terça-feira, 30 de novembro de 2021

Viver e ganhar

Chuto baldes e garrafas,
sou quem eu mais detestava,
me derramo na vida pra esquecer,
eu brigo muito pra sobreviver...

Pelas ruas e calçadas,
pelo Rio ameaças,
sou bem mais do que eu faço valer.

Não me comprometo, é perigo,
eu não sei bem do que eu digo,
só preciso vir te convencer...

Que eu sou o mistério da raça
e vivo um milagre insalubre,
vocês nunca sabem onde procurar,
vocês nunca, nem querendo,
vão me achar.

Viro os dias desastrado,
como um santo desalmado,
se puder causar um estrago
eu sei que vou me divertir.

Nas esquinas mais batidas,
no asfalto com o seu sangue,
nos dias de sol a pino 
que te fazem desmaiar...

Por que eu gosto 
do que não é pro meu bico,
e vocês não sabem, 
como isso é difícil...

Mas é que eu não fui feito 
pra viver e ganhar,
eu não fui feito 
pra viver e ganhar.

Imagem do dia!


 

Amargo y docemente

 Muy amargurada alma
sob os desavisados passantes,
choca quem não é de lua
absolve os filhos da rua...

Muito doce, docemente,
mente muito pra viver,
sabe tudo, sabe muito,
doce, mente pra esquecer.

Muy amargurada alma
sob os lírios da noite mãe,
choca os desavisados passantes,
como antes, como antes.

Muy amargo y docemente,
como os trilhos que não seguimos,
e o que vimos, como antes,
diz demais da vida à toa...

E que a amargurada alma
precisa seguir docemente,
como antes, como antes.

Deuses vis

Quando a manhã se espreme pelas frestas
penso em coisas que me alentam
penso em coisas impossíveis
penso pra querer viver...

Mas e se a gente não pudesse
e se nada mais doesse
e se a gente não vingasse
e se o dia não nascesse 

Como seriam as tardes
as manhãs de sol e chuva
os amores sem sentido
os teus olhos cor de fruta 

Remexendo o céu de maio
adulando o azul anil
detestando feriados
rezando pra deuses vis 

Mas se o dia não viesse,
e a barra não quebrasse
seria tudo verdade
seria tudo um deslize
de algum dos deuses vis.

Imagem do dia!

Baden Powell por Pedro de Moraes
 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Apaguem a luz

Meio dia,
meio sem vida.

Encho os pulmões
e sigo, há muito azul demais,
e pouco de mim aqui.

Gostaria talvez de...
não sei do que gostaria.

O dia voa, não almoço,
escrevo um troço que não me desce,
ando topando qualquer negócio,
acho que é stress.

Faço noite às três da tarde,
é impressionante como arde essa lua,
como me consome 
esse sem fim que é o céu.

Me recuso,
luto por qualquer sombra,
eu nunca entendi esses 
que clamam por lugar ao sol.

Vivo de olhos pregados,
de óculos filmados,
repelindo simpatia,
impassível pelas vias...

Faço noite a qualquer hora,
vivo madrugadas,
me intriga o escuro todo,
e como o mundo, bobo, burro velho,
morre de medo
e vive com as luzes acesas.

Gostaria de...
ainda não sei do que gostaria.

Talvez que não fosse dia,
não fosse mais,
já que eu não sou dia,
eu gostaria que...

Apagassem a luz.

Imagem do dia!


 

O pulso

Infelizmente ou felizmente 
o pulso ainda pulsa.

Junto a toda minha repulsa,
a vergonha misantropa,
dessa miserabilia estranha forma de viver.

O mundo não me representa,
dos rios aos mares, os lugares mais lindos,
nada mais requenta o que um dia foi amor.

Infelizmente ou felizmente
o pulso ainda pulsa...
E sobrevive valente 
aos impulsos frequentes de me cortar.

Os olhos dos outros,
as bocas e os dentes,

Os filhos, os pais,
os burros ou inteligentes,

As palavras, as mágoas,
o choro, o riso

Preciso sumir, eu preciso, preciso.

Detesto todos vocês,
eu não amo ninguém,
e quando eu me for não digam que amei.

Detesto esse mundo, a vida, a morte
a sorte, a falta, o frio ou o calor.

E dói tanto saber
que se eu pudesse agora me mandar,
ela não mais impediria,
não pediria pra eu ficar.

Mas por falta de coragem... 
é tão difícil me jogar.

Infelizmente...

O pulso ainda pulsa, 
pulsa, pulsa.

Lisboa

Porque foram embora os descobridores?
Se Lisboa é tão boa quanto Lis,
Lis que é luz de minha vida
e também tão boa quanto Lisboa.

Porque foram embora tantos deles?
Se todas as coisas que vejo no mar
eu vejo nos olhos de Lis.

O que será que faltaria, 
o que foram buscar no mar de fora dos olhos dela?

Se aqui há o Tejo latejante,
mais até que meu amor por Lis,
que por sua vez, 
continua tão boa quanto Lisboa.

Lis, Lis, luz de minha vida,
que tem mente sã e corpo são,
que vive deslizando pelos ares quentes
daquele distante povoado de São Sebastião.

Lis, Lis, luz de minha vida,
perene aura equidistante que me equilibra
o amor a vida, Lis, 
Luz. 

Luz que tão boa quanto Lisboa, 
me fez resistir vivo ao fascínio pelo Porto,
que se não fosse por Lis,
de lá só sairia morto.

Lis, luz... 
que tem elegante ganho de causa 
em cada brilho,
em cada palavra.

Lis, Lisboa, 
que magoa os desavisados,
magoa os ingênuos, 
e os desajeitados.

Esses, esses homens tolos
que sem saber quem e quão boa é Lis,
não poderiam querer ter e amar 
qualquer outra.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Imagem do dia!


 

Quase nunca

Precisado das palavras
peço amor a quem me guia,
a paixão pelas esquinas
o desprezo pelos dias.

Sinto forte a dor dos anos
e das coisas só da vida,
sinto forte faltas doces,
o amor das bem nascidas.

Me preocupo com rasuras,
o pouco conhecimento,
com lisura de vontades,
amar já não é alento.

Sou um escuro como outros,
um herói muito improvável,
desertor que não espera,
um omisso indo pra guerra.

Dono de vida sem graça 
e muito pouca coisa pra dizer,
homem de mundo qualquer,
de quase nunca ter querer.

Dono de uns bons não queros,
trivial, simplista e manso,
docemente me contento
quando o amor vira algum canto.


Metades

Consigo ver-te de longe
teus lindos verdes me assombram,
me habitam como poesia,
se escondem e se jogam de mim.

Me aprumo pro mundo impessoal,
me entrego a opacidade e a rasura,
à morte do meu infinito,
o preço irreal da fartura...

São coisas da vida ele disse,
duas partes da mesma laranja,
são lados da mesma canção,
desculpas que a gente arranja.

Consigo viver sem amor,
o meu bamboleio permite,
metade é carta na manga,
metade é morte terrível.

São coisas da vida é o que eu digo,
percalços de um longo caminho,
os verdes que já foram cura
todo dia me matam um pouquinho.

Imagem do dia!

Nelson Rodrigues, em sua casa, RJ, 1975
 

Descuido

Só vivo por milagre,
e meu olhar vive ancorado
no futuro inevitável 
que só a dor pode me dar.

Sábios nos seus fraques,
letrados com seus livros,
o que será que o tempo quer aqui
enganando esses prodígios...

Nós sabemos mais,
entendemos que é só vida,
que são rugas e que o vento
é um sonho que nos toca.

Nós sabemos mais
que conceitos estudáveis,
entendemos que é a vida
e que a morte é um afago.

Vivo por milagre,
por milagres e deslizes,
por descuido divinal,
pelos astros, por acinte.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Imagem do dia!


 

O poeta debaixo das escadas

Bem debaixo das escadas
sob as solas dos sapatos dos passantes,
o menino destilava seus versos,
derramava suas lágrimas...

Sol a sol,
como se sentença fosse,
o poeta debaixo das escadas
se escondia.

Fugia dos arroubos violentos da juventude,
da maçante tristeza
que adornava a sua alma...

O poeta se escondia
pra guardar-se do mundo,
pra sagrar-se
grande homem no futuro.

E com os olhos salgados de mar,
do mar tempestuoso de sua alma,
certo dia o pequeno poeta
só admirou de longe os degraus...

Não se escondeu debaixo das escadas,
arrastou sua imensa tristeza pelo caminho
e seguiu, seguiu chorando a vida,
cresceu versando morte,
dando nome ao desassossego
que é sentir-se sempre muito afeito ao pesar...

Que é ser feito de palavras a escrever,
de poesia pra deixar
antes de Deus deixar-te ir.

A maioria do tempo eu dormi

Esse ano eu não fiz nada importante;
eu nem quis.

A maioria do tempo eu dormi,
mesmo sem sono, só pra não viver,
eu não tenho saco,
menor vontade de pagar pra ver.

Andei muito depressivo,
andei sozinho,
andei vivendo...

Chutando pedra,
jogando com a sorte,
andando a esmo pela madrugada.

Ah, eu descobri que meu eu solar é uma farsa,
só vivo a noite,
me incomodo profundamente com a matinada.

Esse ano eu deixei tudo pra depois,
exatamente como fiz nos outros vinte e dois.

Não virei piloto de helicóptero,
não fiz um amigo sóbrio,
eu não dei fim em velhos hábitos,
não obtive nenhum êxito.

Eu amei gente,
sobretudo loiras de olhos claros
e umas morenas bem apanhadas.

Amei de novo quem já tinha amado
e chorei amores derramados
por sobre muitos destilados.

Joguei a vida no carnaval,
conheci o outro mundo a contra gosto,
perdi um verão e ganhei outro,
testei meu santo o tempo todo.

Esse ano eu não fiz nada importante;
eu não quis.

A maioria do tempo eu dormi.

Imagem do dia!


 

Acreditar

Quanto tempo,
e por quantas linhas,
venho me repetindo
pra falar de ninguém...

É que eu junto todas elas,
as coragens e covardias,
as delícias do caminho,
e sozinho... sigo.

Me repito pra Deus,
me repito até o fim,
eu preciso demais,
preciso acreditar em mim.

Por qualquer tempo,
por um milagre,
eu preciso demais,
preciso acreditar em mim.

E quando falam que amam muito,
quando dizem que são felizes,
quando sabem que tudo é lindo,
quando eu ouço o que ela me diz...

Eu preciso muito,
eu quero demais,
eu não posso ser assim,
eu queria ser igual...

E dizer que amo muito,
e saber que sou feliz,
bem dizendo o mundo todo,
acreditando no que ela me diz.

sábado, 31 de julho de 2021

Embaixador

Desfaço tudo,
desfaçatez,
omisso e escuro
meu dom da vez

Eu sou a trégua
a guerra finda,
como as crianças
que fazem figa

Desato os nós
das suas gravatas,
eu uso e visto
mil fantasias

Que eu sou novembro,
eu sou dezembro,
eu sou o furor...

Eu vivo muito 
e morro fácil 
sou o próprio embaixador...

Das dores todas
e dos sorrisos,
das loucas e loucos,
dos maltrapilhos.

Eu vivo fácil,
e morro lindo,
sou como um pássaro,
um bem bonito...

Sou como um homem feito
com olhar assassino,
com olhar de menino
por debaixo dos ray-bans.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Imagem do dia!

Frank Sinatra com os seus amigos, Dean Martin e Sammy Davis Jr
nos bastidores do Carnegie Hall

 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Filtro de cor

Dias frescos sem respiro,
quartas feiras sem amor,
dias claros quase mortos,
noites lindas sem sabor.

A cidade não responde,
meus sinais não fazem falta,
quando deito sinto o peso,
se me mexo a dor me mata.

São saudades incontáveis,
coisas de que nem lembro mais,
são as dores que esqueço,
coisas que só a cor me traz.

O azul dos olhos tristes,
o verde do amor sereno,
o verão das cores todas,
filtro das verdades ternas.

Pragas

Nos lugares sujos,
nas mesas menos fartas,
nos loucos e nas marcas 
de corte e solidão.

Nas maiores sacadas,
nos andares disputados,
e nos céus de feriados
que ninguém pode pagar...

Existem ratos e baratas,
pragas a te ver dormir,
espíritos maldosos
e pessoas que não sabem pra onde ir...

Procurando você e os seus vícios,
ansiando por você e seus amigos,
nessas lindas noites 
e nos dias quentes de verão,
onde há mal no mar a espreita
esperando a domingueira rouquidão.

Existem ratos e baratas
pragas a te ver dormir,
espíritos maldosos
e pessoas que nunca sabem pra onde ir...

Esperando você e os seus ritos mais cansados,
ansiando por te ver sendo descaso,
nessas linhas tortas do seu Deus,
e nas verdades quase mortas 
que sufocam no seu peito de ateu...

Existem ratos e baratas
pragas a te ver dormir,
espíritos maldosos 
e pessoas que não querem nunca ir.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Profecia

Sinto falta do pedantismo incontrolável do meu eu lírico jovem,
de me sentir bom demais pra ser verdade,
de me entregar a solidão, 
de achar que vivo um ápice.

Hoje eu me perco em palavras simples,
eu não encaixo um verso firme,
quase não faço uma só poesia,
eu não sabia como doeria.

E como narciso completo, eu me admiro,
contemplo a obra passada e por vezes me derreto,
quanta sombra, quanto horror,
como é sôfrego o amor...

E quando não sofre, quando é pleno,
não é nada, 
eu não sei de quem era,
não era verdade.

Ah, como eu sinto falta,
da aura urgentíssima de um contratempo,
do confronto, da imprevisibilidade,
da forte incompreensão 
que me esmurrava o plexo juvenil.

Hoje creio que fui tomado, derrotado enfim
pela profecia que mais temia,
posto em descanso pelas palavras de Leminski
ao definir a poesia etária...

Ao explica-la, ao criar patologia
e cunhar no meu peito a dúvida,
o medo que à partir dali pairava em mim
e que agora me tem nos braços.

Mas não posso, não quero ter de confirmar,
eu insisto, peço aos espíritos,
creio eu já ter sido instrumento um dia,
eu deveria, isso me daria motivos pra viver,
viver de criar beleza,
por vezes belezas que nem vi... vivi.

Mas não posso, não quero ter esse descanso,
eu preciso, peço aos espíritos,
ao senhor das esferas, peço a elas,
aos dias quentes de sol,
as noites frias de chuva,
peço ao cristo, ao diabo, as tijucas.

Ah, como eu sinto falta
de ser qualquer coisa incontrolável,
de ser descaso, 
da força jupiteriana das articulações,
do peito arfante e soluçado,
da capa muito negra de jovem triste e desalmado.

Admiração

 Admiro as almas velhas,
os poetas,
os homens de cabelos brancos,
e calças ligeiramente gastas...

De olhos tristes,
semblante calmo,
admiro a serenidade em cada palavra,
em cada verso exato ou falho.

Nas simplórias histórias dos dias,
nas banheiras,
nas tardes vazias,
nas meninas,
nas fotos de família.

Admiro as almas velhas,
essa gente tão sofrida,
que compreendendo cedo demais a vida,
passa a fingir viver sem entender
como quem nem quis antes de tudo...

Saber de nada.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Imagem do dia!

Baden Powell, em pé à esquerda, Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim, no piano, em casa de Lúcia Proença, no Parque Guinle, durante ensaio da canção "O morro não tem vez"

 

Duas da manhã

Já são duas da manhã 
e eu pensando em você,
em como a gente nunca sabe 
o que vai acontecer...

Toda misticidade, 
a plenitude e o perigo,
se as horas combinam 
sempre faço um pedido.

Eu tenho medo...
medo.

Medo da cidade movediça 
e extasiante,
medo da juventude 
e gente muito pedante.

Medo de ser visto 
sonhando demais,
medo de ser o último 
a entender os sinais.

Eu tenho medo... 
medo.

Dos destratos 
da sociedade desorganizada,
da repovoação dos bares 
e das calçadas,

Das novas gerações 
me tomando lugares,
dos meus amigos todos 
dizendo sim nos altares.

Eu tenho medo... 
medo.

Da inquietude torturante 
do relógio do quarto,
de como não se perdoam 
os mesquinhos e os chatos,

Dos dias que de repente 
vão amanhecendo,
aqueles que viram as noites 
que eu nunca me lembro.

Ainda são duas da manhã 
e eu tenho medo,
medos demais.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Blues de apartamento

Eu ando aceitando o fato
de nunca mais te encontrar...

E é como perder o amor de um Deus,
de uma Deusa que subitamente
esqueceu de me amparar.

Assim desprotegido, entregue,
eu sigo, resisto a esse duro golpe da vida,
dessa ciranda de separação.

Por isso eu tirei esse blues,
um blues cheio de ressentimento.

Eu fiz pra você,
fiz pensando em nós dois,
em tudo que já não existe mais
e me acabei de chorar...

Eu fiz um blues,
um blues de apartamento,
só que é do verbo apartar.

Imagem do dia!


 

Noturno desastrado

Nova noite de um suave desespero,
só os garçons 
sabem do mal que eu me defendo...

Sou eterna figura de ontem, 
e de hoje, mais um fantasma,
assombrando esse desejo imenso de alucinar.

Eu estou nos olhos ternos 
das meninas mais perdidas,
refletido na vontade absurda
de se encontrar...

Noturno desastrado,
desalmado e redentor,
notívago tarado,
afinado e sedutor

Eu sou a corda bamba,
a navalha que a noite é,
eu sou a criatura invisível
que mais tarde vai puxar o seu pé.

Eu gosto de ser aquilo 
que todos desejam e não sabem porquê,
eu gosto de ser pra noite
tudo o que ela me pede pra ser;

Narciso descarado,
destemido e rezador,
místico afortunado,
imoral e fingidor

Eu nunca quero que a lua
deixe o sol nascer.

Imagem do dia!


 

Quereres

É mais que os quereres que eu queria,
bem mais, do que aquilo que eu negava e nem sabia,
eu sou outro todo dia,
eu não vejo poesia, onde eu via.

Em olhos claros 
e tristezas que falavam,
nem nas pedras tão bonitas 
que comigo conversavam

Nas coisas lindas 
que às vezes só passavam por mim,
nas veias verdes 
das palmeiras do jardim.

O Rio é outro também,
e não há cena de cinema que me ajude,
meu Deus, como é que eu pude?

O cenário não me agrada,
nem o tudo e nem o nada,
eu sou fuga em carne e osso,
eu ainda sou sempre metade fundo do poço...

E isso é mais, 
muito mais do que os quereres que eu queria,
bem mais, do que aquilo que eu negava e nem sabia,
eu sou outro todo dia,
e essa é toda poesia que eu queria.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Emular

Sei que posso porque sinto
muita falta de você,
e às vezes desafio 
os dias claros a me ver.

Eu não sou
de ser feliz,
se eu sorri
foi sem querer...

Sei que sinto porque posso
emular Chico Buarque,
poderia se quisesse, 
me entregaria a esse desastre...

Mas eu não sou
de ser feliz,
quando sorri
foi sem querer...

Me afastando a mansidão,
atiçando o mar dos olhos,
distraindo os meus anjos
e amargando meu viver...

Porque eu só sei 
que posso quando eu sinto,
e eu só sinto assim porque me dói,
e quando sinto, vivo,
me vejo lindo...

Eu finjo até 
que sou feliz.

Imagem do dia!


 

Preciso dormir

Quando os dias são iguais
preciso dos seus azuis,
quando as noites não me descem,
preciso que eles me alentem
e me deixem ir...

Eu posso estar cansado,
vivendo do lado errado,
eu quase sempre estou,
eu nunca consigo dormir.

Quando os dias são azuis,
eu preciso estar doente,
e se as noites não me descem,
eu não consigo ver gente.

Devo estar muito cansado,
ou vivendo do jeito errado,
certamente acho que estou,
eu não sei mais dormir...

Sei fugir do mundo claro,
sei sumir de todo mundo,
ainda sou o mesmo fogo de palha,
o mesmo garoto sem futuro...

Mas quando os dias são iguais
eu reparo pequenices,
eu esqueço de punhado alegrias no caminho,
sei fingir tão direitinho
que não quero me matar.

É que eu devo estar cansado,
ou acordei de ovo virado,
eu queria estar doente,
só pra não poder ver gente...

Porque os dias quase sempre,
eles são azuis demais,
e me lembram, eles lembram...
que eu preciso ir dormir.

Imagem do dia!


 

Nunquinha igual

Amor de mar
de se achar
que já não há
ninguém igual

Amor de ser
quase normal
que não se faz
nunquinha igual

Ah, como há de ser
quem vai me negar
se eu quero amor de mar
pôr do sol no pontal

Como deve ser
nada mais real
que a gente viver
novo amor de carnaval

Amor de mar
de se achar
que já não há
ninguém igual

Amor de ser
quase normal
que não se faz
nunquinha igual

quarta-feira, 31 de março de 2021

Imagem do dia!


 

Tempo morto

Vem chegando um tempo morto
e eu estou sofrendo mesmo vivo,
anda difícil me arrancar um sorriso.

Mas não dá pra reclamar,
também sou feito de tristezas.

Sou o próprio fim da estrada,
sou a encruza escura e suja na madrugada.

Eu sou o fim de tarde frio,
sou o dia de vento e chuva no verão do Rio.

Eu sou a bala que uiva na noite 
e leva o sangue pro asfalto.

Sou o açoite doce
da classe média triste que assalta.

Sou o rompante, a euforia, 
a classe que falta na hora que tudo se desfaz.

Não trago boas notícias,
eu não gosto de você.

Sou essa aura negra,
sou sempre morto e triste,
sou o causador de toda dor que o mundo assiste.

Não trago boas notícias,
eu não gosto de ninguém.

Tudo é ponto fraco

As noites são ponto fraco,
e às vezes os dias também,
eu não me desaponto,
eu nunca estou pra ninguém.

Na dúvida eu não me estresso,
preciso só de um amor,
pra tirar disso sofrimento,
pra tirar disso toda dor,
que eu posso até me repetir,
mas não rimo amor com flor.

Tudo é meu ponto fraco,
pra isso eu nunca tive lei,
eu quero guerra e paz
com tudo que eu mais amei.

Desato os nós da garganta,
eu grito pra quem quer ouvir,
e se tiver quem não queira,
eu grito até a voz sumir...

De dentro de mim, sem hora,
falando de alegria e dor,
pedindo pra eu não parar,
não desistir de falar do sabor...

De viver ocupado pra o mundo, 
e esquecer toda notícia,
passar os dias feliz,
viver a vida só de delícias.

Mas isso é meu ponto fraco,
isso e aquilo também,
qualquer coisa que eu faça,
quase sempre sinto que não me faz bem.

Imagem do dia!


 

sábado, 6 de março de 2021

Oração

Hoje, quase como em oração,
eu venho pedir para que ele não se esqueça 
de que eu preciso disso,
por vezes eu preciso demais disso.

Peço hoje, mas vale por muito tempo,
há muito que eu estou insatisfeito,
peço como quem pede um favor,
calmo como quem nem se importa,
mas com o coração cheio
e os olhos foscos de quem em silêncio sufoca.

Peço pra Deus, pros deuses,
pros anjos, pras meninas,
pras cidades, pras paisagens,
as minhas marias.

Eu preciso muito de tudo isso
e preciso que ele não se esqueça,
posso entender que me sinto desalmado,
compreender que vivo como massa desandada,
mas eu peço sem vergonha alguma,
porque eu preciso, eu preciso Deus,
de uma luz, dos meus anjos de volta,
da benção dos meus poetas,
do amor que sentia por elas...

E é como oração mesmo,
o pedido mais profundo,
minha intenção mais sincera,
eu preciso, senhor,
quero tanto.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Pormenores

Toda a aura de desajuste não me choca
eu já gostava do mundo torto
muito antes dessa doença nova.

É que desde sempre 
eu vivi pra ver a rua vazia,
a orla desamparada,
as praias desertas à noite,
os dias vindo pra nada.

Nada, nada disso me atormenta,
eu gosto da solidão das coisas,
gosto da tristeza escorada nos pontos mais lindos,
do amor cego e maltratado batendo em retirada, 
desistindo.

É que desde sempre
eu quis viver pra ver a beleza mais difícil,
qualquer singularidade extasiante,
qualquer pormenor que cause vertigem,
qualquer historinha que o olho brilhe,
os detalhes, as coisinhas.

Por isso não me choca esse mundo vazio
e a cidade dormida,
não me causa estranheza,
não me deixa perdido...

É que eu vivo pra isso,
e por isso até prefiro...

Eu só achei tais belezas,
quando as pessoas sumiam.

Imagem do dia!


 

Nada especial

Eu não sou assim 

o que você bem quer,

não sou assim 

nada de especial...


E trago nos olhos 

verdades tão tristes,

tristes...


Que às vezes duvida 

quem me olha bem fundo,

das belezas de todo o mundo.


Eu não sou assim 

o que você bem imaginou,

não sou assim 

nada de muito especial...


E tenho coisas pra contar 

que ninguém precisa saber,

coisas tão bestas...


Que às vezes duvida 

quem escuta isso tudo,

as besteiras intermináveis 

que eu sei sobre o mundo.

Imagem do dia!

 

Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Caetano Veloso e Chico Buarque de Holanda

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Tudo e nada

Tenho tido pesadelos,
problemas pra reagir ao mal do mundo...

Tenho visto umas coisas
quando fecho os olhos,
não sei bem do que se trata,
é como a luminosidade
de uma lâmpada quente
logo que se apaga.

Tem tempo que prevejo domingos
com exatidão de Nostradamus.

Tem dias que eu vivo
assistindo cenas repetidas o tempo todo,
por todos os lados,
é uma espécie de replay,
um déjà vu descontrolado.

Tenho tempo,
tenho medo,
tenho gente demais do meu lado...

Tenho livros,
uns amigos,
o tornozelo esquerdo mal curado.

Tenho dúzias de tristezas,
todas vivas, educadas,
tenho dessas pra derramar sempre
muito bem as minhas lágrimas.

Tenho falta, sabe?
Sinto saudades irremediáveis,
sofro de ausências,
eu me interno em desnecessidades.

Tenho alma,
tenho corpo,
conteúdo...

Sou 70% água,
tenho nada
e tenho tudo.

Sabe amor?
Tenho muito.

Mas isso não é coisa
que a gente sai falando pra todo mundo.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Imagem do dia!

 

;

Quando meias noites passam 
e eu me lembro de quem fui,
me perco no emaranhado 
que minha própria palavra produz.

São anos, foram anos de descaso e meia luz,
não sou ninguém, 
até hoje eu nunca fui,
continuo sem querer, 
sou do avesso até o fim.

Hoje chorei lendo o meu amor pelo homem só,
lembrei da vida besta que eu achava sofrida,
lembrei do vô e da vó, 
e de como eu fui feliz também,
pensei que eu já quis mais, 
mesmo querendo tão pouco sempre.

Talvez eu tenha me tornado 
um pedaço bom do que outrora abominei,
distraído por tolices tão humanas,
perdendo o bom da vida pra o dia à dia, 
pra palavra boa, pro amor cansado.

Talvez eu tenha me enganado,
e a vida seja mesmo esse emaranhado 
que minha própria palavra produz,
eu sempre acreditei demais em coisas bobas,
eu sempre levei fé 
no lado triste e escuro das coisas todas.

E precisei falar, 
precisei pra lá na frente 
eu mesmo  poder acreditar,
saber que hoje eu já sabia,
que amanhã é outro dia,
e que tudo vai passar

;

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Querer saber

Quando é dezembro eu me despetalo,
tenho o ano todo, mas não me preparo,
eu sofro muito, eu me embaraço,
eu não sei de mais nada quando você chega aqui.

As pedras se desfazem, 
esquinas ganham vida,
as coisas bestas da cidade
viram antigas feridas...

E eu não sei de nada,
eu não sei de nada mais.

Dezembros me enchem o espírito,
vivo cheio de intenção,
eu minto pras crianças,
eu minto pros meus irmãos.

É preciso ser feliz,
e seguir atento e triste,

E é preciso ter cuidado
pra mais tarde não sofrer...

Porque quando é dezembro
eu me despetalo,
eu sei que é fatal, 
mas eu não me preparo...

É meu espetáculo,
o meu e de mais ninguém,
porque eu não sei de nada,
e também... já nem quero saber.

Café de ontem

Hoje eu acordei e tomei o café de ontem,
só pensando em sobreviver,
passar por mais um dia 
terrivelmente normal.

Às coisas acontecem sem que a gente perceba,
e os anos atropelam os sonhos,
são como os dias normais.

Dez anos estampados 
as maiores alegrias,
a vida pra trás,
e que não vai voltar mais.

Hoje eu acordei e tomei o café de ontem,
só pensando em sobreviver,
passar por mais um dia
terrivelmente normal.

Não reconheço a cidade como parte minha,
abandonei as estacas, dos meus postos sagrados,
eu viajei e não voltei;
só que ainda estou aqui.

Quinze anos estampados
das maiores alegrias,
a vida pra trás,
que não vai voltar mais...

Hoje eu acordei e tomei o café de ontem,
resistindo, pra sobreviver,
pensando que não é possível,
simplesmente não amar ninguém.