terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Desfile
O féretro com minha alma
desfila pela noite escura,
a vida do caçador,
o espelho refletindo as rugas.
Desisto sob o sol de maio,
desisto sob a luz da lua.
Eu não cobro por um olhar de cura,
sou um sátiro te querendo nua.
Sou bicho de verdades cruas,
não me aflijo por qualquer sentença.
Tenho medo quando não me acho,
eu sou dono do que você pensa.
Me encalacro como em sinuca,
quase nunca me deixo sonhar.
Todo dia é dia de festa,
toda festa sempre faz chorar.
O féretro com minha alma
desfila pela madrugada,
procura pelos corpos vivos,
destrona rainhas infundadas.
Eu sigo pelo sol de maio,
eu sigo sob a luz da lua,
cobro caro por olhares puros,
sou um sofista que vende rascunhos.
Um sábio de verdades rasas,
vivendo num baile de máscaras,
procurando o que foi perdido
e perdendo-se junto da própria alma.
Largamundo
Hoje,
o que escrevo de nada vale.
E ainda escrevo pouco,
sem inspiração,
sem transpiração,
sem brilho no olho.
Não me faltam grandes tragédias,
nem pequenas paixões.
Não é culpa do senhor das esferas,
nem dos vícios tolos desta elite rastaquera.
A culpa é minha
e deste crônico desinteresse.
Destas dores todas de quem nada sente,
desta alma rota,
rendida ao abatimento de sempre.
A culpa é, sem dúvida,
desta coisa que me faz ser eu
— e, sobretudo, deste eu tão fajuto,
tão vago e largamundo.
terça-feira, 14 de outubro de 2025
Amor aos postos
quinta-feira, 25 de setembro de 2025
Interno modernista
Pela primeira vez, não tenho
a luz do Jockey Club no horizonte —
e as nuvens baixas, agora,
não trazem nada além de chuva e névoa.
E é como se eu me despedisse,
como se eu deixasse de acreditar em tudo.
É a total obliteração do meu eu lírico —
aquele, o que sempre foi cativo da cidade;
o dono dos cantos tortos,
das pedras molhadas,
do vão entre os paralelos,
das intempestes madrugadas;
apaixonado pelas bem-nascidas,
pelos azuis ternos,
pelos doze postos,
e por uns viciados discretos,
que vagam sempre semimortos.
É difícil de acreditar,
mas aquela aura de desajuste me abandonou.
Há, agora, apenas a completa aniquilação
de um antigo eu.
E é como se eu estivesse sendo devorado —
bem capaz de um dia sumir
sem deixar pistas.
Me sinto como o Monroe e a cidade nouveau:
estou sendo internamente demolido
por um modernista.
segunda-feira, 21 de abril de 2025
Lugares vivos
domingo, 30 de março de 2025
Onde ninguém vai
é onde ninguém vai.
Onde não me encontrem,
não me irritem,
não me tirem a paz...
Já que busco paz de céu azul
e paz de céu cinzento,
dia nublado, pouca luz,
poucos acontecimentos.
Busco paz que ninguém quer,
paz difícil, de solidão,
dentro do café coado,
pisando no tapete persa.
Pensando como a vida é massa,
e em como pesa,
e o quanto pesa o coração.
Mas tudo é mais fácil
quando não há ninguém,
ninguém onde eu vou,
ninguém onde eu vivo,
ninguém que queira saber
ou que se importe comigo.
É mais fácil viver com saudade de tudo,
do que saber muito precocemente
dos sempre apinhados caminhos do mundo.
terça-feira, 25 de março de 2025
Vida & Verso
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
O imbecil da vida
O imbecil da vida
é a vida toda.
O julgamento de outros olhos
é pra sempre, o tempo inteiro.
Quase nunca vivo pra comemorar
mais um dia passado,
menos um na sentença.
Uma vida inteira
aprendendo essa dança.
Sendo máscara
esquecendo o próprio rosto,
um cativo muito omisso
da vontade do entorno.
Não sou dono, nunca,
nem responsável,
sou passageiro internado da agonia,
passageiro conformado da agonia.
O imbecil da vida
é a vida toda.
E o julgamento de tantos olhos
é pra sempre e o tempo inteiro.
Não se iluda porque não existe
o eterno e indulgente.
Todo mundo, quando quer, sabe ferir;
todo amor do mundo pode e deve te afligir.
Porque o imbecil da vida
é a vida toda.
E o julgamento dos teus olhos
vai ser pra sempre o derradeiro...
Não me iludo, eu não existo,
sou omisso e descontente.
Sempre soube que isso ia me afligir,
sempre soube que o amor ia me ferir.
terça-feira, 28 de janeiro de 2025
O velho e seu charuto
Foi numa segunda-feira ou talvez numa terça, a verdade é que eu já não sei bem.
Era bem cedo, entre quatro e cinco da manhã.
Se era na Nascimento Silva ou no Redentor, também não lembro.
Mas lembro bem daquele velho: ostentando um suspensório grená, uma bermuda desgastada de linho, camisa branca lisa e uma social listrada em branco e rosa bem aberta.
A barba grisalha levemente por fazer; eu só não me lembro mesmo dos sapatos.
Aquela cena me chamou muito a atenção. Farejei um certo desconsolo na feição daquele senhor, no jeito como ele estava ali, àquela hora da manhã, sentado de maneira pouco confortável, recostado numa jardineira dessas de rua que tinha uma grande árvore.
Era diferente. Tinha jeito de rotina, mas também tinha alguma coisa que não se encaixava.
Talvez fosse o charuto com aquela fumaça densa, ou mesmo a tristeza da solidão daquele personagem parado ali.
Não sei. Talvez fosse a hora, a postura.
Tinha cara de poucos amigos, cara de quem estava pouco interessado em tudo a sua volta.
Tinha uma melancolia toda especial naquela cena, uma coisa que a gente vê, sente, depois tenta traduzir, mas não consegue.
Imaginei que ele devia estar ali porque a mulher não o deixa fumar o charuto dentro de casa, talvez fosse uma proibição dos filhos, talvez ele tivesse um problema respiratório, talvez fosse câncer.
Mas ele não tinha cara de doente. Tinha mesmo uma consternação qualquer, uma amargura.
Talvez tivesse enterrado um filho recentemente, talvez fosse um momento de reflexão, talvez fosse vergonha de chorar em casa uma saudade qualquer.
Mas tinha jeito de ser grande homem.
E talvez aquele fosse só um dia comum em que ele precisou dar uma volta pra espairecer, dando suas baforadas pra pensar na vida.
Lembrar de velhas histórias, velhos amigos, recordar almoços de família, a mesa cheia, o cheiro da carne daquela churrascaria em Petrópolis, o nome do maître… João, Mário, Chico?
Não sabe, não lembra.
Como estaria ele, seja lá qual for o nome… será que ainda trabalha lá?
E o cheiro da carne, o sabor, o filé à Oswaldo Aranha, será que continua igual?
Talvez nem fosse tudo tão bom quanto ele lembra. O barato mesmo era a mesa cheia, a criançada dando trabalho, filhos, netos, sobrinhos, agregados.
Por onde anda todo mundo? Por que é mesmo que tudo muda?
É, talvez fosse de alguma coisa assim saudosa e corriqueira que saia aquele ar de desesperança.
Talvez fossem só lonjuras, distâncias.
Há muita gente que sofre disso, muita gente que morre disso.
Mas tem outros que não… pra alguns é só um pequeno vício, coisa de alguns minutos, dessas que vem com a insônia e vai embora com um charuto.

