segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Terra nova

Planto meus pés em terra nova,
abandono os barcos de solidão,
esqueço o mar, jogo flores pro alto,
esperando fazê-las voar.

Ela coisa bonita de se ver,
coisa boa de se encantar,
minha terra de santa cruz,
meu harém, meu amor, meu jabá.

Menina, coisa linda da vida, meu amor,
querida, meus jardins só tem flores pra você,
minha voz só se faz pra te cantar,
coração só ta aqui pra te abrigar,
sou tão seu que nem sei viver sozinho mais.

Planto meus pés em terra nova,
abandono oceanos de solidão,
esqueço as areais do leblon,
jogo a vida pro alto esperando fazê-la sorrir.

Ela é coisa bonita demais de se ver,
melhor companhia pra todo o entardecer,
pra todas as vidas que eu hei de ter,
pras crias todas que vou ensinar a viver...

Menina, coisa linda da vida, meu amor,
querida, meus jardins só tem flores pra você,
minha voz só se faz pra te cantar,
coração só ta aqui pra te abrigar,
sou tão seu que nem sei viver sozinho mais.

Há quem não vá acreditar

Meninas tem suas músicas
dentro do coração,
todas elas tem seus tons,
e há quem viva só pra escutar.

As ruas tem suas cores,
cidades tem também,
o céu às vezes fala,
o mar é uma mulher.

Da vida pouco se leva,
os olhos são quem tem muito pra dizer,
a boca, diz tanto quanto os ombros,
e as almas não mentem por querer.

As meninas tem suas sinfonias escondidas,
e há homens que vivem pra escutar,
há quem desvende os segredos,
há quem prefira não acreditar.

Gnomos existem,
e as fadas também,
as coisas ruins dos livros,
e as histórias com final feliz.

As flores de plástico vivem,
a grama cortada também,
as pérolas dos colares,
as esmeraldas e os rubis.

Meninas tem suas músicas,
e é preciso escutar pra viver melhor,
o mundo não gira sozinho,
são milhões de cavalos calados,
milhões de cavalos calados,
são muitos, são demais pra contar.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Imagem do dia!


Um amanhã

O vento me acordou
como se eu precisasse muito acordar,
foi um vento sul que veio
como uma lestada a assoviar.

Veio me lembrar de você
como se eu precisasse me lembrar,
foi um vento sul que veio,
como uma lestada a assoviar.

E você parece ainda tão distante,
muito, muito mais do que era antes,
e vive tão distante porque quer,
me deixa tão de longe, tão de fora,
age como quem não quer mesmo mais nada de mim.

Agora a chuva na janela faz barulho,
as luzes ainda não se apagaram
e eu escrevo como se não houvesse amanhã...

E não há,
não há...

Porque se o vento não me acordar,
não levanto,
não me lembro,
eu não posso estar tão longe assim...

E se o vento não me acordar,
se a chuva não bater na janela do quarto,
e sem você, sem você,
nunca haverá amanhã pra mim,
não existirá o amanhã pra mim.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Me encontrar

Nas noites da cidade
já não há nenhuma novidade pra mim,
nas praias daqui,
nos poetas, nas juras que fiz.

Há somente um gosto ruim,
um sentimento de perda,
uma morte lenta e ruidosa
que não me deixa dormir.

Há também um sentimento
de que tudo nunca será melhor do que já foi,
e que o tempo vai levar aquilo que importa pra ele,
levar pra guardar bem longe.

Junto a isso, sinto dores tremendas,
dores inexplicáveis, esquecimentos absurdos,
o sentimento súbito e impiedoso
de que não consigo mesmo escrever pra viver.

Ando me imitando, reescrevendo,
tentando me lembrar de quem eu sou,
estou perdido em mim mesmo,
sangrando num canto do meu coração.

Sofrido, de olhos brancos,
já sem lágrimas pra chorar,
estou perdido em algum canto
precisando me encontrar.

Imagem do dia!


So shy

Passarinha dos olhos castanhos,
esfinge, última rainha
dos suspiros desertos dos meus sonhos.

Menina, delícia,
distante, tão distante
das obviedades dos nossos amores...

Salamandra, descoberta,
lisa de carícias,
desinibida,
but so shy, so shy.

Jogada nos caminhos,
com carinho,
ela é tão... indecisa.

Lobo bom,
lobo mau...

Ela é meu anjo,
meu demônio,
paraíso, inferno astral.

Casamento,
separação.

Deusa onipotente,
politeísmo pagão.

Hermética,
metafísica,
linda, linda,
linda e lírica...

Passarinha,
tão menina...

Oásis de tranquilidade e amor,
Cleópatra desavisada,
flertando perigosamente com toda dor.

Passarinha solta, solta,
planadora, harpia,
lisa, lisa, cheia de delícias,
desinibida,
but so shy, so shy...

Oração à minha alma

Minha alma de novo baiano, antes tão leve, hoje pesa,
não leva, não guia pelos caminhos de outros tempos,
essa alma, que hoje me trai, já foi tudo,
minha tão querida alma, antes tão minha, hoje perdida,
ela já não me sustenta, não me ajuda,
não mata a sede e nem a fome de vida.

Ah, minha alma,
meu princípio, meu lado de cá,
norte de todos, minha provação,
porque me traíste?

E de onde assistes
meu recente vagar sem ti pela vida?

Ah, parte minha que anda vivendo outro mundo,
volte, preciso transbordar,
preciso dos olhos brilhantes,
das mãos firmes,
das vontades inexplicáveis.

Não posso viver sem,
não há porque persistir sem gosto, sem tato,
sem o amor e a tristeza do meu lado,
volte, por favor,
em nome do pai, da criação,
por piedade, misericórdia,
volte correndo com uma paixão.

Não fique aí de onde assistes
o meu recente vagar sem ti pela vida.

Esqueça essa necessidade de estar longe,
volte a ser meu espectro pulsante em carne,
meu princípio puro e imaterial,
quero tê-la de volta...
alma, volta!

Imagem do dia!


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Fantasias

Sinto falta dos poetas todos,
do amor que eu tinha em mim,
sinto falta de toda poesia,
ultimamente ando de alma triste.

Padeço numa solidão que não compreendo,
algo me dói até o espectro,
me rói os ossos, me falta,
são todas aquelas lonjuras de novo.

Não sinto nem os meus medos,
vivo em transe com esse nada,
nada me inspira, nada me revive nem me mata,
ando de alma triste, levo uma vida sufocada.

Não me encontro nos olhos das meninas,
nem nas tardes quentes da cidade,
não vivo amores e nem dores,
não me acabo e nem reajo.

Ando fazendo desse limbo minha casa
e vou vivendo esse "não sinto" até que acabe,
não me choco, já não choro,
esqueci minhas fantasias.

domingo, 20 de novembro de 2016

Levando a dor

Perambulo pela casa com fome de tudo,
seguro um café fraco e quente com todo cuidado do mundo,
ponho o meu coração no congelador,
parto pra mais um dia sem saber o que é ter o seu amor.

Levito pela cidade como quem anda anestesiado,
não pelos teus olhos de morfina,
mas agora pela droga da tua ausência.

Tomo um café pequeno
num pé sujo de ipanema,
esqueço o meu coração
remedando com deboche qualquer cena de cinema.

Já não posso mais viver assim,
não posso mais não acordar e dormir
ao seu lado...

Não posso mais não ter você,
não posso dizer que não amo,
dizer que não te amo mais...

Perambulo pela casa, esqueço do mundo,
não parece que o tempo passa, não sinto mais aquela sede de tudo,
ponho meu coração de volta no peito,
pra voltar a viver sabendo que já tive você e o seu amor,
voltar a viver, viver levando essa dor.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Imagem do dia!


Viver longe de ti

Aquele disco que traz o seu nome,
traz consigo a dor de tantos homens,
que eu quase não sinto mais,
eu tenho ciúmes demais.

E aquele pôr do sol que nós vimos,
quase todo domingo, eu vou até lá,
e são tantos casais, tantas de você e de mim,
que eu quase não sinto mais,
eu tenho ciúmes demais.

Mas quando te vejo, menina,
eu sinto tanto,
que padeço em um pranto
que nunca ninguém jamais sofreu.

E aquele disco que traz o seu nome,
é o que me mata a fome que eu sinto de você.

E o nosso pôr do sol,
nosso mirante lá no alto do leblon,
são as coisas que me mantém são,
são as coisas que me salvam,
que me abraçam quando eu sofro dessa solidão,
quando desatina em mim a dor de tanta lonjura,
e da falta de você, desse viver longe de ti.

Ensaios

Redescubro lugares já cantados estando ao seu lado,
reedito meus sorrisos, dou vida aos meus antigos medos,
sou de novo eu mesmo, sem ensaios.

A impressão que tenho é de que vivi a espera disso,
e não sei mesmo se estou pronto pra você,
se um dia estarei,
ou se a espera deve continuar.

Mas a verdade é que há hoje lá fora um mundo colorido,
um Rio todo cheio das vontades que eu tinha perdido,
um Rio onde todos os meus cantos sagrados
voltaram a ter novos encantos para serem cantados ao seu lado.

É, acho que finalmente encontrei,
e agora penso que posso dar por finda a minha busca,
já que tenho nos teus olhos novo mundo, nova vida,
e no teu sorriso, o meu,
tenho todo o amor que nunca usei,
e os estilhaços do meu coração, que juntei,
vou colar pra lhe entregar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Imagem do dia!


O homem só

Não há nada com charme no mundo moderno que possa sobrepor o charme de um homem sozinho,
da solidão do ser humano, da complexidade e da tristeza das escolhas
que levam uma vida a espalhar-se sozinha pelos anos de existência que lhe restam,
não há nada que me convença que um homem só não pode ser feliz,
nem os olhos vazios, nem o sorriso roto de quem não sorri pra ninguém,
de quem esqueceu como é, de quem só lembra da felicidade distante.

Não, não há nada nessa vida moderna que possa me fazer mudar de idéia,
o sofrimento do homem só, é como algo que me preenche,
semeia os campos plenos e vazios de minha alma com os arbustos que tem as mais doces amoras,
e não há nada que possa mudar isso, não,
o homem só, tem a paciência dos anjos, paga suas penitências em vida e nem sente,
o homem só e sua barba por fazer trazem pra perto
a tristeza e a compreensão que só quem sofre por amor também possui,
só quem sofre repetidamente por amor também possui.

Ah, o homem, entidade desesperada por amor e compreensão,
e o sofrimento do homem, do que se trata essa obstinação para com os fins, se são os meios que nos moldam, se são os outros que nos marcam, e nós aos outros, e o mundo a todos,
ah, o homem só, e sua barba grisalha, sua vida em eterno ponto facultativo,
tudo provisório, tudo em flutuante condição,
sempre leve, suspenso pelas horas do dia e da noite, ele, o homem só,
ele que poderia ser em sua juventude de alma o personagem de qualquer romance,
ele que tendo sua nobreza e paz de espírito poderia ser a égide incansável de qualquer mulher,
ele, o homem só, essa criatura tão contraditória e encantadora,
que enquanto homem só, apenas carrega sua tristeza pelos cantos,
por entre os homens felizes e as mulheres que poderiam ser felizes consigo,
que dribla a cidade movediça e seus passantes,
ele, homem só, que sendo ele homem feliz, seria o mais feliz dos homens,
que não sendo homem só, que sendo apenas homem, como os outros homens e suas famílias,
seria o maior dos homens, seria enorme seu coração,
e não esse emaranhado tão pequeno,
esse monte de nós tão justos que nunca se desatariam.

E não, ainda acho que não há nada na vida que explique a beleza do homem sozinho,
a beleza do homem sozinho se comparado aos outros homens vivos,
ele que é esse ser aprisionado em procrastinação domingueira infinita,
que é essa existência que reside numa desmesura de ócio,
de tédio que semeia, rega e colhe,
semeia, rega, e encolhe o coração.

Pecados

Já tem tempo que me encontro num lado mais turvo da vida,
tenho medo das coisas, das belezas todas se esvaírem,
sofro por antecipação um sofrimento que parece que nunca vai existir,
morro de medo do câncer, do câncer nas mãos.

Me encolho diante do pensamento na cegueira, na dos olhos e da mente,
não consigo acreditar no futuro doloroso que me espera,
não, sinto não ter estômago pro calvário que me aguarda,
às vezes o suicídio me parece algo tão piedoso diante das dores todas do mundo.

Mas escondo isso tudo, só me faço verdadeiro diante das letras do alfabeto,
diante do álcool e das drogas, dos padres e das meninas mortas,
dos cães e dos psicólogos.

Já tem tempo que vivo essa vida de natureza morta,
representado e interpretado, mas, sempre faltando com a verdade,
sempre mais forte que a realidade,
sem carregar os medos, tão leve quanto falso,
tão triste que ninguém pode imaginar a verdade.

Cerceado pelos medos absurdos e engraçados, pelas coisas bobas e coisas trágicas,
transbordado pelas vontades do mundo,
largando de lado sua faceta mais rara,
sua parte mais cara...

O prefácio escrito com apinhamento pelos deuses mais bondosos,
largado de lado, deixado pra lá, trocado pelo mundo turvo,
pelo todo incerto que a vida traz, escravizado pela fachada,
liberto pelos pecados.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Imagem do dia!

Pier de Ipanema sendo desmontado

Te esperar

Me pego agoniado pensando em você,
eu sinto tanta falta do teu palpitar,
do quente do teu peito,
do teu jeito meio arfante de falar.

Eu lembro das tuas costas,
tuas covas muito bem dispostas,
as marcas do astro rei em ti...

E estou tão incompleto,
absorto, um ser deserto,
tomado de um hiato astral.

Ainda sou teu prisioneiro,
um homem pelo meio,
partido, intempestivo,
eu vou seguindo muito mal.

Até quando ando de luto?
Eu sempre me pergunto,
aonde é que isso vai parar.

Nunca fui muito duro,
sou frágil e imaturo,
meu mundo sempre foi você...

E agora me pego aqui pensando nisso,
eu sinto tanta falta,
eu vivo pra te ver voltar.

Ando de guarda baixa
esperando os teus segredos,
teus medos e o teu bem estar,
o quente do teu peito,
teu arrependimento,
eu treino sempre o que eu vou falar...

Porque ainda sou teu prisioneiro,
o mesmo homem pelo meio,
partido pela vida, eu só vivo a te esperar.

Meio do nada

Eu minto quando digo que não sinto seu amor nos olhos,
e eu quase sempre faço cara de poucos amigos,
eu quase sempre finjo que não ligo,
e então, eu fico aqui nesse meio do nada,
perdido entre o amor e essa solidão.

E eu minto, minto quando digo que não sofro,
que não sinto falta de estar ao seu lado.
Porque eu quase sempre vivo a vida assim,
estático, vendo o tempo passar,
esperando algo do mundo, alguma coisa que talvez nem chegue,
esperando alguma resposta pras minhas preces mais chorosas.

E então, eu fico aqui, largado nesse meio do nada,
perdido entre todo amor e toda dor que a vida traz.

E eu minto toda vez, minto pra não sentir mais nada,
porque eu quase sempre tive que viver assim pra estar em paz,
eu quase sempre tive essa tristeza pra me consolar,
enquanto esperava do mundo um milagre,
enquanto esperava que algo me arrebata-se.

E então, eu fiquei aqui, desse jeito, no meio de um imenso nada,
perdido entre tudo aquilo que eu não quis mudar
e todas as coisas boas que a vida ainda me traz.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Imagem do dia!


Deixa ficar

Toda minha portugofilosofia me trai durante o dia,
a noite me fascina, a tristeza é que me faz bem,
as horas de chuva me lavam a alma mais que o mar,
o amor dos deuses me purifica,
o penar por todas as esquinas.

Tudo isso é o que me mantém de pé,
talvez não da melhor maneira,
mas é o que me mantém vivo e sorrindo,
porque os dias já não me dizem nada,
eles são cheios demais, tem cores demais, pessoas demais,
e eu não sou afeito a efusividades,
me chegam as saudades, as minhas caras metades,
as infindas lonjuras e todas as vontades.

Eu sou feito de belezas, como são todos os meus irmãos,
somos feitos do toque de um grande Deus,
somos todos deuses pagãos.

Mas isso só me ocorre a noite,
o dia não nos deixa divagar,
somos como prisioneiros de tudo que a vida tem pra dar,
só equanto a noite não cobra nada,
só enquanto ela não chega e nos deixa ficar.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Nada novo

Devolva-me as satisfações que lhe dei,
que eu esqueço você, e toda dor que lhe causei,
faço que tudo não tenha sido nada além de um engano,
eu não penso duas vezes e te abandono.

Devolva-me todas as luas no céu que nós vimos,
e as caetanices todas que eu te ensinei,
as minhas frases feitas
que te faziam sorrir, devolva-me.

Amor, eu sou mesmo esse estranho agora,
um homem qualquer, um erro como foram os outros,
eu sou esse estranho agora,
e o mundo escuro e triste sem você,
de nada me incomoda.

Não tenho nada novo para te contar,
nenhuma tristeza,
o dia amanheceu, estava muito frio aqui,
e eu lembrei de você num arrepio.

Não tenho nada novo para te contar,
nenhuma felicidade,
o dia amanheceu de novo, estava tão frio aqui,
e eu lembrei de você num arrepio.

Imagem do dia!

Wanderbill e Paulo Proença no Campeonato de Surf Skol 1972

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Cardeal

Curto quartas longas,
daquelas que se passa inerte no frio do quarto,
sem horas pra ganhar ou perder,
sem saber se parto ou não,
se te peço mais um beijo ou te deixo ir com a razão.

Porque esse tempo que se perde feliz
não é um tempo perdido...
Então me diz, fica comigo aqui?

Desfrutando do tempo em brasa,
com o ar no dez ou desfilando pela casa,
só sentindo o ópio queimar...

Sem suar, mas sentindo o sal,
porque ás três horas da tarde
o sol arde feito o peito de um cardeal.

Longas são essas nossas manhãs da côrte,
que duram pouco mais de uma eternidade,
e o sono solto, farto, que vem do leito de um vira-lata,
não mata o que já é amor,
e só nos envenena de preguiça e de vida
pra ser vivida na cara dura, sem vergonha alguma.

E é isso que assina embaixo
de todas as minhas composições,
meu bem, nada disso é meu,
são só frutos das horas de paz,
em que eu deixo que falem por mim,
em que eu deixo que a pureza da ausência do mundo fale por nós.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Muito amor demais

O que sobrou de poeta em mim foi o escuro do mundo,
esse escuro onde me fiz, onde ergui meu templo tolo de certezas,
o canto onde abrigo o meu corpo roto pelos dias de sol a pino,
o lado negro do meu canto sul, do meu lugar sagrado,
da minha parte preferida
onde as estacas dos postos marcam o caminho.

O que sobrou de mim, o que sobrou de poesia,
foram as noites mal dormidas,
os dias das minhas meninas,
os cheiros, as horas vazias.

Sobraram estilhaços pela cidade,
estilhaços que se espalham conforme o tempo passa,
mudam de lugar, se multiplicam pelo bem do amor que ainda carrego,
me lembram da vida de verdade,
da vida bem vivida, dos dois lados da canção,
do mundo antes do escuro,
quando o escuro era o poeta,
e o poeta, a única saída.

Hoje o que sobra de mim se não o fracasso,
o fracasso como homem, como arte,
como parte de qualquer coisa,
o fracasso para os outros,
e para os poucos que ainda me restam.

Hoje o que sobra de mim é esse amor,
esse amor repartido com a cidade,
esquecido nas cenas dos filmes que só eu vejo,
que só eu revejo;
sobra de mim esse amor melancólico,
essa coisa de viver apalavrado com o suicídio,
esse não respirar fundo jamais...

Ah, o que sobrou de mim depois dessa guerra,
o que sobrou foi muito pouco,
muito pouco pra que eu me preocupe,
muito pouco pra que eu me aborreça,
mas é demais, é muita coisa mesmo,
é muito amor demais pra que um dia eu me esqueça.

Imagem do dia!

Claude François autor de "Comme d'habitude"

O que fazer

Talvez desse certo um dia,
mas a gente não saberia o que fazer,
nós somos como o mundo,
soterrados de certezas,
nós temos comida na mesa,
mas não sabemos o que fazer.

Talvez desse certo um dia,
e a gente então teria uma outra vida pra viver,
nós somos como o mundo,
vivemos temendo a guerra,
nós somos como o fundo do poço que o amor te leva.

Mas a gente nunca sabe,
nunca entende o que deve fazer,
nós somos intempestivos,
somos filhos do mesmo deus.

Eu não matei ninguém,
não fiz bondades também,
eu não sou o que dizem por aí.

Eu não matei ninguém,
não fiz bondades também,
mas não sou o que dizem por aí.

Porque a gente nunca sabe,
nunca entende o que deve dizer,
talvez desse certo um dia,
mas a gente não saberia o que fazer.

Alma

Alma; princípio espiritual do homem,
vitalidade imaterial,
consciência,
psique,
espectro pulsante em carne.

Alma; tenho.

E encontro nas tristezas alimento para dar-lhe vigor,
encontro nos dias chuvosos,
nas tardes tristes,
nas despedidas,
no desamor.

Alma; causa provável de toda felicidade e toda dor,
caminho só, e preencho seu âmago de absurdos,
de mágica,
conceitos firmes
e abstração.

Alma; lucidez,
graça divina,
caráter, personalidade,
ausência do vazio,
apinhamento absoluto;
tenho.

Alma; dor e sofrimento,
provação, aprendizado,
consciência,
amor de irmão;
quero.

Alma; espectro confrontador,
paranormal, vida,
ânimo da carne,
princípio vital do homem;
tenho.

Imagem do dia!


Detesto

Detesto o jeito dela de tantas maneiras
que eu poderia esquecer que ela existe,
eu deveria ter um pouco menos de orgulho,
ao invés de chorar baixinho,
eu deveria fazer barulho...

Pra ela ouvir tudo que eu tenho pra chorar,
sentir na pele a falta que ela me faz
em todas essas noites de inverno do meu quarto,
essas que eu passo encolhido com o ar condicionado ligado,
pensando nisso tudo, pensando nela,
nas mil respostas que ela não me deu,
nos abraços molhados dos dias de chuva,
nas noites atravessadas das nossas desventuras.

Mas eu detesto o jeito dela de tantas maneiras
que eu poderia até mata-la de uma vez,
eu deveria, eu realmente deveria tentar,
mas ela é tão linda, tão teatral,
que eu não conseguiria...

Mas eu detesto o jeito dela de tantas maneiras,
que eu poderia até mata-la mesmo, de uma só vez,
eu deveria pensar em fazer,
eu realmente deveria tentar dar um tiro certeiro,
mas ela é tão linda quando acorda de manhã,
que eu não poderia, eu não conseguiria viver sem ela.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Como seria

Sinto falta do cheiro de ipanema nas tuas roupas,
falta da calma que dava no meu coração quando você fechava as cortinas,
quando o sol saia e a gente alimentava o mundo da nossa moleza,
da nossa presteza para com a preguiça de viver.

De vez em quando, de boca aguada,
me lembro dos seus jantares,
viajo nas memórias,
ainda permaneço seu.

N'outras horas sinto raiva
e já sem esperança
penso na tua indiferença,
disfiro socos nas paredes.

Vivo de lamentações, mesmo de longe,
só você me salva dos meus marasmos,
só o pensamento em nós me tira da inércia,
me arrasta inteiro dos dias de sol,
o foco na tua volta, a vida do teu lado,
o mar calmo, a vista do teu quarto.

Só você me salva do meu caos,
só você e aquelas noites
contando os postes da barão da torre,
bêbados e apaixonados,
dançando e chorando ao som dos nossos mortos preferidos,
dos nossos bruxos mais queridos,
mentores ilustres da nossa paixão,
donos das epígrafes flutuantes no nosso amor...

Ah, como eu sinto falta do cheiro de ipanema nas tuas roupas,
falta da calma que tinha presente naqueles rituais,
nos simples rituais dos nossos dias,
nossas mil horas vazias,
seus olhos, suas covas, suas marquinhas,
os incensos, os tapetes, você nua na cozinha.

De vez em quando eu preciso disso,
preciso lembrar,
viajar nas memórias,
pensar nas coisas felizes.

Só você me tira desse marasmo,
somente você me dá esses dias de vida,
não fosse assim,
eu nem sei como seria.

Imagem do dia!

Obra de Armando Andrade Tudela

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Por ela

Se ela chegar no bar, eu fico,
se não quiser ficar, eu vou,
se ela sorrir pra mim, eu coro,
se nem olhar um pouquinho assim, me escoro,
e vou, pela cidade errando os passos mais bonitos,
e recitando os meus amores astrais,
vou de pézinhos bem marcados,
vou levitando muito calmo, eu vou...

E se ela chegar aqui, eu fico,
mas se não quiser ficar, me viro,
se ela sorri e de repente diz qualquer coisa,
de bate pronto eu viro um tonto e amo mais,
porque se ela vem aqui,
se vem me amar um pouquinho assim, eu coro,
não é novidade pra ninguém, não é...

Porque se ela vem aqui, eu fico,
e se ainda por cima sorri pra mim, eu coro,
eu coro, e vou...

Vou de pézinhos muito mansos pela cidade,
como se todo dia fosse réveillon,
como se os dias todos não viessem mais,
assim, eu vou,
eu vou, por ela.

Mesmices

Tenho sido um bocado do contra nessa vida,
mas eu vejo que não há mesmo lugar pra ser feliz
sem viver precisando estar sempre coberto de razões.

Que mal faz
se eu prefiro o nú artístico,
se não troco poeta nenhum desse mundo pelo místico,
se eu não mudo de Chet
e permaneço fiel ao Baker,
é que apesar de tantos modismos,
eu não me interesso por muitos Fakers.

Meu Lee preferido
nunca foi o Bruce nem o Jet,
e meu sonho dourado
nunca foi transar com a Giselle.

E que mal tem isso,
do que é que se trata
essa mania de mesmices?

Eu nunca gostei de textos repetidos,
das falas manjadas dos filmes,
de advérbios de modo,
nunca fui fã de excelentíssimos,
não me seduzo com pouco,
eu não me entrego por qualquer tesouro...

E que mal faz
se não entendo muito dos astros,
é que eu prefiro dos signos, os karmas,
sempre gostei de um bom sofrimento.

E que mal faz, né,
se de tudo no mundo eu só quisesse um lugar,
e se o lugar que eu quisesse não tivesse ninguém,
e se, e se...

Que mal tem, né,
que mal haveria se o mundo acabasse?
Eu só sentiria falta dos pianos,
dos longos anos que passei me entorpecendo nas notas dos maestrões,
eu só sentiria falta do futebol às quatro da tarde,
dos locutores do rádio, dos gritos de gol,
eu só sentiria falta dos cafés do leblon,
das meninas na rua, dos dias quentes de lua...

Ah, é que eu nunca gostei das coisas no lugar,
eu fazia diferente, até quando era gente,
eu não era gente como essa gente é,
não tinha estômago, eu me entregava,
se me deixassem falar eu derramava meus poetas pela rua,
eu não mentia, eu dizia que prefiro Schimidt a Vinicius,
que meu grande bruxo sempre foi e sempre será o místico,
que nunca levei jeito pra acadêmico,
e que acho toda contemporaneidade um grande equívoco.

Mas que mal tem né, mal nenhum,
mal nenhum eu acho...

Pra um Onésimo convicto, já penso que vivo bastante,
que tenho o suficiente pra não pensar em me matar.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Imagem do dia!


Caê

Meu peito derrete ao som das palavras mais doces,
e Caê me impressiona
mesmo depois de tanta repetição,
mexe com os agulhões do tempo,
faz parar tudo a minha volta.

São versos pra curar,
coisas que se diz pra quem se ama,
outras que são boas de separar.

E meu peito derrete,
minha carne trêmula se rende,
minha doença se retrai,
e o amor que há em mim abre os olhos.

Vez em quando eu preciso de palavras,
como de alimento,
separo o que gosto e o que desgosto,
às vezes consumo de tudo,
às vezes pareço minguar sem sentir.

Mas Caê, Caê me impressiona mesmo depois de todo esse tempo,
e eu o trago pra mim, trago pra junto dos meus sonhos,
rezo pra que aprenda a amalgamar esses ensinamentos,
transformar em peso vivo na minh'alma,
em fogo de inspiração toda e qualquer palavra,
peço pros deuses da vida, pro senhor das esferas,
adjuro qualquer compreensão, porquê eu preciso,
já não vivo sem, eu preciso das palavras,
umas palavras certas nunca ditas por ninguém.

Os meus anjos

Meus anjos mais velhos pedem pra que eu escreva,
querem que o peso dos meus ombros ceda,
sussurram em meus ouvidos as palavras todas que eu preciso,
eles querem meus olhos vivos, querem meu fogo da vida,
sentem aflitos que eu ando perdendo o brilho.

Meus anjos sabem o que fazer,
se debruçam ao meu lado e me rezam pra eu entender,
que a vida é leve e a alma eterna,
que o mundo pode ser doce,
e as noites muito mais ternas.

São os meus anjos que tiram o peso dos meus ombros,
e eu escrevo em forma de agradecimento,
preciso deles ao meu lado,
não sei enfrentar o mundo sozinho e calado,
ando morrendo a cada passo,
andei tão fraco, tão precisado...

Mas os meus anjos sabem o que fazem,
eles me amam, só eles me salvam,
me arrancam da tristeza, me fazem encarar o sol,
os meus anjos mais compreensivos voltaram,
somente pra me fazer voltar a vida,
somente pra me fazer amar melhor.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Imagem do dia!


Vê se te ajeita

Pra você que anda nesses cantos escuros,
nesses lugares imersos em dúvidas,
essas paradas suspeitas,
menina, vê se te ajeita...

Porque a vida cobra tudo nos trilhos,
ela te rouba o brilho e te devolve um vazio,
ninguém quer ser mais um,
e ninguém pode fazer essas escolhas por você.

Porque a vida quer sempre tudo nos trinks
e ela liga pros meios e também para os fins,
a vida é caixa de pandora,
ela é ódio e adoração,
tua vida é mais que uma passagem,
é uma herança, ecoa no universo,
junto desses versos que eu fiz pra ti.

Eu fiz pra você,
pra você que tem mania de vagar no escuro,
eu fiz e fiz com gosto,
eu cantei a noite inteira pra não esquecer,
porque a vida cobra tudo nos trilhos,
e há em mim o vazio de quem não soube andar,
eu fiz, e fiz sorrindo,
pra não ver o brilho dos teus olhos se apagar.

Fiz pra você que anda agora nesses cantos sombrios,
você que ainda tropeça nas veias verdes da cidade,
pra você que ainda não sabe, mas que morre de saudades,
eu fiz, e fiz sorrindo,
fiz pra não ver o brilho dos teus olhos se esvaindo,
me escapando por entre os dedos,
se mandando por interesses escusos,
desaparecendo com você no escuro,
desaparecendo com você no escuro do mundo.

Choque de realidade

A luminosidade latejante
e tormentuosa do impiedoso astro-rei,
hoje disseca os poros,
cega quando chega nos olhos...

Covardia.

Penso que deveria ser decreto,
domingo é dia triste!

Sim, deveria chegar aos ouvidos de todos,
estar sempre em domínio público,
todo domingo é sujeito a intervenções violentas
para deter qualquer sintoma de alegria.

E veja só, é covardia,
domingo não pode fazer esse azul,
Deus precisa saber disso...

A não ser que seu time ganhe,
que a sogra empacote,
que você acerte os seis números da loteria!

A não ser que o dólar caia,
que a mulher subindo a escada esteja de saia,
que você abandone ipanema e vá viver na marambaia...

Tendo essas e não outras muitas situações em curso,
penso que aceito viver um domingo solar.

De resto, preciso é de chuva,
no Rio é dificil;
mas fog, saca?

É, ressaca mesmo,
preguiça de acordar,
horror de abrir os olhos,
asco de toda vida falante e muito próxima.

Domingo é o dia oficial
de todo sentimento misantropo,
é o dia do alívio,
de sentir a leveza de não ser importante,
de não ser ninguém, ser poeira das estrelas,
a doença do planeta, o lixo da galáxia...
domingo é dia de choque de realidade.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Imagem do dia!

Da esquerda pra direita: Murilo Mendes, Anibal Machado, Jayme Ovalle, Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt

Um dia

Ando perdido de mim mesmo,
tenho sentido um peso nos ombros,
são os pianos que carrego;
e cruzes, eles já são tantos.

Tenho sentido um vazio,
coisa de corpo e de alma,
minha mente não está clara,
os pensamentos voam, me escapam,
e não há nada que eu possa fazer.

N'outros tempos eu me receitaria umas boas horas dos meus poetas,
costumava funcionar, costumava levantar o meu astral,
mas hoje, hoje receito apenas o silêncio,
e recito minhas tristezas em voz alta,
soluço e revezo o choro de criança
com o medo de morrer assim, aqui, sozinho.

Ando realmente perdido, vivo como se apenas contasse os dias,
como se esperasse tudo acabar,
tudo virar pó bem na minha frente,
mas, sigo em frente,
não enfrento, reluto, me interno em sofrimentos,
enterro minhas vontades, eu seco, a fonte seca,
já não sei se duro, se vivo ou se morro,
não sei se duro, mas não me retiro fácil daqui,
só vou, um dia,
num surto, quem sabe, de noite ou de dia,
não sei... mas vou.

Personagens

Já não tiro do papel meus acidentes de verão,
matei meus personagens num dia que chovia,
em boas horas de tédio
onde eu serenamente me consumia.

Matei Maria Fernanda,
e eu a amava tanto,
morreu em minhas mãos,
morreu de inanição.

Era tristeza que ela sentia,
e eu não podia escrever diferente,
os olhos dela em mim não mentiam,
era de tristeza que ela morria,
e eu não podia escrever diferente.

Matei meus personagens mais amados,
soterrei todos eles nas areias do meu mais profundo esquecimento,
eu deixei pra trás, eu não pude continuar,
eu não era bom assim, precisava parar,
eu precisava viver umas coisas mais,
reviver, reviver umas coisas más.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Imagem do dia!


A culpa

Ando pensando em como você destruiu a sua vida,
e em como também poderia ter destruído a minha,
ou eu é que talvez devesse ter te salvado,
já não sei no que pensar, já não sei o que faço.

Eu vejo nos meus sonhos os seus olhos vermelhos de quase 10 anos atrás,
e choro por dentro, ouvindo ele cantar que homem não chora,
já que hoje, só existe mesmo essa nossa intimidade entre estranhos pra viver,
eu não te reconheço mais,
e nem sou aquele que você deixou pra trás.

Vez em quando me lembro das coisas,
como em flashes, há dias em que tudo me aparece de repente,
os móveis, o cinzeiro, a grade da varanda,
as suas amigas chatas, o seu jeito de pidona,
penso em tudo que foi ruim e ainda sinto falta,
penso no homem diferente que eu seria ao seu lado.

E então, ouço de novo aquele disco em que ele diz que homem não chora,
e não chora mesmo, mas eu choro por dentro,
eu penso em como você destruiu a sua vida,
eu lembro dos olhos vermelhos, dos sóis poentes que vimos,
dos dias nascendo, das matinadas que tanto queríamos,
lembro das voltas pra casa, das casas, do alto, da serra, da barra,
lembro dos tetos, dos choros, das brigas, de todas as desgraças também,
e não entendo, eu não consigo aguentar...

Como foi que você fez pra destruir a sua vida?
Eu preciso saber, eu preciso entender,
pra aceitar que a culpa não foi minha.

Imagem do dia!


domingo, 14 de agosto de 2016

Um susto

Um susto, meus livros na estante não significam nada,
minhas poesias, todas essas palavras,
todas as meninas cantadas,
isso tudo não me diz mais nada.

Fui tomado por um vazio tremendo,
uma impossibilidade, uma falta de norte,
um anseio pavoroso,
coisa que nunca tinha me acontecido.

De repente estava destinado
a um papel pequeno no mundo,
e até aí, perfeitamente aceitável,
mas era mais do que isso,
eu parecia destinado ao esquecimento,
a desimportância,
destinado ao apagar das luzes.

Um surto, não sei,
não respondo mais por mim,
a família, os amigos,
todas essas preciosidades,
todos os meus cantos pela cidade,
isso tudo já não me diz mais nada.

Fui tomado por um sentimento terrível,
um tipo de ausência,
uma tristeza profunda,
uma dor nos olhos,
nos ombros...

Como pesa essa existência,
como é forte essa deslealdade que traz o tempo,
como é grande o coração para que caiba tanta dor,
como é difícil ser osso e carne,
como é sofrida essa passagem.

Um susto, sim,
e tudo isso já não me diz mais nada.

domingo, 24 de julho de 2016

Rapinagem

Vivo afeito a rapinagem, com os meus olhos de fingido,
eu me faço e refaço de acordo com os corações,
e elas tanto gostam disso,
que eu me viro em sentimentos,
eu repouso junto aos corpos dos mil medos que enterrei.

E não há nada melhor do que permanecer desse lado,
vendo o mundo girar sem me ver,
sendo um suspiro de muitos desejos,
sendo o que o âmago delas quer ter.

Vivo afeito a rapinagem, tão canalha quanto posso,
eu me viro e me acho nas mesas mais imodestas desta cidade,
eu me faço e refaço entre o amor de todas elas,
eu me espalho quando posso, me deleito em convulsões,
sofro demais, eu vivo faltas celestes, não me livro dessas quimeras,
eu desmaio e descubro novos mundos todo dia...

Sempre antes de amanhecer,
sempre antes da matinada chegar,
sempre antes do sol nascer...
é que eu me escondo melhor no escuro,
vivo melhor, amo melhor,
sempre antes de amanhecer,
sempre antes da matinada chegar,
sempre antes do sol nascer...

Imagem do dia!


Parar de bater

Mesmo no Rio a minha vida
anda cada vez mais São Paulo sem você,
e essa realidade dura,
me puxa pelas canelas,
me consome da cabeça aos pés...

Tô falando de nós dois, não minto,
eu to pensando em você,
enquanto vou sumindo,
apagando por aí,
junto de todo sinal do que um dia fui.

Mas hoje te tenho olhando o sol,
o azul do céu,
te enxergo claramente à noite,
com a lua,
eu falo de você em todos os assuntos,
não escondo, eu quase não finjo mais.

Às vezes as pedras da cidade me lembram da gente,
à toa, as telas de pôr do sol,
o asfalto molhado de qualquer noite,
os reflexos do amanhecer nas janelas,
às luzes dos postes na madrugada,
a falta tremenda que seus olhos me fazem.

Ah, eu tô cansado disso,
to cansado desse cinza todo,
dessa nuvem negra sob minha cabeça,
dessa aura de infelicidade,
dessa conspiração internacional,
desse mal que você me faz assim estando tão longe,
do mal que faço a mim mesmo,
desse amar e morrer constante,
desse caminhar de quem não vive.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Donos do mundo

O mundo me encharca de tudo,
sinto falta da secura,
falta das faltas,
das inevitabilidades,
das complicações,
da desinformação...

Estamos cada vez mais donos do mundo,
muitos donos do mundo, o mesmo, um só;
enquanto esquecemos que somos universos,
somos imensos dentro da nossa pequeneza,
do nosso desassossego,
nosso brilho e nossa pureza.

O mundo me encharca de tudo,
e eu sinto falta da secura, do alheamento,
da tranquilidade de ficar a deriva depois da arrebentação,
de andar sentindo tudo,
e sorrir desavergonhado,
de ser taxado de maluco,
seguir caminho inexplicável.

Nós estamos cada vez mais donos do mundo,
muitos donos do mundo, o mesmo, um só;
e aí esquecemos de nós, das cores,
dos pés descalços na grama ou no asfalto,
do dia lindo que, sim, pode ser segunda feira,
da noite quente de um dezembro há muito tempo,
da lua amarelada, do vento leste,
das constelações nas costas das ex-namoradas,
das meninas ainda amadas, do mais puro gesto,
o abraço amigo, o olhar mais terno,
do amor... nós estamos cada vez mais donos do mundo,
cada vez mais distantes de nós.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Imagem do dia!


Homem morto

Já não bebo mais pra ela,
não sinto que preciso,
não me derramo pelo amor desamado,
estou vivo e meu coração curado.

Eu ando pensando noutras coisas,
e antes só pensava nela,
ando respirando por outras,
me desgarrando,
enchendo meus olhos de outras telas.

Há sempre um pôr do sol mais adiante,
um novo lado pra se conhecer,
um sentimento diferente a espreita em outros corpos,
um jeito novo de se ver.

E eu ando assim,
ainda que de olhos cansados,
ando procurando novos cantos,
novos lados do mundo,
outros ângulos de velhos planos de fundo.

Já não bebo por ninguém,
só por mim, não me derramo por amor nenhum,
sofro quando quero,
me entrego pra romantizar qualquer coisa,
transformar em verdade os meus delírios mais lindos e sinceros.

É, eu ando assim,
meio demente, meio avoado,
mal de saúde, mas muito descansado,
permaneço impassível aos olhares dos outros,
continuo eu mesmo, sobrevivo com meus passos leves,
e minha alma de homem vivo e ao mesmo tempo morto.

A revelia

Hoje o dia amanheceu cinza,
igual aos outros dias da minha vida sem você,
o mar está enorme, a chuva fria e fina,
e a minha saudade aperta cada vez mais.

Passo pelas pessoas na rua e tudo parece irreal,
o Rio visto tão cinza é uma armadilha pro meu astral,
e ipanema é triste sem você,
mil garotas poderiam passar pra eu ver,
que eu não conseguiria ensaiar nenhuma canção,
eu não teria forças pra escrever um verso sequer.

E quem me olha assim, por aí,
logo pensa que é porque alguém morreu,
enquanto quem me conhece,
sabe que quem tá morrendo sou eu.

E eu vivo assim,
a revelia da vontade do meu corpo,
eu vivo, sim,
mas ando distante de tudo que um dia fui.

Passo pálido, semi-morto pelas ruas escuras,
vago procurando qualquer certeza;
é que há tempos eu escondi meu amor pela cidade
pra poder corar quando fosse preciso,
e agora busco tudo pra ter de volta alguma verdade no peito,
pra continuar aqui, esperando você,
aqui, esperando você voltar pra ver.

Imagem do dia!


Sabe demais de mim

Veja bem, olha só,
eu não posso deixar tudo assim,
você sabe demais de mim
pra querer me esquecer tão de repente.

Meu amor, tenha em mente,
aquele futuro só a gente,
pensa em nós dois,
não deixe que apaguem as nossas delícias,
as nossas verdades sobre tudo.

Veja bem, vê pequena,
não faz assim, por favor,
eu não mereço esse final,
é de recomeço que eu preciso,
e de você comigo.

Quero o mundo colorido de nós dois,
e o cheiro de ipanema na varanda,
quero a lua nas tuas costas,
quero suas covas expostas,
quero o sol cobrindo o mundo,
ver o Rio amanhecer,
quero mais, muito mais de você.

Veja bem, olha só,
não me julgue,
mas te fiz essa canção assim tão sem querer,
eu não devia,
eu não queria que fosse tão de repente,
vê só, o Rio é frio sem a gente,
pensa bem, não faz assim, não me esquece.

Pura vida

Ela é como o verão pra minha alma,
traz ternura inexplicável,
faz sentimento bom brotar como água da fonte,
é mina de amor,
ser especial, tem luz própria.

É fogo na terra, luz dos olhos,
ela é a própria devoção,
emite simpatia sideral.

Ela é dia santo, feriado,
é a escola na avenida,
trilha iluminada, paixão,
ela é pura como a síntese da vida.

Menina dos meus olhos, sim,
menina dos olhos mais lindos,
felicidade posta a prova,
prova da bondade dos deuses,
alma fresca, dona do mais sincero encantamento,
e do meu... coração.

Imagem do dia!


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Alucinações

Pelas noites da cidade eu alucino,
invento e vejo todas as pessoas que eu perco
enquanto passo os dias dormindo,
é que eu preciso dessa paz,
preciso do mundo escuro e frio como eu conheço,
do mundo a imagem e semelhança do meu perfeito aconchego.

Sombria, calma, mortal e acolhedora,
a noite acena amigavelmente para os meus passos,
os meus caminhos, minhas decisões,
ando mais perdido do que nunca,
penso que só nela encontro qualquer norte,
qualquer pessoa que me sirva um copo d'água envenenada numa bandeja de prata,
em qualquer esquina, em qualquer das quadras da cidade,
eu busco um acerto, uma cilada,
busco um amor que me mate, uma decepção que me envelheça,
um sofrimento que me corte, uma felicidade que jorre,
um sentimento bom, uma dor que não caiba no coração.

Pelas noites da cidade eu alucino,
invento e enxergo um pouco de todas as pessoas que eu perco
enquanto passo os dias dormindo,
um pouco de todos aqueles mortos vivos,
um pouco da alma de todos os que me parecem tão sofridos;
é, eu preciso mesmo desse mundo escuro e frio,
preciso desse mundo a imagem e semelhança
do que eu carrego no meu peito vazio.

Caminho, sigo porque ainda procuro qualquer coisa,
qualquer sinal de minha vida,
qualquer pouquinho de pureza que esteja escondida por aí,
pra eu pegar pra mim,
pra eu guardar comigo e ter qualquer coisa pra sentir.

Um terço bom de uma tristeza que sufocou,
uma parte inteira de uma paixão homicida,
uma lasquinha de rancor que deu em guerra,
um bom pedaço de um grande amor que suicidou-se.

Eu quero, procuro pra pegar pra mim,
espero que respondam meu anúncio no jornal,
eu quero um bom pedaço de qualquer coisa,
de qualquer beleza ou desgraça,
pago bem, e quero agora,
antes que seja chegada a hora,
pago bem, e pode ser tristeza ou nostalgia,
mas tem que ser pra agora,
porque eu já não tenho mais saúde pra viver o dia.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O Rio

Eu não pertenço ao mundo,
eu pertenço ao Rio,
e ao frio que faz
quando faz vinte graus...

Pertenço ao endereço abençoado
dessas areias escaldantes,
dessa savana tupi-guarani,
com suas loiras movediças
e suas morenas com olhos de armadilha.

É que eu me sinto tão bem entre essas estacas
que só posso pedir que me esqueçam,
que me deixem viver entre os postos,
porque só aqui estou sempre
à postos de verdade para ser feliz...

E ainda que me tornasse escravo,
um falso, miserável
e sórdido escravo...
eu vagaria feliz
por entre esses estreitos quilômetros quadrados.

Por isso, eu insisto,
sincero, eu repito...

Não me peça para tentar,
me faça um favor,
me solte, me esqueça nesse sul,
não me chame pra outros cantos,
não me importo com outros lados...

Eu não pertenço ao mundo,
eu sou do Rio...

Criado debaixo desses braços santos,
um ser folgado, solto, manso,
relaxado...

Vivendo sempre assim,
de acordo com esse meu eu lírico
muito bem intencionado.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Imagem do dia!


A cura

Me deixe só por hoje ser feliz,
não abra sua boca,
nem fale do que acha que lhe diz respeito.

Porque da minha parte é sempre de coração
quando eu digo que não,
que não quero saber como anda o seu...

O seu.

Me deixa viver de longe
e só saber por acidente.

Me deixa viver dessa falta de amor
como quem faz disso um interesse livre-docente.
E me perdoe o tom pedante
mas isso é pela ausência de interesse, amor...

No amor.

É que eu ando ultimamente entretido,
tomado por uns sentimentos, uns estilhaços variados,
algo como um coquetel de dores sortidas,
uma compilação de fracassos...

Eu ando remexendo uns espaços,
lugares que sempre tiveram alguma coisa pra me dizer,
e que escondi muito bem escondido
pra não tropeçar no próprio sofrer.

Tô dando uma volta por aí,
revirando os vãos entre os paralelos,
as raízes daquele lugar, das pedras da nossa parte,
que não sei se você sabe
mas continuam sendo parte de um infinito desaguar.

Tô dando uma volta cercado de despretensão,
com uma mão na frente e outra no acaso...

Tô procurando pra não encontrar,
esperando uma chuva de dezembro
que me pegue de surpresa na sua rua,
e traga num tiro, num pingo morno,
aquele tempo que não parou pra você ficar.

É, eu tô nessa,
tateando qualquer coisa que me faça sentir,
que me faça não querer sumir daqui...

Algo que se misture, sincretize, incorpore
e por dentro detone...

Algo que machuque, que aniquile,
extermine, dissolva, destrua!

Algo que não seja amor
e que me cegue, me triture...

Que só guarde a síntese
e então por milagre ou piedade
me refaça e me cure.

domingo, 26 de junho de 2016

Mau humorado

Que cansaço me dá dessa gente que ama,
dessa gente que ama demais,
dessa gente que se entrega
e se parte por outras almas.

Ah, que cansaço que me dá,
escuta bem, não é desaforo,
talvez seja inveja,
mas é que me cansa, às vezes me dá náuseas.

Ainda mais pela manhã,
ah, pela manhã esse amor cai bem,
cai como um piano de cauda, do sétimo andar,
e durante à tarde, serve bem no brunch,
com um tiro na têmpora.

E à noite, ah,
à noite vem com muito mais charme,
durante a noite o amor é lindo envenenado,
espumando estricnina, vomitando toda efusividade
depois de umas boas doses de gim.

Ah, esse descaso com a vida é só cansaço,
é tudo cansaço, só porque me agride essa gente de coração enorme,
essa gente que transborda,
esse tipo que sorri o tempo inteiro.

Por isso eu fiz esse relato mau-humorado,
esse retalho de um mundo acinzentado,
para que maneirem nesse instinto de amar,
para que não me neguem solidão enquanto eu puder me ausentar.

Imagem do dia!


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Ela dança pro sol

Ela dança pro sol, faz poses siderais,
desfila de mãos dadas com seus algozes marginais,
ela faz dança firme, pisa fundo nas areias,
e desfila de mãos dadas
com tanto amor em suas veias.

Ah, morena,
morena, esses seus olhos verdes
são tão mortais e tão bons,
me trazem essa paz,
e o que é bom, é que eles sabem amar,
sabem sorrir como um Deus faz...

Ah, morena,
morena, esses olhos verdes
estão tão além de mim,
tão além do que eu posso ou do que deveria,
tão distantes de tudo que está em minhas mãos,
de tudo que eu posso fazer
e do que posso compreender também.

Ela dança pra sol, faz suas poses siderais,
se espalha como se o mundo descesse,
vira os olhos como se a terra descansasse,
ela é a festa dos anjos, o ritmo de todos os sóis,
ela é mais que o amor, em todas as suas expressões,
e ela dança pro sol, fazendo inveja aos girassóis.

Ah, morena,
morena, esses olhos verdes
transcendem explicações,
são tão perfeitos em seus tons,
que não me deixam ficar,
eu preciso te entregar.

Ah, morena,
morena, esses olhos seus,
eles são demais pra serem meus,
e você ainda precisa descobrir
mas os seus verdes são do sol,
seus olhos verdes são do sol e de mais ninguém.

domingo, 19 de junho de 2016

Em alguém

Não ouço mais Caetano em paz,
eu sinto saudades,
tudo que eu faço hoje é pra te esquecer,
não finjo, me entrego.

Porque se tudo me lembrar você,
do que sou feito eu, que hoje só vivo sem te ver,
não posso mais sair de casa descuidado,
porque se te vejo, em pedacinhos me desfaço...

E o Rio todo hoje me traz teus olhos,
traz o teu jeito em qualquer lugar,
ouço tua voz nos anúncios do rádio,
vejo você na varanda de casa...

Eu me entrego, já não finjo mais,
não ouço uma música em paz,
eu não consigo assistir nem um filme,
sempre te vejo, eu sempre te encontro em alguém.

Imagem do dia!



quinta-feira, 16 de junho de 2016

Só de sol

Eu ainda sonho com você ao meu lado,
quando dizia que eu fazia tudo errado,
mas ainda assim
me amava cada vez mais.

E hoje, eu acordo feito criança, chorando,
despertando em dias tristes como esse
em que você me aparece nos sonhos,
me aparece com esses seus olhos que me mostram outra vida,
com a sua voz que me regula,
e com o seu corpo vestido que me traz tanta agonia.

Você não entenderia, mas é que,
eu morro de medo dessa vida onde você não está,
e eu escrevo muito mais de mil palavras sofridas pra você voltar,
então volta, vem pra mim,
vem dizer que eu preciso mudar de novo,
vem sim, vem falar que você é demais pra mim,
e que eu não sei de nada e nunca vou saber,
que eu não sei de nada e sou muito pouco pra você.

É, você não entenderia mesmo,
mas ainda quero acordar feito criança do teu lado, sorrindo,
e quando você me aparecer nos sonhos, quero poder te contar tudinho,
e se os seus olhos me mostrarem nova vida, quero vivê-la com você,
ouvindo sua voz rouca todo dia de manhã,
deitado assistindo o seu corpo vestido só de sol,
me trazendo essa plenitude antes inalcançável,
assistindo o seu corpo descansando e vestido só de sol.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A gente que faz

Olhos de mar que descansam meu espírito,
e dão luz a novos ritos, todos de amar,
novos mundos na retina, na paixão que transparece,
no suor que a derrete, no gosto de sal.

Sol, só essa menina me entende assim,
sol, só ela me lê por inteiro,
só ela é que faz o tempo parar.

Com aqueles olhos de mar
mesmo nos dias mais cinzas, nas tardes mais mortas,
nos rios de tédio que arrastam a minha paz,
fazendo fogueiras no apartamento,
acendendo os corpos e inventando os nomes dos nossos filhos.

Só pra descobrir e entender que o amor é assim,
o amor é a gente em paz,
o amor é a gente que faz,
com os olhos de mar e o amor que guardamos,
as peças de roupa jogadas no chão,
só assim, sol,
só assim...

Sol, só essa menina dos olhos de mar,
só ela e as areais vão poder me guardar
aqui nesse meu rio de amor,
só ela me entende, sol,
só ela me traz das sombras,
só ela que faz assim...

Com aqueles olhos de mar e o sorriso rasgado,
as marcas no peito e tanto amor por mim,
mesmo nos dias mais cinzas,
nas noites sem vida,
no mundo mais frio e nas ruas escuras...

Sol, só essa menina me entende assim,
só, só ela me lê por inteiro,
só ela que faz o tempo parar pra mim.

Imagem do dia!


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Cena

Eu não fiz um filme pra te esquecer,
não escrevi um livro sequer,
não gravei nada com o seu nome,
eu não chorei noites inteiras.

Eu só deixei passar,
deixei bater como batem as ondas do mar nas areias,
deixei o vento levar nossa história,
eu escolhi esquecer,
quis que não morasse em mim
e que a tristeza não fosse um problema.

Eu não fiz um filme pra te esquecer,
mas deveria.

Não escrevi um livro sequer,
e eu bem queria.

Não gravei nada com o seu nome,
ainda.

Eu não chorei noites inteiras,
que mentira.

Eu só deixei passar,
como passa um trem sob um suicida.

Deixei o vento levar nossa história,
mas espalhei memórias pela casa.

Quis que você não morasse em mim
e que a tristeza não fosse um problema,
mas eu falhei, transformei todo o amor nessa cena.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Mudou-se

Mudou-se de mim, construiu novo abrigo
em novo coração, sumiu de mim,
partiu e fez-se nova mulher,
com o mesmo sorriso
e a mesma feição encantadora.

Deixou pelos espaços vazios da casa um sentimento absorto,
largou pelos cantos lembranças invisíveis,
gemidos, risadas, suspiros de amor,
viu-se curada de mim e me despedaçou,
pendeu pelo mundo sem dó do que esqueceu comigo.

Fugiu sem se dar conta do que fazia,
andou pra longe, zarpou com os olhos fundos,
fundos de fundo de mar, sem gosto de mar,
só escuro de mar, de mar muito fundo
e sem vida nenhuma.

Entorpeceu-me de falta,
negligenciou o meu amor,
retirou dos meus olhos o sorriso que me era tão necessário,
esqueceu-se do quanto vivemos,
escolheu novo mundo, quis perder-se com outro...

E eu fiquei por aqui,
pranteando essa ausência, cultivando tristezas,
regando o velho mundo com as minhas agonias,
sem querer qualquer outra,
só vivendo esse escuro e essa melancolia.

Imagem do dia!


Receita

Fisionomia Caetaneana,
veias de Gil e alma de Mutante.

Sangue de Antonio Brasileiro,
pulmão de Elis,
pés e mãos de Jackson do Pandeiro.

Coração de Maysa,
fígado de Raul,
voz de Caymmi, olhos de Chico,
amor de Cazuza.

De Tim Maia a loucura,
de Roberto mil faces.

Elementos flutuantes do samba do Zeca,
e a desistência, a impaciência,
a timidez inconcebível de João Gilberto.

Um olhar de Lobão,
um sonho de Julio Barroso,
pedaço bom de Renato,
de Gal eu quero só um beijo bem gostoso.

De Rita Lee um sentimento free,
de Cartola a tristeza mais linda,
de Vinicius toda poesia
e de Erasmo amor de irmão.

Destrambelhamento de Novo Baiano,
desassossego de Seco Molhado,
sucesso raro de Lulu,
estrela de Barão, de Titãs,
e Raimundos.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Outras vidas

Sempre me aparece na vida como em um sonho,
me trata como tratam os homens os anjos,
me faz um bem terrível, me estremece inteirinho,
tira de mim todo mal que destilo,
com um toque, um gesto, um sorriso.

Mas ela é solar demais pra mim
e isso deve ser karma do destino,
permaneço o escuro do mundo
e ela o sol da minha vida.

Sempre que aparece assim
pra mostrar que tem jeito esse tempo que a gente vive,
mostrar que tem amor, sim,
que tem gente que presta, gente que ainda ama,
gente que passa o que sente no olho,
gente que enxerga a gente com a alma,
que toca a gente n'outros planos,
que são da gente em outras vidas.

E que se fazem sofrer hoje ou se curam a gente amanhã,
se fazem a gente curtir o espírito com a luz de uma dor pura,
de uma dor que é como uma falta incompreensível e anestesiante,
é porque são da gente, porque são de outros tempos,
são sorrisos que atravessam vidas,
luzes que contam mil histórias,
dores que forjam nossas existências,
provações que mostram do que é feito o amor,
distâncias, lonjuras, coisas que às vezes desatam nós,
assuntos inacabados; abandono, raiva, perdão.

Ela sempre me faz pensar profundamente assim,
sempre que me aparece de surpresa,
sempre que vem sem dizer nada
e me abre aqueles braços,
me entrega aquele sorriso,
joga na minha cara que nessa e n'outras vidas,
é só dela que eu preciso.

Imagem do dia!


Já esteve aqui

Se você acha que eu vivo sem você,
você anda muito enganada,
é que eu vivo me enganando,
eu só me faço pros outros verem.

Minha dor, eu escondo nuns papéis com tinta,
numas dúzias de garrafas vazias,
e nuns escritos muito mal rimados
que eu tiro do fundo do peito.

Eu vivo, eu vivo sim,
eu sobrevivo,
eu ainda insisto nisso.

Mas se você acha que eu não te amo mais,
você anda muito enganada,
porque eu vivo me enganando,
eu só me faço pros outros verem.

E toda dor, eu escondo,
só uso pra sentir,
pra recordar,
pra lembrar que o amor...
já esteve aqui.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Bem nascidas

Deus me aproxime dessas meninas bem nascidas,
essas que trazem nos olhos qualquer coisa de puro e ingênuo,
essas que vivem no ritmo do mar,
no sopro dos ventos, no movimento das areias,
ah, essas meninas brancas e pretas com cor de sol
e gosto de pecado original,
essas meninas de olhos negros e olhos claros cor de céu
e gosto de final de festa.

Inspirações de todos os homens,
amores perdidos dos reis de outros tempos,
dos bobos, dos poetas e loucos de pedra,
meninas bem nascidas,
amores dos cantos dessa cidade,
das pedras, do verde, dos mares,
meninas bem nascidas,
estro inesperado dos deuses da criação,
causa fundamental de toda guerra e toda paz...

São elas, sim, essas meninas e os seus dons,
o seu passo errante pela vida,
o seu brilho crepitante absolutamente involuntário,
e a colisão inevitável com a tristeza,
com todo o desastre e desamor da vida,
as tantas lágrimas.

São elas, sim, anjos encarnados
em vida de muita dor e belas pernas,
meninas, meninas muito bem nascidas,
donas de incontáveis corações,
senhoras de muitos mundos,
almas de eternos verões.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Imagem do dia!


Parnaíba

Do teu sorriso tirei tanto amor,
muito mais do que podia imaginar,
dos seus olhos verdes fiz um imenso céu azul,
com o teu corpo quis muito mais desse canto sul.

Menina da pele cor de terra molhada,
menina minha, princesa do norte dessa terrinha,
terra de santa cruz, parte feita só de amor,
menina minha, princesa, luz do parnaíba.

Pôr do sol vermelho escuro,
matinada mais clara do mundo,
menina minha, princesa do norte dessa terrinha,
luz mais terna que já vi na vida.

Dona do meu coração que é todo dessa santa cruz,
espírito puro da minha felicidade,
divina escolha desde os olhos cruzados,
permanecemos dois perdidos, dois escravos de nós.

Pra quem

Ando enxergando você em tantos lugares,
vivo pensando sozinho onde é que você anda sem mim,
pra onde resolveu ir,
o que aconteceu com os seus olhos,
com o brilho que eles tinham,
e os sonhos todos que você me contou.

Eu ainda te encontro o tempo todo na cidade,
nas esquinas, nos nossos lugares,
nos cantos onde Deus não fez milagres,
nos dias de chuva e frio
como em poesia de Baudelaire,
nos dias de sol a pino
com o corpo perfeito de qualquer mulher.

E hoje eu vivo um Rio soturno,
um Rio que nunca vivi antes,
e virou minha tara, meu mundo,
de um jeito que nunca pensei que seria.

Mas eu te encontro o tempo todo na cidade,
nas esquinas de ipanema,
e vivo esse filme chato, repetido,
tão ruim que nem passou no cinema.

E nos dias mais azuis de fevereiro,
nas tardes cinzas do meio de maio,
você sempre me aparece feito louca,
você sempre faz o seu papel,
e eu sofro, eu sofro como sempre vou sofrer,
lembrando dos seus olhos tão longe dos meus,
lembrando que foi só de longe que notei que eu era seu.

E hoje eu vivo esse Rio soturno,
não levo em mim lugar pra mais ninguém,
e me pergunto se vale a pena
viver assim sem ter pra quem.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Nunca entenderia

Não tem sido fácil escrever,
perambulo em tempo morno,
não destilo mais qualquer ódio,
não sofro como um dia sofri.

E faz tempo que percebo que preciso mesmo é de uma boa dor,
de uma boa dose de tristezas,
de lágrimas, de desamor e desespero,
eu preciso do mundo caindo,
dos olhos incrédulos, da solidão, do disparate.

Não sei lhe dar com a felicidade,
não me parece natural, não me parece legítimo,
sinto faltas intermináveis,
sinto que me repito cada vez mais,
sinto que preciso de novas dores.

Preciso de novos olhos chorando por mim,
de novas pequenas chutando o meu amor pro esquecimento,
de novas tristezas irremediáveis,
isso tudo é como um vício, e escrever é minha ruína,
é meu olimpo e minha terra dos mortos,
escrever é minha natureza, minha tara,
meu desejo mais puro, minha válvula de escape.

E eu preciso de tristezas,
ah como eu preciso,
a verdade é que não sei ser feliz,
eu nunca entenderia,
só a tristeza é plena,
só ela me alivia,
só ela me alimenta.

Imagem do dia!


Separação

E no fim das contas
era mesmo aquela cena que faltava
o sopro derradeiro
que se dava naquele amor

Ela chorava e fazia suas malas
recolhia as coisas que mais amava
tirava tudo dos armários
repetia as frases que mais machucavam

Espalhava-se em um discurso ressentido
enquanto andava pela casa
não havia mais nada ali
eram só dois corpos habitando aquele cômodo

Revirando aquele lugar
como fariam dois abutres
destruindo o que sobrou
desligando-se do que antes foi amor

Esperando que as lágrimas não descessem
e talvez que tivessem secado
e que a dor por fim
tomasse o lugar do vazio
que já estava instaurado entre os dois.

Litros e litros

Corre sangue em minhas veias,
litros e litros
como acontece em todos nós.

Mas, por vezes,
sinto meu corpo pulsando em frequência diferente,
como se o sangue tomasse novo rumo,
mudasse a direção, buscasse novo mundo.

De fora, não sinto nada além de um forte palpitar,
mas dentro sinto faltas impreenchíveis,
vazios tremendos,
canseiras, olhos distantes,
tristezas incontroláveis.

Recolho meus pensamentos,
amalgamo os bons sentimentos,
miro boa vida e quase sempre
acerto apenas boas horas de pernas pro ar,
me retiro do escuro do céu azul de meio dia,
me escondo de tudo,
me guardo pra que o resto do mundo
não venha me procurar.

Espero o sangue encontrar de novo um bom caminho,
acertar o lado, regar o corpo devidamente,
achar as boas lembranças escondidas,
as boas andanças escondidas na extremidades,
nas cicatrizes, nas tantas agruras inexplicáveis.

Corre sangue em minhas veias,
preciso retomar o raciocínio,
vivo ideias tão confusas esses dias,
sinto falta dos meus vícios,
não funciono corretamente,
o sangue precisa acertar o caminho,
no corpo, na mente....

Mas ainda corre sangue em minhas veias,
litros e litros
como acontece com toda gente.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Morro melhor

A brisa do mar me faz pensar em nada por um instante,
mas na verdade, ela nada nos meus pensamentos,
o céu azul de abril, essas cores,
esse frio, essa bruma da manhã,
passam mil clichês pela minha cabeça.

Esmoreço, faço um café pra dormir,
sim, faço pra dormir, sonho melhor assim,
pode ser que agora ela me apareça por aqui,
sorrindo, me trazendo mundo novo,
me fazendo sentir tudo de novo.

É, é possível que ela venha,
daquele jeito que eu gostava, no final da tarde,
na hora da chuva de verão, antes dos raios e trovões,
assim como é possível também, que eu a esqueça,
que eu a deixe para trás,
que eu não a queira mais comigo.

Nublo, essas coisas soltas me deixam confuso,
passa pelo meu corpo a sensação de uma síncope,
penso demais, sofro com isso,
me enterro junto aos sentimentos tristes,
tento falar em voz alta,
fazer qualquer coisa diferente, mas é inútil.

O café fica pronto, forte, quente,
traz o cheiro da civilização pra dentro do quarto,
mas só faço pra fugir dela, faço pra dormir,
faço porque penso melhor assim,
sonho melhor, e seguramente,
se calhar, morro melhor também.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Até pra nós

Eu fecho os olhos e a vejo dançando na chuva,
marcando o tempo com os trovões,
descalça no deck da piscina,
mirando o cristo e o mar,
de peito cheio pra amar,
eu ainda a vejo assim
sempre que fecho os olhos.

Adulando seu corpo molhado,
enciumando a vizinhança,
fumando um cigarro apagado,
jogando vinho e champanhe para o alto,
cantando baixinho pra mim
que não há mal nenhum,
que não há mesmo mal nenhum...

Com o sorriso à socapa,
a pose definitiva no sofá da sala,
toda molhada, pro desespero dos seus pais,
pro desespero dos meros mortais
que só te acompanham de longe
e não sabem de nada.

Não entendem nada dos seus delírios carnais,
nem de todas as vontades loucas,
das histórias nos domingos roucos
e de todos os dias de sol a pino para se perder,
se deixar levar pelo frio do quarto.

Eu fecho os olhos e a vejo assim,
brigando porque o tempo não quis parar,
e o dia amanheceu,
e o sol apareceu até pra nós.

Eu fecho os olhos e a vejo assim,
jogando as coisas do alto da sacada de manhã,
só porque amanheceu,
e o sol apareceu até pra nós.

Imagem do dia!

Bar Castelinho Ipanema 1966

Metades foscas

Respiro agora que o dia descansou,
depois de hoje ela tem vinte e dois,
e eu ainda lembro perfeitamente de quando ela disse
que eu só fingia, que não era feliz,
foi igualzinho, foi há um ano atrás,
quando ela disse que não me queria mais.

E às vezes morro de saudades,
fico remoendo o sentimento,
sinto uma tristeza, me dá uma vontade de sumir,
e eu acabo só rezando pra não esquecer
de como a vida era bonita e ensolarada,
de como tudo era tão novo
e tão feito pra se descobrir.

Hoje eu só passo em branco pela vida,
esmoreço por nada,
não deixo uma lágrima pra chorar mais tarde,
eu me entrego a toda saudade que sinto,
saudade que sinto de mim quando era dela,
saudade que tenho aqui dentro, daquele velho mundo,
saudade de desconhecer, desvendar a cidade,
de cantar o descarte
e recitar toda a nossa poesia...

Ah, respiro de novo agora que a noite caiu,
depois de hoje ela tem vinte e dois
e eu ainda não sei o que sinto de fato,
sei mesmo é que morro de saudades...

É pena, sinto falta, sinto vontades loucas,
mas não digo muito mais, não juro nunca mais,
e assim, sigo vivendo metades foscas,
não brilho, sou muito sozinho,
mas vivo, sem ela, sem eu,
vivo, ainda.

Só por você

Abro a janela e o Leblon dos seus olhos se anuncia,
o azul do mar engana
e traz esse verde inexplicável.

Roubo você dos lençóis da cama,
me entrego ao mundo mesmo não achando tudo tão bacana,
como você sempre diz,
como você costuma dizer pra mim.

Hum, onde você esteve o tempo todo
pra acabar com as paixões bestas que senti mais novo,
eu queria ter sofrido por você,
ah, como eu queria ter sofrido por você,
só Deus saberia explicar,
só ele entenderia o que eu vivo,
como eu me sinto um bobo de frente pro resto mundo.

Tudo que não é você
é tão turvo que eu não entendo
um palmo a minha frente,
tudo que não é você o meu corpo nega,
se recusa, incompreende,
tudo que não é você,
tudo que não traz o seu sorriso.

Por isso eu escolhi viver
esse mundo lindo dos teus olhos,
por isso eu escolhi você
e escolheria mil vezes de novo...

Mas onde você esteve esse tempo todo
pra dividir as paixões do meu mundo,
ah, eu queria ter sofrido por você,
como eu queria ter sofrido só por você.

Imagem do dia!

Bang bang

Hoje eu sonhei com você,
era um filme muito ruim,
tinha bang-bang
e saia um sangue,
que todo mundo via
que era de mentira...

Hoje eu sonhei com você,
era um filme muito ruim,
tinha bang-bang
e saia um sangue,
que tudo mundo via
que era de mentira...

Mas o que eu posso fazer
se tudo que eu penso no meio tem você,
pode ser, que eu esteja doente,
pensando bem até dá pra ver,
sempre me dizem que o amor
termina em dor, e eu sei... já devia saber.

Mas eu fujo de você de bicicleta,
eu puxo o rolo até sair do cinema,
eu caio da escada, eu tomo umas paradas
pra espumar na sua calçada de manhã,
não chamem a polícia, não chamem os bombeiros,
sempre tive malícia, esqueci as boas maneiras.

Hoje eu tive um sonho com você,
era um filme muito ruim,
e tinha Woody Allen e o Schwarzenegger
fazendo uma serenata em Bombaim,
estavam todos bêbados, cantavam muito mal,
e você se jogava da sacada...

Hoje eu tive um sonho com você,
era um filme muito ruim,
a gente se esbarrava e se apaixonava,
tudo ao som de Sinatra,
mas você quis se casar e tudo acabou assim,
mais um filme muito ruim...

Mas eu fujo de você de bicicleta,
arrasto o rolo até sair do cinema,
eu caio das escadas, me enforco em uma gravata,
vomito na calçada do seu prédio de manhã,
não chamem a polícia, nem chamem os bombeiros,
juro que não dou notícia, só volto em fevereiro...

Hoje eu sonhei com você,
não era um filme nada normal,
mas eu não me lembro bem, sabe como é que é,
eu sempre esqueço tudo quando acordo no hospital.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Dia de gente desalmada

Ah, não faço mesmo cerimônia pra ser triste,
ainda mais que hoje é domingo
e domingo é dia de homem triste.

Dia de gente triste,
de ter certeza que o amor já não existe.

É que hoje é domingo
e amanhã segunda feira...

Dia de branco,
dia de algum santo sem sorte,
dia de sair pra ver
se de repente não tirou grande sorte
e a morte veio te esbarrar por aí,
te levar pra longe daqui.

Amor, vê se me acorda por favor,
me acorda num meio dia desses que você quiser,
que é pra eu lembrar que a vida é boa,
pra eu lembrar de dar umas voltas na lagoa...

Amor, vê se me acorda, tá?
Me acorda num meio dia desses que você puder,
mas vem depois do carnaval,
só pra me lembrar que agora é mesmo pra valer,
que tudo vai ser triste até o ano que vem
e não há nada nem ninguém que vá fazer isso mudar.

É, melancolia, meu chapa,
só porque hoje é domingo,
e domingo é um diazinho que maltrata,
dia de gente triste,
dia de gente desalmada.

Imagem do dia!

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Como se não tivesse ido

Foi, como se não tivesse ido,
bateu a porta e não deu mais um pio,
não me ligou, não disse adeus,
não sei pra onde foi...

Saiu da minha vida como um vento forte
que passa ligeiro dentro de casa,
sumiu das minhas vistas como fosse chuva de verão,
levando tudo que eu tinha,
tudo que eu tinha dentro de mim,
levando tudo que eu tinha,
tudo que eu tinha e vivia dentro dela.

Foi, com seus cabelos soltos,
bateu o pé e não disse mais nada,
não me contou se tinha planos,
se tinha um outro amor,
se o coração estava enfim livre de mim.

Saiu da minha vida de repente, assim, num susto,
num surto de beleza rara,
seguiu caminho novo,
caminho lindo que agora é só dela,
deixou estrada torta,
caminho frio que agora é só meu...

Saiu assim, não disse uma palavra,
deixou pra mim o clichê,
tristeza e uma garrafa de cachaça,
um blues inacabado, olhos cheios de lágrimas,
deixou pra mim porta fechada,
histórias mal terminadas
e um disco arranhado pra eu espernear.

Foi, como se não tivesse ido,
deixou um cigarro aceso no cinzeiro,
no ar um desespero
e eu dormindo sem saber de nada.

Ela foi, e acho que já era a hora,
espero que ela não demore, mas eu vou ficar aqui,
fingir que não a vi sumir,
que não a vi sair,
que nunca percebi que era um adeus.

Desapaixonado

Desapaixonado, é meu constante estado,
é como eu vivo olhando pra vida,
desapontado, decepcionado, vazio, perdido,
é como eu venho olhando pra vida.

Ah, perdi a conta de quantas vezes já escrevi sobre isso,
sobre esse vácuo que mora dentro de mim,
essa perturbação do nada,
esse infindável nada a sentir.

Nunca entendi como não me entedio com a vida,
então refleti sobre o tédio
e descobri que não sei identifica-lo,
é como o amor e a felicidade em mim,
se sinto, não sei,
se não sinto, também.

Sei que conheço mesmo a saudade,
conheço um pouco de dor,
um pouco dos sentimentos tristes,
descobri nessa reflexão que sou incompleto além de tudo,
que sou incapaz de enxergar plenamente o mundo.

Não sei se esses sentimentos que me faltam
são próprios para absorção depois da maturidade,
se um dia vou tê-los, se é preciso nascer com eles
ou pelo menos propício a eles;
às vezes acho que os perdi no escuro em que vivi,
outras vezes penso que é só medo do que é novo,
talvez um bloqueio freudiano,
um trauma qualquer que arrasto até hoje.

Só o que sei mesmo com certeza,
é que ando sem brilho algum,
perambulo com essa dor cinzelada em mim pela vida,
e não sei o que cura, se há cura, algo que apague;
mas é importante também que saibam, que não sofro de todo,
de desgosto, o que eu sinto,
é só a perplexidade diante do diagnóstico,
sempre me achei tão boa pessoa,
por vezes me indigno assim vivendo sem amor,
sem felicidade e todos os outros bons sentimentos.

Não entendo direito, esse estado é quase um efeito daqueles em preto e branco,
é como um defeito na impressão de um cartaz, algum problema insolúvel,
uma mancha incorrigível, uma deformidade inconsertável,
que sendo em um produto, apenas mandaria trocar, refazer,
se fosse um cachorro, sacrificar e esquecer,
mas sendo eu mesmo, resta apenas pensar no assunto,
avaliar cá com meus botões,
tentar não me entregar a uma eventual depressão,
e aceitar, ainda que muito contrariado,
esse estado sem graça, de homem sem brilho,
de humano sem vida, de poeta sem obra e irremissivelmente desapaixonado.