem debaixo das escadas
sob as solas dos sapatos dos passantes,
o menino destilava seus versos,
derramava suas lágrimas...

Sol a sol,
como se sentença fosse,
o poeta debaixo das escadas
se escondia.

Fugia dos arroubos violentos da juventude,
da massante tristeza
que adornava a sua alma...

O poeta se escondia
pra guardar-se do mundo,
pra sagrar-se
grande homem no futuro.

E com os olhos salgados de mar,
do mar tempestuoso de sua alma,
certo dia o pequeno poeta
só admirou de longe os degraus...

Não se escondeu debaixo das escadas,
arrastou sua imensa tristeza pelo caminho
e seguiu, seguiu chorando a vida,
cresceu versando morte,
dando nome ao desassossego
que é sentir-se sempre muito afeito ao pesar...

Que é ser feito de palavras a escrever,
de poesia pra deixar
antes de Deus deixar-te ir.

domingo, 23 de novembro de 2014

Padecimento

Ela é das coisas mais lindas desse mundo,
eu nunca vi nada igual...

E mesmo quando ando perdido
vivendo um escuro profundo,
são naqueles olhos
que eu encontro o caminho do mar.

Desacreditado com a mão espalmada pro alto,
eu suplico, clamo,
peço por qualquer interferência divina,
oro pra que ela venha, pra que ela volte,
pra que ela queira algo de mim antes que eu me corte,
que eu me jogue do décimo oitavo andar...

Ela é tudo que eu tive de melhor,
não tem antes nem depois daqueles olhos,
eu esqueci minha alma naquele azul,
no reflexo das luzes
do nosso bem pequeno canto sul...

Nesse tempo em que o mundo me parecia
um lugar todo irreal,
ponto abastado da vida
onde eu fui feliz de fato,
onde fui verdades muito bem vestidas,
lugar comum onde vivi através dela,
do sentimento mais caro e sublime,
do amor que por ela tive,
do amor que por ela ainda tenho...

E que hoje;
assim já bem distante dos bons tempos,
vive por ela através do padecimento,
dessa dor incurável que traz todo fim,
desse desconsolo arquejante
que por muito continuarei tendo.

Imagem do dia!


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Deus

Ele vem cheio dos seus bem quereres,
vem que nem uma brisa, maresia,
vem como quem não vai mais embora,
não quer mais saber do mundo lá fora...

Me transmite a desimportância de tudo,
e eu vejo mesmo que não sei de nada,
e que nem quero saber...

Só sei da vida
que ela acaba.

Não sei de nada,
sei de nada...

E quando ele vai, eu vivo procurando significados
pra essa minha insignificância,
escorado em vontades diversas,
paixões de meia-tigela pelos olhos claros
das meninas mais indiscretas...

E ainda que não saiba de nada,
penso que levo como verdade na vida
o vaticínio de que onde o sol bate
há uma ponta desse mistério,
há um talhe incompreensível;
e de que onde a luz da lua brilha
há também o mesmo sentimento,
uma figura em constante dissimulação.

Por toda parte,
por todo lado, todo canto,
existe sim a semente, o embrião,
a gênese, a célula fundamental,
do sentimento, da presença fundamental,
por toda parte,
por todo lado, todo canto...

Nas sombras lisérgicas,
nos altares imaculados,
nas tumbas dos faraós,
em atlântida inundada,
em marte, em vênus, kepler,
plutão!

Há sim por todas as terras,
nas esferas mais distantes,
essa presença imaterial,
essa intenção divina acima da compreensão.

Há quem chame de Deus...
eu chamo de amor.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Última canção

Soprando a dor pra fora dos meus pulmões,
eu fiz uma ultima canção
em seu nome...

Me aproveitando da distância,
das últimas lembranças,
eu fiz cantarolando essa melodia.

Apago o cigarro no meu pulso,
bem sado, me queimo, eu procuro
o resto do seu amor esquecido no meu sangue,
um último suspiro, veneno,
um vício, o meu levante...

E me assusto quando encontro
nos cantos mais improváveis do meu corpo,
um pouco de você,
de um beijo com gostinho de geléia de morango,
nada mal... tango down, down, down.

Você me deixa assim cambaleante,
toda vez a mesma história,
já é quase uma constante...
e os seus olhos sacanas
perdidos em outras camas,
me tiram o sono, roubam toda poesia,
fazem sangria da minha vida...

Apago o cigarro no meu pulso,
nesse passo pranteado eu sigo
porque só me acho nessa dor,
só me acho entregue a esse sentimento agudo,
consternação, esse desgosto profundo...

Fazendo de novo
juras de uma última canção,
rastejando com a alma,
imerso em boas intenções,
vou me entregando a sua falta,
destruindo outros corações.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O vento

O vento uiva na noite,
discursa a mais alta sabedoria,
fala de cantos do mundo que ninguém conhece,
conta mil histórias,
traz coisas de novos continentes...

Nas suas rajadas
soletra impiedosamente vida e morte,
coleciona tudo que puder arrastar,
gira o catavento, faz a ressaca no mar.

O vento molda as pedras,
os galhos da amendoeira,
derruba as folhas todas,
faz dançarem os pinheiros...

No vento vem areia,
vem perfume, vem poeira,
no vento vem maresia,
vem chuva fina, pedra de gelo...

Mas no vento também vem calmaria,
nos dias que não há um desassossego,
nos dias que o vento repousa e só vem pela tarde,
ventando bem quente, sereno, fagueiro.

No vento é que plana a gaivota,
é o vento que faz o velejador,
o vento faz alegria dos loucos
quando vem a lestada das noites de horror...

E de todas as suas aparições,
carregando telha
ou sustentando a pipa,
o vento me disse que gostava mesmo
de mexer com as saias das meninas.

domingo, 9 de novembro de 2014

Tenho muito

Tenho tido pesadelos
problemas pra reagir ao mal do mundo.

Tenho visto umas coisas
quando fecho os olhos,
não sei bem do que se trata,
é como a luminosidade de uma lâmpada quente
logo que se apaga.

Tem tempo que prevejo domingos
com exatidão de Nostradamus...

Tem dias que eu vivo
assistindo cenas repetidas o tempo todo,
por todos os lados,
é uma espécie de replay,
déjà vu descontrolado.

Tenho tempo,
tenho medo,
tenho gente demais do meu lado...

Tenho livros,
uns amigos,
o tornozelo esquerdo mal curado...

Tenho dúzias de tristezas,
todas vivas, educadas,
tenho dessas pra derramar sempre
muito bem as minhas lágrimas.

Tenho falta, sabe?
Tenho saudades irremediáveis,
sofro de ausências,
eu me interno em desnecessidades.

Tenho alma,
tenho corpo,
conteúdo...

Sou 70% água,
tenho nada
e tenho tudo.

Sabe amor?
Tenho muito.

Mas isso não é coisa
que a gente sai falando pra todo mundo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Esverdeado

Nunca acreditei em muitas coisas,
tangíveis ou distantes,
verdades ou mentiras,
tudo sempre foi tão desimportante...

Eu sou feito de descaso,
eu sou ego, egoísta,
me viro tateando pela margem...

Habitando nesse mundo sem sal,
não há revolta,
não há milagre,
nada que me faça sair do escuro.

Pertenço aos meus despistes,
eu sou a própria raça triste,
não sei, nunca ouvi falar em felicidade,
só vivo de ausências,
do alívio do mundo...

E eu nem sinto muito,
não, não sinto,
eu não sinto nada...

Sou feito de nada,
do nada que me alimenta,
um jejum de fanático,
desamor sistemático,
suicídio de baiano,
delírio de morto de fome...

Coisa de quem só se sente gente, quando some,
quando desaparece no final da noite,
caminhando e rezando pela cidade vazia,
amparado pelo desamparo do céu estrelado,
do frio soturno desse canto do Rio
que é sempre mais esverdeado.

domingo, 2 de novembro de 2014

Defronte

Defronte as palmeiras
me embrenho no azul do céu,
me guardo do seu amor,
distraio meu coração...

Eu parto dessa pra uma melhor
enquanto posso,
enquanto ainda tenho o dom.

De corpo e alma
eu me viro entre todos os seus desvarios,
e com o pouco de calma que ainda tenho,
em nome do pai, eu sigo,
e não afundo os meus navios de paz.

Porque todo domingo
quando o quarto bate,
o que me resta...

São as lembranças dos seus desarmes,
são seus olhos, os seus passos,
suas palavras me transformando
em só mais um descarte.

Me sinto tão mortal
cultivando você comigo,
às vezes penso que sou só mais um
que caiu no seu papo
enquanto estava a perigo...

Me sinto tão mortal,
vulnerável,
eu me sinto vivo...

De corpo e alma
me esquivando dos seus golpes baixos,
dos seus motivos mesquinhos
pra me ter como mais um inimigo.

Por isso eu me esquivo, evito,
eu não confio nos seus olhos pretos pra não me arrasar,
não sentir vontade de sumir,
se por costume ou qualquer ataque de ciúmes
você me mandar partir.

Por isso é que é de fronte pras palmeiras
que eu me acho quando preciso,
me defino naquela paz,
no intenso infinito azul do céu,
na ausência indefinível do seu amor possessivo,
na calma absoluta em que eu interno
o meu coração enquanto longe de você...

Enquanto ainda posso,
só enquanto ainda sei viver sem te ver.

sábado, 1 de novembro de 2014

Alimenta-me

Alimenta-me dos teus olhos,
faz como quem vive só de arte,
como quem consome cultura
e ouve Wagner na maior altura...

Alimenta-me do poder
que sua presença me inspira,
do amor que dá em mim em penca
quando você me aparece
nessas tardes cinzentas.

Alimenta-me,
vem dar susto
no meu coração tristinho...

Vem dar graça
nesse mundo tão pequenininho
que eu guardei
inteiro pra você dentro de mim.

Alimenta-me,
dá lugar especial
a mim dentro de ti...

Que é pra isso
que eu vivo aqui,
que espero aqui,
qualquer sinal pra ir ser feliz.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Tardes longas

Falando de amor
eu me lembro bem de tudo,
dos seus olhos de lince,
os lírios, passos leves e sonetos...

Lembro de tardes longas,
nós dois derretendo no calor do mundo,
do cheiro do incenso de lavanda,
o tapete, o fim de tarde laranja,
a brisa, a maresia na varanda...

Te lembro bem jogada no sofá
com qualquer camisa e nada mais,
me contando dos problemas
que andava tendo com os seus pais,
das suas dificuldades mais mesquinhas,
de toda tristeza que via de cima,
na felicidade dessa nossa vidinha...

Você dizia que meus olhos eram azuis,
só porque todos diziam que eram verdes,
você falava que eram como os do chico,
que eu enganava a todos, mas não a você...

Você vivia com os olhos no céu,
e eu achava muito bom,
porque no céu nunca tem ninguém...

Roubei essa fala de uma outra menina,
você não sabe,
e se agora eu não tivesse escrito,
também nunca saberia.

Nossos predinhos finalmente foram ao chão,
parei lá um dia e pedi um pedaço de azulejo,
me disseram que não,
tudo o que sobrou
iria pra uma loja de peças de demolição...

Cheguei em casa e fingi que estava tudo bem,
de noite chorei, chorei de soluçar,
me amargou um bocado a vida
ver caindo aquele lugar.

Você sabe que eu sou de me importar,
vivi um luto sombrio,
fiquei tempos sem passar por lá,
mas agora tudo bem...
eu já nem te tenho mais.

Há um tempo
não me imaginaria vivendo sem você,
hoje até imagino,
mas não vivo...

Só quando falo de amor,
aí eu me lembro de tudo,
das suas sardas, seus livros,
a sala imensa e vazia, as cortinas,
o teclado, as cadeiras curtidas do terraço...

Lembro de tardes longas
que nunca acabavam,
quentes, tardes quentes,
de dezembro eu acho.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O piano

Coloquei-me finalmente defronte a um piano,
velho, desafinado, arranhado,
mas incrivelmente elegante,
lindo piano...

Até que me deparei
com uma enorme falta de talento,
senti-me absolutamente desconfortável,
não natural de um jeito que jamais me imaginei ali,
eu queria ser um só naquele momento,
queria estar, ser do piano,
fazer parte, tocar fechando os olhos...

E supliquei dentro de mim: Ó Deus imenso e misericordioso,
porque não me fizestes louco? Louco daqueles de comer sabão,
louco que ouvisse Bach, tocando cai cai balão.

Ó Deus imenso e misericordioso,
perdoai meus lamentos fúteis,
relevai os tantos descalabros da mente...

É que eu queria ter dom,
queria ser som,
ter bons ouvidos de afinar,
ter voz no tom pra poder cantar,
queria ser noite,
ser dela e de mais ninguém...

Só pra topar por aí com os tipos mais cheios de vida,
com gente que tivesse muita coisa pra falar,
com mundos solares nas retinas
e um brilho incontrolável na alma.

Gente da noite, com luz própria,
gente que quando encosta da choque,
que clareia os espaços mais turvos,
gente que não gosta de gente,
mas que reconhece gente que se deve gostar...

Pai, Deus pai,
perdoai meus chamados em vão,
perdoai os desejos que tenho
dessa boêmia,
desses tempos que não são meus.

Relevai, pai,
relevai essa co-autoria que dou a tristeza,
por toda minha vida,
por toda a existência...

Perdoai, porque sei que não deveria ser assim,
bem sei o quanto o senhor me fez pra ser feliz.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Fuga

De repente o mundo é mundo
e não há mais tempo
pra reger minhas estátuas...

O sol me deu um susto,
o escuro todo desapareceu,
e não há mais aquela encantadora
aura de sombras, a ausência de luz.

De repente já era hora de sumir,
hora de estar em qualquer lugar
muito longe dali...

De se negar a vida e deitar,
deixar seguir o tempo.

Já tem gente demais por aí,
eu desocupo o espaço tempo,
me encontro mesmo é no descaso,
no desencontro...

E é por isso que me viro sempre só,
eu não me sinto de ninguém,
porque é sem que eu sou mais eu,
é assim que me escondo do sol,
bem de leve, sem deixar que ele dê falta de mim...

É sozinho que me viro em lírios
pra viver de lua,
viver de rua,
do barulho do silêncio...

Fuga.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Carvana

Malandro morre sábado
depois da sexta feira
e antes do domingo
da ressaca domingueira

Malandro vai com Deus
vai velhinho sorridente
vai deixando amor de gente
que vai chorar saudade sempre...

Ah malandro,
cê deixou um manual?

Onde é que fica o passaporte
pra esse passo descompromissado sem igual.

Diz de que jeito a vida vai
quando a gente quer que fique,
diz como faz, malandro,
diz como vai,
se vai satisfeito pra esse descanso.

Ah malandro,
não se tira mesmo muita esperança da morte,
mas é forte essa morte,
como é forte...

No mais vai tudo muito bem,
vá sim, pode ir...

Vai malandro,
segue e diz adeus a terra
em saudação de carnaval,
vai que não há mal,
mal nenhum nisso.

sábado, 18 de outubro de 2014

Sem título

Largado no mundo
eu só vivo nos meus espaços,
dos passos esparsos,
poemas esparsos eu tiro,
eu miro uma vida bonita,
futuro de gente querida,
chorando só de felicidade...

Eu viro meus olhos
caminhando pelo jardim,
rezando, tatuando partes da vida
nesse corpo roto
que cada vez mais
me deixa injuriado...

Eu sigo perdido,
sonhando acordado,
com jeito de quem teve na vida
alguma tristeza incurável...

Eu ando desnorteado
cultivando uma rouquidão domingueira,
guardando na alma
um pouquinho de compreensão
pra minha falta de amor costumeira...

Desacreditado de todo caminho
tomado dos pés a cabeça
por uns sentimentos mesquinhos,
ainda assim eu sigo,
largado no mundo, virado nos olhos,
perdido, sonhando acordado,
eu ando sim, continuo andando desnorteado...

A espera desse futuro ameaçador
que parece me vem a galope,
da felicidade indecente que eu busco,
essa felicidade de tratante,
de quem nunca moveu uma palha por nada...

Uma felicidade sem título,
inqualificável, desimportante,
a felicidade de quem ainda que só;
consegue ser feliz,
pra infelicidade dos que só querem ser e não são;
indignos, deste mal não sofrerão.

Eu sigo sim,
sigo sem lado nenhum,
sigo turrante, pisando forte,
porque as costas quentes
são tudo o que tenho...

E os olhos que brilham
são meus e mais nada...

E a alma,
a alma também
e mais nada...

Nada.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Nada nunca poderá

Nunca faz muito tempo
sem que eu veja o sol nascer,
não reside em mim
essa desnecessidade...

Eu preciso mesmo é de sentir
isso e muito mais
bem de perto...

Às vezes eu me acho,
de súbito, me encontro
muito mais alma do que corpo,
vivendo na onda do brejo da cruz,
mas me alimentando de sombras
muito mais do que de luz.

Todo dia eu acordo pra não viver,
levanto no susto das palpitações,
dos sonhos mais estranhos,
onde ainda encontro
algo, alguém que me satisfaça...

Mas no mundo,
nesse que é real,
não há nada,
nada que me tire o ar
ou que deixe os olhos rasos d'água...

Nada nunca,
nada poderá...

Tirar de mim
todo sentimento que havia
quando me via
dentro dos seus olhos verde-azúis.

Todo sentimento pelo qual vivi,
todo sentimento que existiu
em qualquer dos momentos
em que dividimos sombra e luz,
canto de sol,
vento sul, vista pro mar...

Nada nunca,
nada poderá...

E todo dia eu acordo pra não viver
porque nunca faz muito tempo
que eu não tenha pensado em você.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Schmidt

Nesses tempos eu já não me aflijo de ser melancolia,
de ser e estar entregue
a qualquer tristeza da vida,
as tristezas tolas todas,
tristezas que nem são minhas...

Como a do perdido pobre contador de histórias,
do alto de sua sabedoria,
vociferando versos íntimos
sem abaixar o tom com o raiar do dia.

A muito me sinto
cada vez menos envergonhado do mundo,
cada vez menos me importo
de no fim tornar-me Schmidt,
ao invés de Drummond de Andrade.

Vivo mesmo numa outra pegada,
ando morto, ausente de tudo,
ando muito, muito mesmo...
ando pra saber quando sumo,
quando os olhos retraem
e os músculos finalmente relaxam...
quando o transe intenso se desfaz,
quando desisto de tudo e o mundo de mim.

Dormindo 12, 13, 14 das 24 horas do dia,
somente tomando nota da vida,
botando em linhas o desgosto,
tentando justificar essa falta de querência,
essa desnecessidade de tudo...

Enquanto se torna cada vez mais difícil
esconder-se da luz dos olhos,
do desejo sobre humano de estar presente,
de continuidade, de sangue do meu sangue,
de simplicidades, família,
de tudo que alguém um dia pode querer.

Ah, é impressionante como tudo pode parecer tão claro
enquanto o transe não se desfaz,
enquanto a voz do contador de histórias não some
pra se misturar no barulho da manhã, desaparecer,
junto das soluções para lhe dar
com todas as quimeras de antes de anoitecer...

É como quando a vergonha do mundo
aparece de surpresa,
e me toma meia vida de uma vez,
e eu ando, corro, eu sigo, firme...

Assisto o amanhecer de pé,
mesmo sabendo de tudo que a matinada traz,
mesmo sabendo que ando pra casa sangrando minhas verdades,
sendo levado pelas canelas,
açoitado pelas mentiras do mundo,
tomado pouco a pouco pela sombra dessa parte,
por todas as convenções covardes
que nos transformam nos homens conformados que vemos por aí,
por todos os lados...

Homens que não sentem
mas que vivem despossuídos do sangue dos anjos,
desinteressados dos sonhos das crianças,
da ternura dos poetas,
descontinuados do amor
e da compreensão das mulheres.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Amor barrense

No avesso das serras,
das pedras,
labirinto...

Não te sinto perto.

Nos lados mais distantes,
nós opostos...

Não está certo.

Só pra te ver
eu atravessaria um deserto
ou dois...
eu diria até um mundo inteiro.

Mas a Barra é sempre assim tão longe,
tão, tão distante!

Beirando o mar,
agora são quase quatro e trinta,
e quatro e quarenta e quatro
é o nosso momento...

Eu juro que chego antes,
eu juro mesmo que vou,
talvez esteja mentindo,
talvez esteja só fingindo amor...

Chove uma barbaridade,
São Conrado está debaixo d'água,
talvez seja verdade,
talvez eu ainda esteja em casa...

Porque pra te ver
eu atravessaria o Nilo a nado,
eu compraria um jetski
ou dois...

Mas a Barra é sempre tão distante,
tão, tão distante...

Que eu não vou...

Ah, eu não vou!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Seu vazio

Ainda é cedo,
agora são quatro e um pouco além de nós.

Mas não tem nós,
tem sim um ser sozinho,
só um ser sozinho, só,
tão só...

Tão só e tão somente um
que nada sente além do próprio vazio,
da necessidade que sente
de ser qualquer coisa diferente
do que é essa sua existência
de ser só e tão somente um.

Do que perdeu, lamenta,
vive e repete pra si as interrogações,
anestesias de um ser só... pra si...
pra se guardar.

Ora, aonde você se meteu amor,
onde se meteu o que foi o nosso amor,
aquilo que nos tornou capazes
de não sermos mais tão sós,
tão sós... e tão somente
pertencentes de nós mesmos.

Já não somos mais tão jovens,
não somos mais tão egoístas,
já nos perdemos por outros lados,
vivemos tanta coisa,
sabemos de longe entender um engano.

Mas ainda é cedo amor,
cedo pra você ir embora,
pra me jogar no canto
da prateleira dos desencontros.

Ah, um dia desses te vi de longe
num bar vazio pela manhã em copacabana,
e esse foi o motivo perfeito
pra chorar por mais umas semanas...

Bem como quando você sumiu
e só deu notícias chegando em barcelona,
nem me lembro o que foi que eu fiz,
entrei num transe até você voltar;
talvez me tire uns anos de vida
aquele tempo fora do ar.

E até hoje me pego brigando com postes na avenida atlântica,
ouvido sermões da minha própria sombra,
vivendo com medo do som dos meus passos,
jogado no chão do chuveiro de casa...
soluçando verdades confusas, chorando por vício,
vomitando minha alma, sendo um imenso vazio...

Mas ainda assim
um vazio menos só
do que o meu velho eu vazio.

Um vazio melhor,
trôpego, estilhaçado e sofrido,
que apesar de castigado,
me torna assim resignado,
nesse eu-lírico bem apessoado...

É um vazio sim,
mas é um que tem
qualquer coisa de celeste,
de divino...

Um vazio intenso
que me aparece a galope,
acima do bem e do mal...

Um vazio saturnal
todo cheio de você.

sábado, 27 de setembro de 2014

Dor e sonhos

Vivo com medo desse céu azul,
meço meu tempo
em palmeiras por hora,
descendo o jardim de madrugada,
me convencendo
de que você não entende nada...

Quando amanhece
eu inteiro escureço,
eu continuo triste,
eu continuo o espelho do mundo.

E já nem espero
que você
ou qualquer outra me entenda...

Hoje eu somente penso
que não há nada pra mudar
e que não entendo nada também.

Comigo mesmo
cantarolo meditação,
mania antiga
que eu não perdi por distração...

Vou deslizando por sobre os lugares,
redescobrindo paixão pelos astros,
contando estrelas,
me encontrando
nesse infinito negro espaço.

Vivo me embalando na escuridão,
trocando dias e dias
por uma noite qualquer.

Eu continuo o mesmo,
menina!

O mesmo triste perdedor,
o mesmo cara estranho
tomado por queixumes,
rodeado de costumes...

De dor
e sonhos de futuro bom...

De dor e sonhos.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Muito fácil

No verão do rio
o lugar mais frio
é o meu coração...

Vivo acampado
nessa falta de amor,
vivo mesmo apartado da vida
pelo seu estranho jeito...

Desamor.

Fervo na cidade,
engano minha tristeza,
nego tudo até que tudo seja verdade,
nego tudo até que você esteja...

De volta na cidade.

Rio de janeiro,
prisão de caos e amor.

Céu azul,
zona sul,
e um mar que não acaba mais,
mas... não se entende nada aqui.

Não, não te nego amor,
o amor
que sempre tive pra lhe dar.

E se me faço de maluco,
não, eu não me faço de difícil.

Porque sou fácil,
muito fácil...

Pra você...

Sou fácil,
muito fácil...

Só pra você.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Azuis esverdeados

Ela anda por aí
pisando com o salto nos corações,
destruindo sonhos e verdades,
desconstruindo felicidades...

Ela ganha o mundo com os olhos,
deturpa os sentimentos,
sem saber do mal que faz ou que fez,
segue inabalável, inteirinha por aí,
com o corpinho hermético
sem pensar muito pra onde ir...

Figura no cartão postal
todo dia de viver,
pra marcar presença,
bater ponto no amanhecer,
fugindo do que sobrou da noite,
do que sobrou e não se quer ver...

Segue à francesa pelas areias
beirando a água gelada do inverno,
com a vista nas vistas,
o barulho das pistas,
e um céu azul de tirar o chão...

Azul de dar susto,
de fazer tudo girar,
azul de poucas nuvens,
só pros anjos poderem descansar...

Ela anda por aí,
num passo incauto, sem perdão,
sapateando firme
em amor eterno ou em paixão...

Porque o mundo é dela
já nos olhos,
nos azuis esverdeados
que Deus a deu pra vir pra cá.

domingo, 14 de setembro de 2014

Desmemoriado

Há algo errado comigo
eu me esqueci de você,
não pode mesmo ser normal
mais um domingo sem te ver.

Faz tempo desde que você voltou
e as novidades eu nem quis saber,
talvez te ligue quando der saudade,
mas de verdade eu acho que
alguma coisa mudou aqui...

Será o vento desse fim de tarde
que me pegou pelos braços, perdido?

Será essa perturbação das manhãs
quando eu chego em casa sozinho?

Já não entendo muitas coisas,
tudo me passa tão despercebido,
e eu vivo de pernas pro ar
nesse culto absurdo ao meu eu distraído.

Parece que vivo tão longe,
vejo tudo assim de cima, sonhador,
não sei mais quando estou acordado
ou quando estou só desligado da dor.

Será esse meio dia tão perto
que me agarra pelas canelas?

Será o efeito colateral de um sintético
esse meu novo eu amnésico?

Ando mesmo em outro mundo,
em outro quando, um plano qualquer,
onde não sei de nada
e vivo sem porque algum...

Ando mesmo desmemoriado,
ando desalinhado,
desatado a um choro repentino e incomum.

Será essa falta de cuidado
que me pôs tão longe de você?

Será o futuro chegando
todo mundo olhando
e eu ainda sem ver...

Já não entendo muitas coisas
parece que vivo tão longe...
será esse meio dia tão perto
ou só o efeito colateral de um sintético?

Eu ando mesmo em outro mundo,
ando desmemoriado...
será essa falta de cuidado
que me põe tão longe de você?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Profanador

De certo risonho
profanador de corações,
desavergonhado colecionador
de deslizes, distrações.

Caminhante leve de passos sortidos,
seccionando,
marcando com os olhos todos os desvios.

Destemido, pra sempre menino,
descomunalmente provido
de talento, dom divino,
pras inutilezas, sutilezas,
as delícias do caminho...

Inimaginável,
despretensioso protagonista de lugar nenhum,
muy afortunado, gaiato, atirado,
sorriso rasgado, coringa,
inadvertidamente levado
pelos improvisos dessa vida.

Narciso ferido no eco
de suas repetidas conjecturações,
incompreendido, perdido em seu próprio ser,
rendido bem quando havia de se reerguer.

Profanador de corações,
por prazer, facilidade,
por verdades que só Deus entenderia.

Profanador de corações,
descrente do amor
pela dor que traz consigo.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Blue note

Bem sinto que ela vai me trocar
e nem parece que demora,
já perdeu toda vergonha
e já não finge quase nada.

Ela vai arrumar alguém
com um nome mais charmoso e composto,
alguém que se ajeite melhor ao seu gosto,
com um sobrenome forte, latino,
e a barba bem feita como eu nunca tive.

Vai arrumar alguém mais feliz,
que vai querer o mundo como eu nunca quis,
que goste de cinema só pra variar,
que não ame Carvana mais do que Godard
e prefira Woody Allen a Humphrey Bogart.

Vai arrumar alguém que lhe ame
bem menos do que certamente eu amei,
que não vai a ver ao piano
e se derreter como só eu sei.

Alguém que não conhece Take five,
que nunca ouviu falar em Blue note,
que não a ama mais com Bill Evans,
Coltrane, Getz, Davis,
Bird e Chet Baker...

Bem sinto que ela vai me trocar
e nem parece que demora,
já perdeu toda vergonha
já não finge quase nada...

Ela vai arrumar alguém
que vai mentir melhor do que eu,
e vai voltar só pra me dizer
que eu nunca fui o tal.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Samba do amor estranho

Ele demora muito,
ela não aguenta mais.

Ele fala de amor,
ela de futebol.

Ela gosta do Zico
flamenguista de família,
ele é botafoguense,
só viu Túlio Maravilha.

Ela toda saidinha,
loira da noite, puro ecstasy
ele sombra e água de coco,
qualquer canto, Waikiki...

E eles passam juntos
todo dia de viver
provando que o amor
só se dá pra quem se deu.

Ele jura amor a toda hora,
ela vive pra escutar.

Ele é feito de dúvidas,
ela só escolhe sem pensar.

Ela pensa em ter família
mas não conta pra ninguém,
ele louco por criança
pensa em ter filhos também.

Ela só chora no escuro,
desabafa no espelho,
ele chora por besteira
e fala sozinho o tempo inteiro.

Por isso passam juntos
todo dia de viver,
completando-se em cada espaço
não acredita quem não vê...

São metades da laranja
almas que não se separam mais,
filhos do acaso,
do destino, dos sinais...
de que a vida é muito boa, sim,
e se doa pra quem quer ser,
escravo da alegria,
chegado do alvorecer...

Ele escutou esse samba
e guardou pra decorar,
ela desligou o rádio
não quis ouvir pra não grudar.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Decolou

Ela decolou no Tom Jobim,
pra mim, um desgosto profundo,
tristeza sem fim...

Porque foi na noite em que ela se foi no Tom Jobim,
que o meu samba caiu abatido,
enlutado com a certeza do tempo ruim.

E o meu pranto rolou
quando vi aqueles verdes rasos d'água,
deixando o azul do mar da zona sul,
e o meu amor pra trás
pra ganhar o mundo.

Ah, quanto sofrimento em rebelião,
mas não se mate, não,
que amanhã é domingo
e segunda ninguém sabe o que será,
bem dizia Drummond.

Ela se mandou daqui,
não se despediu, sei lá,
não me disse nada mesmo,
não queria que eu soubesse,
teve medo.

Mas quando ela se foi,
me deixou escrita essa canção,
deixou cinzelada na dor
que tomou o meu coração.

Ela decolou no Tom Jobim,
e pra mim, acho que acabou ali,
mas não sei ser fim,
só não sei...

E fim.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dá-se

Menina fina
fina flor de cima
coisa mais bonita
que a vida pôde me dar.

Menina linda
cê é um poema
que senhor meu Deus
deixou pra eu musicar.

Quis te botar na roda com essas notas
nessas quatro linhas de refrão e cor,
eu quis pra ver você sorrindo a pampa
com os olhos serenos cheios de amor.

E dá-se o sol todo para você,
e o vento das paineiras remexendo a mata,
e dá-se o sol todo pra você,
que anda assim tão leve, sempre desgarrada...

E dá-se o sol todo para você,
que vive com ciúmes das noites com a lua,
e dá-se o sol todo pra você,
que vive lá de longe morrendo de amor.

Menina fina
fina flor da vida
coisa mais bonita
que já vi cantar.

Menina linda
tirada morena
que senhor meu Deus
fez só pra eu me encantar.

Eu fiz pra você um verso,
fiz uma curta canção,
só não escrevi todo um romance
porque o teu amor tomou meu coração.

E não há aqui nenhum ressentimento,
é tudo um só momento
que me acende a alma,
feito naquela noite que te vi,
noite que me perdi
no fundo dos teus olhos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Amor de muito sol

Ela se joga em mim
feito a lua no corcovado,
se derrete inteira,
ela é toda feita de vontades...

Ela vive pro amor,
pro mundo louco que tem na cabeça,
desaparece, me esquece,
depois volta falando besteiras.

E todo dia quente
quando jogado na sua cama,
eu me inspiro, tranquilo,
nuveando o quarto,
sentindo o vaguear da maresia...

Beijando seu pescoço,
às vezes me pego pensando
que poderia estar morto,
desembarcado por engano
no paraíso, num canto de paz.

Ela se joga em mim
feito o mar no arpoador,
não se rende, se agita,
me domina, me cerca de desejos
e delícias.

Ela adora sumir
feito a areia da joatinga,
e me inspira o sofrimento
que eu preciso pra ser feliz.

Ela é segunda feira,
feriado, é meu mês de férias,
ela é dia bom, dia que voa,
é santo quando bate,
amor de muito sol
e daquela chuvinha à toa.

Ela se derrete,
se joga, some,
me esquece...

E todo dia quente,
quando me apronta dessas,
eu sofro, surto,
surdo, mudo,
eu fujo do mundo...

Porque é tristeza demais,
tristeza boa pra ter no escuro.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Lugares

O vento desse fim de tarde
passou me cobrando amor,
disse que tá com saudade
de quando nós íamos ao arpoador.

As amendoeiras do jardim de alah
sacudiram só pra me contar
que outro dia você passou por ali
e não foi pra me encontrar.

A garça da lagoa
entre um helicóptero e outro
me disse que torcia muito
pra que a gente fosse feliz...

Até o redentor
num dia de indumentária clássica,
no seu branco acinzentado,
no seu azul mais que divino,
me disse cheio de verdade
que nosso amor já está escrito.

E acredito mesmo que esteja,
só que é escrito na cidade,
onipresente, flutuante por toda parte,
nos horizontes, nos bares que fecham tarde,
nos postos de gasolina,
no ciúme à toa de qualquer menina...

Nós dois estamos esculpidos nos nossos cantos,
nas ruas escuras do alto,
no tumulto eminente das quintas do baixo,
no oito, no dez, nas areias,
nas pedras portuguesas.

Nós somos
se não mais por nós,
apaixonados incorrigíveis
pelo amor que espalhamos aqui.

domingo, 17 de agosto de 2014

Os livros

Comprei um livro que se despedaça,
ele vai deixando rastros por onde abro,
às vezes deixa cair frases inteiras,
outras descarta só alguns advérbios de modo,
troca nas páginas mesóclises,
confunde toda numeração dos capítulos,
do fim vai ao começo,
do começo vê-se o fim...

O livro se despedaça como quem sangra,
mas quem sangra por sangria,
sangra pra curar a febre de conhecimento.

O livro sangra e suja tudo de dúvidas,
mostra outros mil caminhos,
alternativas ao destino fatídico
de ser enfim plano e silencioso,
de ser breve como um epitáfio
num canto úmido e com cheiro de mofo.

Comprei um livro que se despedaça,
mal nenhum me faz,
coisa alguma me nega...

O livro é fiel companheiro,
já travou sabe-se lá quantas guerras,
veterano, sábio e calado como um monge,
sagaz e misterioso feito Gatsby.

O livro é alma em construção,
corta e devora corações,
fermenta os sentimentos,
e aniquila aquela fria sensação
de que não há mais jeito pros males da vida.

Até que certa vez o livro desapareceu,
tomei-me de um sentimento terrível,
desespero, medo, achei que tudo estava perdido,
pensei que havia se despedaçado de vez.

Mas aí os meses foram passando
e eu percebi que tinha o livro em mim,
os anos foram passando e eu ainda o tinha...

Até que um dia
quando não lembrava mais do livro,
surpreendentemente
o encontrei em minha mesa,
junto a outros livros
que pensei que haviam se despedaçado de vez,
todos desaparecidos...

Abri um a um, investiguei com sede de Sherlock,
me peguei incrédulo com aquela situação,
não pensei que veria algo assim na vida,
mas os livros, os livros eram outros,
completamente diferentes,
em sua essência talvez fossem os mesmos,
afinal reconheci todos sem muito esforço,
mas eram outros, estavam outros, pareciam outros...

Me sentia de frente a um grande mistério,
parecia um problema, a prova de um crime,
não me descia essa história...

Eu transitava nas mesóclises que há muito sabia que lá estavam,
implicava com os mesmos advérbios de modo,
notava as gafes da tradução,
tantas semelhanças, e eu via e revia incansável todas elas,
como um filme da sessão da tarde
daqueles que a gente decora algumas partes...

Capa, contracapa, prefácio,
tudo tão perfeito, intocado,
não pareciam os livros que haviam despedaçado.

Então, como fosse milagre,
por estalo, insistência, por lapso,
por qualquer coisa que acorda a gente de repente,
no susto, eu percebi!

Os livros eram outros sim,
eles eram outros
porque eu era outro.

E se eu era outro,
devia ser por causa dos livros,
desses e dos outros
que eu havia perdido recentemente também.

Assim eu aprendi a entender os livros
simplesmente porque os livros estão sempre vivos,
eles se despedaçam
e se reconstroem em nós.

sábado, 16 de agosto de 2014

Amor longe

Insuportável distância,
noturna e inquieta companhia,
fria feito um morto,
cadáver, corpo roto.

Se dor pior tivesse nome
teria nome de amor longe.

E mesmo que houvesse outra aqui agora,
eu só teria olhos
pros seus olhos,
eu só teria corpo
pra toda dor que você me causa.

Porque é como acontece,
é quando bate forte,
quando o vento borda as nuvens,
quando a lua se esconde.

É assim,
sem olhos nos olhos,
é como fica...

É como eu sinto essa minha falta de virtude,
é como quando não te sinto,
quando imagino um contato por telepatia,
quando sofro porque não digo,
porque não juro mais o amor que te tenho,
porque não vivo.

É assim,
sem olhos nos olhos,
é como fica.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A luz

Meio dia,
meio sem vida.

Encho os pulmões
e sigo, há muito azul demais,
e pouco de mim aqui...

Gostaria talvez de,
não sei do que gostaria.

O dia voa, não almoço,
escrevo um troço que não me desce,
ando topando qualquer negócio,
acho que é stress...

Faço noite às três da tarde,
é impressionante como arde essa lua,
como me consome
esse sem fim que é o céu.

Me recuso,
luto por qualquer sombra,
eu nunca entendi esses
que clamam por lugar ao sol.

Vivo de olhos pregados,
de óculos filmados,
repelindo simpatia,
invisível pelas vias...

Faço noite a qualquer hora,
vivo madrugadas,
me intriga o escuro todo,
há muito não sei de nada.

Gostaria de,
ainda não sei do que gostaria...

Talvez que não fosse mais,
não fosse dia,
já que eu não sou dia,
eu gostaria que...

Apagassem a luz.

domingo, 10 de agosto de 2014

Mundo fictício

Me sirva dos velhos vícios
de uma outra idade,
eu não quero dormir,
faz frio na cidade
o Rio parece distante daqui...

É que nessa terra do nunca
quando o tempo parece sério
assim, ranzinza,
quando o cristo some dos olhos
e o céu é todo tão cinza...

Tudo parece irreal,
você na cama dormindo,
tudo parece assim,
tão sem sentido...

Que eu me sinto como num sonho
daqueles que a gente sabe que sonha,
e faz o que quiser,
faz da vida o que bem entende...

Mas fique a vontade,
me acorde com suas verdades
me mostre a realidade, amor,
só mais um pouco...

Me afogue em você,
que nessa overdose eu me viro,
só anote os meus delírios
que quando eu voltar
a gente escreve um livro...

Porque tudo parece irreal,
um mundo fictício,
tudo parece mais lento...
eu não me sinto mais na faixa errada,
é como se tivessem acertado o tempo.

Chove e faz frio,
seus olhos fechados nublam o rio,
seu corpo no quarto sombrio,
um arrepio, outro quarto, um fino
e não há vazio que não se encha de amor.

É que nessa terra do nunca
quando tudo parece perdido,
você sabe, eu me viro...

Eu me lembro
que não preciso crescer,
eu me lembro
que sempre vou ter você.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Olhos vivos

Noite suja de mentiras,
o fog baixo arrasta uma canção,
down em mim, jazz,
another blue song...

No escuro de cada canto
desse canto esquisito do mundo,
há um canto em cada um,
contando das tristezas,
contando dos amores...

E no meu canto
quando muito sinto,
sinto falta,
prendo riso de nervoso,
me retiro da existência,
me recolho...

Sumo de vergonha,
deixo de querer,
pois dos quereres
eu nada tiro de feliz e verdadeiro.

Não vivo sonhos que não sejam meus,
e se não há em mim querer algum,
não quero, não hei de me perder
pelos anseios de qualquer um.

Ajo como quem nega,
enxergam-me cruelmente
como quem apenas sonega.

E alheio a isso tudo,
imune, apartado de toda agonia,
eu sigo em direção ao encantamento...

E vivo uma felicidade extasiante,
abrasamento de sultão,
caminho feito rei da zona azul,
marajá de todo lado,
censor do penar,
aristocrata do prazer,
imperador dos postos,
presidente das estacas divinas,
cacique das areias,
sensei dos paralelos, das raízes,
das ladeiras,
soberano do jardim, dos altos,
das salas de tábua corrida,
capitão de qualquer coisa,
maestrão do alvorecer, da matinada,
sheikh de todas as vistas, das sacadas,
regente do corpo de baile das estátuas...

O mandachuva absoluto
de absolutamente nada,
os olhos mais vivos já vistos,
os olhos mais vivos
dentre os olhos vivos conhecidos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Blues que rouba almas

Eu escrevi numa noite de verão,
um blues iluminado,
a fucking blues'n'roll...

Eu fiz pra ela
pros sonhos que ela me roubou,
eu fiz pra que ela
ainda me tivesse algum amor...

E não desfilasse tão intocável por aí,
com os olhos cansados de sempre,
com jeito de quem nem se liga em mim
e aquele andar dissimulado,
o ar de quem não está nem aí...

Eu fiz pra ela
deixar de ser insensível assim,
eu fiz pra que ela
não declara-se que isso é o fim.

E não vivesse o resto da vida
sem lembrar que eu existi,
sem saber da missa a metade,
o terço, um pouquinho do que eu sofri.

Por isso eu fiz pra ela,
pro tanto de vida que ela me tomou,
eu fiz pra que ela
soubesse que um dia lhe tive esse amor.

Eu fiz pra ela
foi numa noite de verão,
um blues,
um blues que rouba almas...

Mas eu queria o coração.

domingo, 27 de julho de 2014

Morro de amores

Amor, faça o que quiser,
me esqueça por aí,
mas separe a minha dose por favor.

Religiosamente eu venho tomar,
me servir de todo mal que há,
vou me banhar das suas tristezas
e levar tudo comigo...
vou nutrir e suster,
ebulir, filtrar,
passar a limpo...

Vou usar de toda alquimia,
pra destilar, tirar pureza,
e sujar os cadernos de tinta.

Porque eu vivo louco de amores por você,
eu vivo louco de amores por você...

Doente, viciado,
andando certo ou todo errado,
eu penso, eu gosto muito,
eu falo pra todo mundo,
que eu vivo por aí só pra te ver,
eu vivo por aí só pra te ver.

Renovando os acordos sociais,
nos finais de semana,
frequentando a fina flor
ou toda a baixa sociedade...
nos finais, nos fins de linha da cidade.

Vou careta ou muito doido,
arrastando os meus problemas,
fazendo sol ou chuva,
numa boa ou a duras penas,
eu vou...

Porque eu morro de amores por você,
eu morro de amores por você.

É proibido pisar na grama

É proibido pisar na grama,
proibido dizer te amo
a alguém que não se ama...

É proibido ser quem é,
proibido ser gente grande e não tomar café,
é proibido proibir em vão,
santa proibição.

É proibido ter muito a dizer,
ninguém mais escuta ninguém por aqui,
é aconselhavel guardar, segurar o fôlego,
estancar as boas e más palavras,
ninguém diz muito mesmo,
todo mundo anda tão vago, tão raso.

Não conheço muitas pessoas que valham a pena,
mas ando com pena de muitas pessoas,
e penso que não é assim nenhuma indelicadeza,
não há mais muita gente aqui,
existem sim algumas coisas, uns vultos,
sombras acorrentadas na rotina,
uns seres esquisitos devastando os cantos todos,
grunhindo, sangrando, debatendo-se sem ao menos sentir
o terror do próprio enclaustro,
desconfio deles,
desconfio que não sentem mesmo muitas coisas,
e talvez nem sintam muito por isso...

Já que aqui hoje há acima de tudo
o desejo pelo que se pode atingir,
o que se pode atingir ao alcance dos braços esticados,
muito pouco se sabe além dos limites corporais,
muito pouco se enxerga além do que se vê,
pouco, muito pouco se vive fora dos acordos sociais.

Afinal, é proibido pisar na grama,
é proibido viver de verdade,
porque a mentira dos outros pode se magoar,
é muito difícil desapegar.

Ando desiludido com essa parte do mundo,
toda essa que ainda respira,
me parece tudo tão desnecessário,
tão saturado esse lance de existir
que acredito que é bastante nobre resistir por aqui,
conseguir chegar ao fim...

Daqui a pouco vão proibir também,
já não se pode nem pisar na grama...

Vai ver é por isso que calçam,
aterram e asfaltam todos os caminhos.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Bem cantada

Eu queria te prender,
te prender de vez em mim,
prender pra ser feliz,
pra ser fácil ser feliz...

Eu queria jogar no relógio uns dez,
quem sabe vinte anos...

Só pra saber se vale a pena deixar passar,
se vale mesmo ficar pra ver,
saber se nesse tanto de tempo
dá tempo de você voltar só pra dizer...
que também ama.

Tá bom, na falta eu digo só,
eu amo, adoro, eu quero,
eu faço, eu fico,
permaneço seu.

Porque às vezes, eu vejo sim,
no terror do escuro do mundo,
na sombra dos dias de sol,
no sol dos dias de chuva...

Vejo você
indo pra não voltar,
num movimento desesperador...

Vejo você
linda sem amar,
num desamparo,
um dissabor...

E quando esse medo me consome,
seja em vida, em sonho,
em ilusão de onda...

Eu choro pra te ver,
eu corro pra você...

Corro pra qualquer coisa que tenha sobrado,
pra qualquer canto dessa cidade enluarada,
pra qualquer lugar que te tenha
e me renda ainda alguma coisa bem cantada.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A noite

Quando a noite me pega pelo braço
sempre vem pra tirar você do escuro
do fundo do meu coração...

E eu já sei que é pra fazer sofrer,
me fazer delirar,
me deixar febril e louco,
encenando pela milionésima vez
aquele velho penar...

Aquele que quando bate é fato,
é no espelho do quarto
que eu me encontro,
com os olhos encharcados
e inteiramente tomado
pela tristeza de não te ver aqui,
nem perto daqui.

É nessas noites que você me fisga,
é quando você me faz sentir a dor da sua falta,
dor que tira o ar do peito, que aperta,
uma dor cega que eu não explico direito,
que eu não sei se outro amor vai dar jeito.

Porque quando a gente ama
o dia também termina,
o espelho também reflete solidão,
a febre queima,
e a loucura que é uma inquilina sorridente,
também se chega, se joga no sofá,
se faz de dona do lar,
zomba, debocha do amor vagabundo
que arrumei só pra parar de me lamentar.

E eu já não sei mais de nada,
talvez eu acredite mesmo
que quando a gente ama de verdade tem receita,
o amor tem que ser grande.

Tem que ser amor pra se perder de vista,
amor megalomaníaco
de fazer ruir fortunas,
amor de cruzar oceanos,
causar guerras, crises internacionais...

Amor de jogar no papel
pra vender livros,
poesias, fazer filmes.

Amor que inspira,
que tira do chão, que vira tudo de ponta cabeça,
amor que só de olhar basta,
de ver pôr do sol sem falar nada,
amor onde o silêncio revela apenas
a doçura e a cumplicidade da pessoa amada.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Imagem do dia!


Ensaio

A vida é ensaio,
é morte em construção,
tumulto constante,
é tempo e amor,
ternura e separação.

A vida é ensaio,
é morte em construção,
de pé lutamos firme, negamos até o fim,
acostumamo-nos as rugas, as dores,
aos impropérios todos das articulações,
as veias saltadas, magreza,
a coluna já cansada, maltratada...

A dor de tantos invernos nos olhos,
de todos os amores sofridos,
da menina que perdeu-se da sua vida
aos vinte e poucos anos...

Os filhos que você queria ter,
a família, o sorriso,
os olhos puxados verdinhos,
tudo que foi diferente,
tudo que não foi com ela...

E quantas elas perderam-se de você,
quantas delas hoje poderiam ser.

A vida é ensaio, tristeza,
na morte se estréia,
na escuridão,
na luz, na descoberta.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Speak Low

Todo amor que houver nessa vida
pra você e pro seu amor,
vá sem medo,
esqueça as feridas,
porque o nosso já acabou...

E não tem tristeza,
nem solução,
só suma e se entregue,
de coração.

Toda dor é remédio pro mundo,
pra enfrentar os mistérios mais insolutos,
e os seus olhos, suas vontades,
nos lugares mais escuros... vulgares.

Todo amor que houver nessa vida
pra você e pro seu novo amor,
vá embora, feche as cortinas,
querida... speak low.

E não tem tristeza,
nem solução,
só suma e se entregue,
de coração.

Que eu vou me afogar
de gim e madrugadas,
que eu vou me mandar,
vou lamber as calçadas...

E não tem tristeza,
nem solução,
é só o meu eu de verdade
em erupção...

Eu vou me afogar
de solidão,
eu vou me estragar,
pra voltar a sonhar então...

Todo amor que houver nessa vida
pra você e pro seu amor,
vá sem medo,
não fique aflita,
querida... speak low.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Copa das copas

Desmascarados no baile,
atados pelo ensurdecedor
silêncio da massa,
alvejados pelo impiedoso
barulho da vaia...

Perdidos no arrastar dos ponteiros,
naqueles dois tempos
de quarenta e cinco silêncios,
jogai por nós,
que a nós só vós restais...

E agora...
agora não mais.

Sete tentos a um,
choque de realidade,
de volta a nossa pior metade,
nossa velha falta de vontade...

Viremos as latas da cidade,
pra rua mestiços, fazer o nome,
vamos coroar novos Barbosas,
chutar as pedras do caminho,
destilar o abatimento,
afogar essa consternação
pra encher de melancolia as avenidas
e levar até os subúrbios a ressaca...

Pra rua!
Vão, todos!

Rua da amargura
com travessa da desolação,
de frente ao largo da tristeza,
pra uivar a invalidez do anfitrião.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Tudo que fomos

Não acredito que fico assim ainda,
pensando em como poderia ser,
se fosse...

Eu não entendo,
não compreendo
o que nos faltou de mais doce.

E se agora nada mudar
o que será de nós dois,
o que será se já se foi,
se não será, se nunca foi,
jamais havemos de entender...

O que aconteceu aquele verão,
naquele fim de ano,
todos aqueles momentos felizes...

E o fim de tarde,
aquele sorriso,
um disco chatinho,
seus olhos puxados verdinhos...
a sua mania de me distrair
só pra ouvir de manhã o mala do Jeneci.

E quando eu me fazia o chato
te empurrava Lobão
goela abaixo... eu recitava em francês
Baudelaire e Montaigne,
poemas que nem entendia,
coisas que eu nunca mais diria pra ninguém.

E se agora nada mudar
o que será de nós dois,
o que será se já se foi,
se não será, se nunca foi,
jamais havemos de entender...

O que se passou naquele verão,
naqueles dias claros,
naquelas noites quentes...

Do final
de tudo que fomos
antes de sermos nós.

Do final
de tudo que fomos
antes de finalmente sermos... Nós.

domingo, 29 de junho de 2014

Consigo enxergar

Da minha tranquilidade
eu consigo enxergar a dela,
os nossos cantos combinam,
os nossos sonhos são terra,
são telúricos, são puros,
são a coisa mais bela...

Está tudo nos olhos
desde muito cedo ela já se entregou,
e eu ainda com medo de chuva
porque quando chove me falta esse amor...

Vejo ela no céu,
no mar e no horizonte,
vejo em qualquer cor
como um flash a qualquer instante,
sinto ela em todo sabor,
sinto muita saudade,
vejo ela em toda parte,
e ainda mais de perto no arpoador.

Está tudo nos olhos
desde muito cedo ela se entregou,
e eu vivia com medo de chuva
porque quando chovia me faltava amor...

Há muito soube que sofreria,
que ela partiria com meu coração,
mas foi tudo nos olhos, estava tudo nos olhos,
não se nega o que está nos olhos,
é muito fácil de entender.

E até de lados opostos,
nosso mundo é quase igual,
daqui vejo ela sorrir,
de lá ela me vê sonhar
e tudo segue assim...

Porque da minha tranquilidade
eu consigo enxergar a dela,
os nossos cantos combinam,
os nossos sonhos são terra,
são telúricos, são puros,
são feitos das coisas mais belas.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Insisto

É pela vigésima vez que hoje eu insisto
em dizer-te que não vivo,
é pela tua falta,
pelo traço torto que minha linha da existência
se tornou ante tua ausência.

É que tudo que eu tenho,
tudo que eu tinha,
ficou em você...

O amor que eu guardava
floresceu sob tua égide
e não quis saber de ficar
quando você partiu...

Minha difícil admiração
também se apegou aos teus passos,
e as minhas palavras,
minhas rimas,
meu refrões...

Todos até hoje residem em ti,
nos teus sonhos,
nas tuas marcas,
nos cantinhos,
tuas curvas...

Mas os lamentos,
os lamentos escaparam,
a dor você esqueceu comigo
e não há mesmo o que fazer a respeito disso...

Ela é muito apegada,
cuido bem, fino trato,
alimento, afago,
sinto que sou por ela muito estimado.

E deve ser pela vigésima vez também
que hoje eu insisto
em fazer esse papel de coitado,
não te esqueci,
não te deixei sumir daqui ainda...

Mas é porque você tem culpa,
você levou tudo de mim
e eu já não suporto estar vazio assim.

Preciso te guardar,
pra me guardar,
pra não acabar louco de pedra,
arrastando o coração na terra,
com os olhos doentes, cegos, brancos,
carregando um sofrimento franco,
levitando, vagando por vagar,
seguindo a qualquer preço
nesse eterno e vil penar.

domingo, 22 de junho de 2014

Tristeza aqui é mato

De felicidade eu não entendo
e nem por um momento eu poderia agir melhor,
porque é quando eu digo que te amo,
é quando eu falo que estou pronto pra fazer você feliz
que eu entendo um pouquinho de tudo.

Mas amor,
eu preciso ser sincero
e dizer que apesar de muito esmero,
todo o meu entendimento
é procedente do sofrer...

Amor,
tristeza aqui é mato!
E eu não queria
cortar o seu barato,
mas é que se eu for trabalhar com fatos,
não posso perder o tato,
nem o trato com você...

Então por isso é que eu fiz
desses versos os mais verdadeiros,
pra torná-los meu álibi,
o meu texto certeiro
pra escapar do desamor...

É que de felicidade eu não entendo
e por isso eu vivo sofrendo
com medo de te perder.

É que tristeza aqui é mato
e se você não chega, amor...

Eu acho que eu me mato.

É que tristeza aqui é mato,
e independente do pecado,
se você não chega a tempo...

Eu já teria me mandado.

terça-feira, 17 de junho de 2014

O que eu sou

Não sei se você me entende,
se algum dia vai poder me perdoar,
mas de adianto eu já insisto,
acredito nesse futuro onde você aceita os meus erros.

Benzinho, veja bem que não é por mal,
é só que, eu não sei viver
como você aprendeu com os seus pais.

Eu tenho medo, muito medo,
medo de acabar vazio
como todas essas outras pessoas.

Eu não sei viver sem ter brilho nos olhos,
e honestamente eu já nem sei
se o que faço é certo ou errado,
não sei nem se faço qualquer coisa,
se devo fazer diferente...

Essas cismas,
isso tudo me tira tanto da vida,
tanto, tanto amor...
que benzinho, eu já nem sei,
nem sei do que sou feito...

Se de carne, osso
e sonhos...

De palavras e fugas,
de delírios, de noites
e precoces rugas.

Eu já não sei de nada,
me sinto feito de mentiras...

De juras e promessas,
de muitas, muitas brigas,
e outras lindas inquietas
bem como você...
como você costumava ser.

É que benzinho, eu não sou homem,
já me sinto como um rato...

E se sou qualquer coisa de verdade,
se tem alguma veracidade em mim,
qualquer coisa que eu não nego
além da alma...

É que eu sou medo,
eu sou o próprio,
exposto as vistas,
encarnado...

Eu sou
medo de amar.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Estado de sítio

Sabe quando chove
e você fica ali sozinho,
impossibilitado de qualquer coisa,
prisioneiro da indolência flutuante que a chuva traz,
rendido pelo absoluto silêncio das células,
da morte dos comichões de amor
e de outras vontades quaisquer...

Sabe quando chove
e dá aquela preguiça de gente,
preguiça de viver, de ver os outros,
de pisar fora de casa,
de almoçar, de jantar,
de ver tv, de abrir os olhos
pra quem sabe perceber que amanheceu...

Sabe, eu nunca disse isso antes pra você,
mas esses dias de chuva
são pra mim como os dias em que eu não te vejo,
os dias que você não dá notícias,
dias que você me faz pensar
que sumiu porque não suportaria me ter nas vistas...

Nessas horas eu fico pra morrer,
morrer, mas um morrer sofrido,
morrer que rende,
uma sangria torturante,
um medo desajeitado,
um arrepio, um suor frio
só de pensar que de repente,
que possivelmente,
por qualquer loucura tua,
por qualquer coisa que fiz e nem percebi,
por algum motivo tolo,
quem sabe, você tenha pensado bem e...

Preferiu me deixar,
me deixar aqui onde sempre estive,
largado num canto escuro da minha alma,
da minha existência pedante,
escravo do meu próprio mal estar,
cuspido, devolvido pro sórdido pedaço do mundo
de onde você me tirou,
mastigado, usado,
sugado, doente...

Eu quase não posso acreditar que você faria isso,
mas eu preciso cogitar a possibilidade,
não posso ser pego de surpresa,
seria dor demais, mais que muito,
maior que grande,
muito mesmo, dor demais,
infinita, e além...

Pensar tanto assim é torturante,
são planos pro sofrimento que vem num próximo capítulo,
simulação que dá vivência
só porque a agonia é um sentimento inocente
que dói já na imaginação,
que aperta o peito...

Faz bem fintar de quando em vez,
que é pra doer menos quando for preciso,
quando for declarado estado de sítio.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Não tenho nada

Ela não merecia
nada mais do que um olhar,
e me desmontou,
me desarmou, me entristeceu demais...

Me deixou chorando
vendo o mundo rente ao chão,
me tirou da vida, mudo,
me deixou com a solidão...

Ela não me faz bem,
nunca fez,
nunca me fez bem demais.

Ela não merecia
nada mais do que um olhar.

E eu não poderia fingir nem por um momento,
não seria fácil, não estaria certo,
eu não posso,
eu nunca faria,
eu realmente não entendo,
eu jamais poderia...

Ela não merecia nada
e eu já não tenho nada mais para lhe dar.

domingo, 8 de junho de 2014

Jarrett

Jarrett pela manhã,
e toda aquela efusividade musical,
todo aquele suor das notas,
o ofegar, a displicência na postura,
estilo indefinido, o aplauso,
os olhos fechados, a pausa...

Tudo isso pra mim
foi bom gatilho pra lembrar que toda tristeza,
apesar de também ser beleza,
é no fundo uma vilã...

Jarrett e o som do mundo acordando,
essa efusividade matinal,
essa euforia de tudo voltando a acontecer,
e do fundo do meu coração
te empurrando pra mais perto de mim,
com os seus olhos derramados na cama,
com seu jeito de menina mimada,
de menina pidona... parece mentira,
mas eu só desperto por essas lembranças.

Jarrett pela manhã...
Keith, é,
você não sabe quem é,
nem sonha saber,
mas me lembra você...

O som, tudo meio en passant,
mas com profundidade irretocável,
improvisação de intensidade,
know-how de maestrão.

É, coisa sem pé nem cabeça,
coisa da minha cabeça,
besteira, é,
você sabe como é.

Jarrett e um pouco do resto do mundo,
uma brecha na janela não mais do que isso,
um desgosto profundo, um aperto terrível,
um sabor esquisito de viver,
um medo de solidão, de mundo sem você,
seja resto, meio, pouco, inteiro...
medo de futuro sem você.

Jarrett pela manhã,
escrevi seu nome no ar,
estou indo dormir,
é sempre assim...

Não te pedi perdão,
não te pedi licença,
mas te pus nas minhas orações,
pedi pra Deus o perdão que não te pedi,
me aproveitei da fé pra conseguir dormir,
pra conseguir sumir...

E você deve estar acordando,
sabe como é...
é sempre assim.

Jarrett pela manhã,
e um pouco de reflexão,
não queria abusar de você,
eu queria ser sua metade,
mas não...

Jarrett pela manhã,
Tokyo, Vienna, O trio,
You don't now what love is!

Aquela intimidade,
conhecimento, as mãos no piano,
um dom tão divino,
e toda essa desfaçatez,
esse dentro, fora, dentro, fora...
que abuso, desplante,
o ar, o respirar... o som.

Jarrett pela manhã,
sinto sua falta,
é coisa sem pé nem cabeça,
besteira, mas você sabe como é,
já cansei de te dizer.